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Campeonato Chinês: como esgotou a fonte da liga que ameaçou o domínio europeu

20:11 BRT 19/04/2021
Oscar Carlos Tevez Hulk Chinese Super League GFX
O CSL abalou o mundo do futebol com contratações caras entre 2016 e 2017, mas os tempo difíceis chegaram

Quando os clubes da Superliga Chinesa bateram o recorde de transferências asiáticas cinco vezes no espaço de um ano, parecia que um novo jogador importante havia entrado no mercado.

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Os negócios envolvendo Ramires, Jackson Martinez, Alex Teixeira e Hulk tinham todos gerado manchetes, mas foi a transferência de £60 milhões (R$ 451,9 milhões, nos valores de hoje) de Oscar para a Shanghai SIPG no final de 2016 que realmente chamou a atenção do mundo do futebol.

O brasileiro tinha 25 anos na época e jogava pelo Chelsea, um gigante da Premier League. Inter, Juventus e Milan se interessaram pelo talento do atacante, enquanto o Atlético de Madri achou que tinha conseguido convencê-lo a se mudar para a Espanha. 

No final, no entanto, Oscar aceitou o grande salário oferecido pelo Shangai, admitindo abertamente que a perspectiva de estabelecer sua família pelo resto da vida desempenhou um papel importante em sua decisão.

O então técnico do Chelsea, Antonio Conte, ficou surpreso, mas e tendeu o lado de Oscar, e sentiu que mais jogadores de futebol com base na Europa logo seguiriam os passos do brasileiro.

"O mercado chinês é um perigo para todos", disse o italiano aos repórteres. "Não apenas para o Chelsea, mas para todos os times do mundo".

Cinco anos depois, porém, Oscar continua sendo o jogador mais caro da história da Superliga Chinesa. Foram várias contratações notáveis desde 2016 - mas nenhuma nos últimos 18 meses. 

O mercado chinês, uma vez tão temido por Conte, entrou em colapso, juntamente com vários clubes de ponta. De fato, a nova temporada começará na terça-feira (20) sem os campeões de 2020, Jiangsu Suning, que desistiram no mês passado.

Os clubes foram atingidos por uma crise financeira devastadora. Consequentemente, os melhores talentos estrangeiros como Oscar não estão mais chegando à China; pelo contrário, estão agora partindo em massa.

Uma competição que antes parecia capaz de desafiar a natureza europeia de ser o centro mundial do futebol, agora enfrenta uma luta para manter a relevância dentro de seu próprio país.

Mas por quê? O que aconteceu com a Super Liga Chinesa? E ela pode se recuperar?

O estouro

A transferência de Oscar foi interpretada como o sinal mais claro até agora de que o objetivo do governo chinês de transformar o país em uma "potência do futebol" estava bem encaminhado.

O presidente da China, amante do futebol, Xi Jinping, já havia tentado uma série de iniciativas destinadas a aumentar a popularidade do esporte, incluindo torná-lo parte do currículo escolar em 2014. 

No ano seguinte, o governo publicou um plano de 50 pontos propondo uma série de mudanças em todos os níveis da pirâmide do futebol.

Um aspecto central do projeto era a promessa de "profissionalizar" a Associação Chinesa de Futebol (CFA) e alterar radicalmente a percepção de uma liga nacional que havia sido gravemente prejudicada por escândalos durante a década anterior.

O objetivo final, porém, era criar uma seleção nacional forte e poderosa, uma vez que a China havia se classificado apenas uma vez para a Copa do Mundo, em 2002. 

Este é um ponto-chave, dada a aquisição de estrelas estrangeiras rapidamente passou a ser visto como prejudicial ao desenvolvimento de talentos locais.

De fato, pouco antes da primeira temporada da CSL de Oscar, foi anunciado que apenas três jogadores estrangeiros poderiam participar de uma partida, e que cada lista de 18 jogadores teria que conter pelo menos dois chineses com menos de 23 anos, sendo que um deles teria que ser titular.

As regras foram novamente alteradas para a temporada seguinte. A quantidade de jogadores estrangeiros que um clube poderia ter em sua lista foi reduzida de cinco para quatro, e a quantidade que poderia ter sob contrato caiu de sete para seis.

Além disso, o número total de jogadores estrangeiros aparecendo em um jogo não poderia ser maior do que o número total de jogadores nacionais com menos de 23 anos.

No entanto, outros fatores, ainda mais significativos, ajudaram na redução da chegada de jogadores estrangeiros de alto nível.

O retrocesso

O esplendor inicial poderia ter continuado, talvez em menor escala, se cada contratação estelar tivesse provado ser economicamente rentável.

Embora houvesse inúmeras histórias de sucesso, como Paulinho, que conseguiu garantir uma convocação para a seleção do Brasil e uma transferência para o Barcelona graças a suas atuações por Guangzhou Evergrande, a CSL foi minada pela percepção de que estava sendo levada a dar uma volta por jogadores estrangeiros que procuravam ganhar um dinheiro rápido.

De fato, Carlos Tevez se referiu literalmente ao seu tempo na China como um "feriado". Shanghai Shenhua tinha feito do argentino o jogador mais bem pago do mundo quando o contrataram do Boca Juniors no final de 2016, mas ele marcou apenas quatro gols em 16 partidas e foi acusado pelo técnico Wu Jingui de estar "acima do peso" durante sua única campanha na CSL.

Até mesmo Oscar admitiu imediatamente após se juntar ao Shanghai SIPG que seu plano sempre foi retornar à Europa "dentro de dois ou três anos" para voltar a jogar "em um alto nível".

Não surpreende, portanto, que houvesse uma percepção crescente de que o dinheiro estava sendo desperdiçado em jogadores estrangeiros que estavam fazendo pouco para justificar seus salários exorbitantes, muito menos para ajudar o desenvolvimento dos jogadores locais. 

Assim, em um lance para evitar uma repetição da onda de gastos dos dois anos anteriores, um novo "imposto" foi introduzido em 2018, estipulando que qualquer clube que gastasse mais de £5 milhões (R$ 37,6 milhões, nos valores de hoje) com um jogador estrangeiro teria que pagar uma taxa de mesmo valor ao CFA.

Na prática, os times acabariam tendo que pagar o dobro do preço acordado com o clube vendedor, e isso serviria como um grande freio para contratação de grandes valores. 

A cereja do bolo

A crise econômica criada pelo Covid-19 só tornou as estrelas caras ainda menos atraentes. 

Vários clubes da CSL eram propriedade de empresas imobiliárias que anteriormente estavam dispostas a gastar muito no mercado de transferências por duas razões: estavam cheios de dinheiro durante uma era dourada para a indústria; e investir no futebol era visto como uma forma de fazer favores ao governo.

No entanto, sua disposição de injetar mais dinheiro em seus respectivos clubes foi afetada negativamente pela insistência do governo na "descorporatização" dos nomes dos clubes - uma idéia levantada pela primeira vez em 2015 e finalmente posta em prática para a temporada 2021.

A pandemia, então, apenas removeu o pouco desejo que os proprietários tinham de continuar investindo em seus clubes. 

Em fevereiro, Suning anunciou que iria "fechar e acabar" com os negócios "irrelevantes" para seu império varejista. Apenas duas semanas depois, Jiangsu encerrou suas operações, o que significa que os atuais campeões não defenderiam seu título.

Sem surpresas, a temporada agora começará com menos fanfarra do que o normal, com muitos fãs desiludidos com o estado e a qualidade de sua liga nacional.

Oscar ainda pode estar presente, mas já há muito tempo partiram Hulk, Jackson Martinez, Yannick Carrasco, Axel Witsel, Marek Hamsik e Gervinho.

E é improvável que eles sejam substituídos em breve, após a introdução de um teto salarial em dezembro de 2020, o que significa que jogadores estrangeiros não podem ganhar mais do que £ 2,6 milhões (R$ 19,6 milhões) por temporada. 

O foco agora é criar uma liga financeiramente sustentável, cujo objetivo principal é produzir jogadores jovens de alta qualidade para a seleção nacional. E, dado seu tamanho, a China ainda poderia alcançar seu objetivo de se tornar uma "potência do futebol".

Mas isso exigirá tempo e paciência. Não haverá solução rápida, não haverá gastos excessivos para ganhos a curto prazo.

O resultado líquido é que os clubes da CSL não estão mais em condições de pagar grandes taxas de transferência ou salários astronômicos, o que significa que os dias de contratações de superestrelas acabram.

Quando Oscar se juntou ao Shanghai SIPG, Conte sentiu que os clubes chineses e seus gastos grandiosos representavam um perigo claro e atual para o domínio europeu do mercado global de transferências.

No final, porém, os grandes gastadores da CSL acabaram apenas se prejudicando.