Broncas e treinos à moda antiga moldaram futuro de Gabriel Jesus

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O sucesso do atacante passa por métodos que hoje estão esquecidos por muitos clubes, mas foram utilizados no Anhanguera


REPORTAGEM ESPECIAL


Em 1928, foi fundado o Anhanguera, um clube de várzea com sede na região central de São Paulo. Quase 90 depois, apesar de algumas mudanças, ainda existe um clima de nostalgia no local. É como se o futebol tivesse parado no tempo por ali. Mas isso não é ruim. Pelo contrário: os métodos antigos do Anhanguera foram essenciais para a carreira de Gabriel Jesus, que jogou naquele campo de várzea quatro anos antes de virar um astro do futebol brasileiro. 

A passagem de Gabriel pelo Anhanguera aconteceu por causa de um projeto criado em 2011 por Sidney e Fabio Caran, pai e filho que pretendiam dar apoio a jovens de 13 a 17 e futuramente cuidar da carreira deles. Eles ajudam os garotos e só esperam ter lucro com o projeto a médio ou longo prazo. "A gente não cobra nada. Dá uniforme, chuteira, transporte e lanche em dias de jogos. Minha contra-partida é ter a opção de poder empresariá-los. E não tem contrato. O Anhanguera é à moda antiga: a palavra vale mais que a assinatura", contou Fabio. 

Esse estilo antigo de fazer as coisas aparece também nos treinos: "o método que a gente usa é dar os fundamentos do futebol, que é o mais importante. É bater com a esquerda, direita e cabeceio", conta Sidney.  

Bruno Petri, técnico que trabalhou em grandes clubes do Brasil e hoje está no Anhanguera, mostra a importância disso.

"Hoje o futebol brasileiro está confuso. Depois do 7 a 1, a gente passa por um momento complicado. Estão achando que tem que copiar tudo lá de fora. Estão esquecendo nossa origem. O Anhanguera se preocupa com a mescla. Tem um profissional com a parte moderna, mas também se preocupa com a parte específica do jogador.

"Aqui a gente acredita que essa parte específica é importante. É entender qual é a necessidade desse atleta e o que ele precisa para evoluir. O clube grande tem dificuldade para fazer isso, porque disputa campeonato, e o tempo acaba sendo pequeno para isso. Tem poucas equipes que têm feito isso". 

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Campo do Anhanguera é de grama sintética (Foto: Rodrigo Hoschett/ Goal Brasil)

Gabriel Jesus correu o risco de não passar por esse tipo de treinamento, mas isso virou essencial na carreira dele. Afinal, foi no Anhanguera que ele treinou melhor a perna esquerda e o cabeceio. Todos no Anhanguera lembram de quando Gabriel ficava chutando a bola na parede sempre com a canhota. E naquela época ainda existia um aparelho chamado "forca", que tinha uma bola presa no alto e servia para os jogadores treinarem a impulsão e o movimento do cabeceio. 

Outro defeito que Gabriel mostrou quando chegou ao Anhanguera foi o excesso de dribles:  "eu cobrei muito ele porque queria dar rolinho e dar chapéu. A gente conversou que não era esse objetivo. O objetivo é praticar os fundamentos, é toque de bola, sair e fazer os gols.  Mas nos três primeiros meses eu briguei muito com ele. Quando acabava o jogo, eu falava: 'Gabriel, é isso que você quer? Se não quiser (jogar sério), sai daqui.", conta Sidney, que precisou tirar Gabriel de um jogo por causa disso. 

"Ele tinha feito três gols, começou a dar chapéu e rolinho. Falei duas vezes com ele. Ele não atendeu, então tirei. Sei que ele ficou triste e chateado. Mas depois, no vestiário, conversei com ele. Falei que ele não pode querer aparecer para os outros. Tem que ser simples e objetivo".  

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Gabriel Jesus, em pé, é o terceiro da esquerda para direita (Foto: Reprodução)

Com esses defeitos corrigidos aos poucos, Gabriel mostrou suas principais qualidades. Todos no Anhanguera viram a mesma dedicação, disciplina e competitividade que ele tinha desde criança. Fabio contou que, mesmo durante as férias, treinava o atacante três vezes por semana, durante três horas. Douglas, preparador de goleiros, também testemunhou o trabalho de Gabriel em dois períodos, de manhã e à tarde.

O goleiro Wagner, que também saiu do Anhanguera e hoje está em time grande, no Internacional, lembra de ter levado broncas de Jesus, pois o atacante queria receber todas bolas e vencer a todo custo. Sidney contou que outros dois atletas tinham tanta qualidade quanto Gabriel, mas não conseguiram o mesmo sucesso por falta de dedicação.


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"Dou exemplo do Cristiano Ronaldo, que dá festa em casa, mas sobe e deixa os amigos lá quando é o horário dele dormir. Eu brinco: 'se o Cristiano Ronaldo, quatro vezes melhor do mundo e milionário, faz isso, imagina nós aqui no Anhanguera", recomendou Fabio. 

Com tanto talento e dedicação de Gabriel, logo chegou a hora dele sair do Anhanguera. Apesar de ser corintiano, Fabio resolveu chamar um olheiro ligado ao rival Palmeiras para observá-lo. Era Jaime Melo, um amigo da família a quem Fabio devia lealdade. E a observação dele durou pouco:  "em cinco minutos ele falou 'esse moleque é diferente, não preciso ver mais'. Eu falei 'você está brincando, está gozando com a minha cara'. Mas  com a experiência dele, nós levamos ele para lá".  

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Gabriel era o camisa 9 do Anhanguera (Foto: Rodrigo Hoschett/Goal Brasil)

Hoje Fabio e Jaime se orgulham de ter enxergado o talento de Gabriel: "fiquei contente com uma conversa no WhatsApp que tive em dezembro de 2014 com uns amigos. Eu disse que ele ia jogar a Olimpíada de 2016. Falaram que eu era louco, que só jogaria talvez em 2010". E Jaime aposta alto: "na mão de Guardiola ele chegará ao nível de Neymar e Messi", afirmou, em entrevista ao Uol recentemente. 

O futuro é incerto. A única certeza é que Gabriel já deixou um legado para o Anhanguera, de acordo com Fabio: "virou a referência. Essa é a responsabilidade que atletas como ele têm. Ele é a pessoa que deu certo, batalhou, saiu do nada e deu certo. Mais que jogador, o homem. Temos exemplo próximos. Tem foto, tem vídeo e tem quatro jogadores que saíram lá da comunidade dele". Ou seja, o passado e o futuro seguem bastante misturados no Anhanguera.

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