Bale x Zidane: os bastidores de como uma boa relação virou problema no Real Madrid

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Getty Images
Galês foi importante em conquistas do Real Madrid, mas atitudes, declarações e lesões fizeram ele perder a confiança do francês

Enquanto a temporada do Real Madrid acabava com mais uma decepcionante derrota em casa, um jogador que não estava envolvido na partida se tornou o centro das atenções no clube.

Enquanto Keylor Navas era ovacionado pelo Santiago Bernabéu em sua despedida, Gareth Bale estava sentado no banco, olhando de longe seu time ser derrotado por 2 a 0 pelo Bétis. O resultado deixou o Real Madrid em terceiro lugar, distantes 19 pontos do campeão Barcelona.

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A recusa de Zinedine Zidane de colocar o galês em campo naquele que pode ter sido seu último jogo pelo Real Madrid roubou a atenção de todos de mais uma partida ruim da equipe. A decisão também é a culminação de um processo que separou e distanciou Bale de seu técnico ao longo dos últimos anos.

“Não sei o que vai acontecer. Escalei outros jogadores. Essa é a situação, outros entraram”, disse Zidane após a partida. “Não coloquei Bale em campo hoje, é verdade, mas não sabemos o que irá acontecer. Eu estou aqui todos os dias e tomo as decisões, e quando vejo algo que não me agrada… eu já conquistei muito aqui, mas não podemos viver do passado. Esse é o presente e tomo as decisões baseados nisso”.

Nem sempre foi assim. A relação entre Zidane e Bale começou bem quando o francês assumiu o clube no lugar de Rafa Benitez no começo de 2016. Ele chamou o atacante de “intocável” e mesmo que Cristiano Ronaldo fosse o principal astro, Bale nunca ficou muito atrás.

Zinedine Zidane Gareth Bale Real Madrid Deportivo Coruna La Liga 09012016

Apesar de sofrer com lesões na temporada de estreia de Zidane, Bale foi protagonista no título de Champions League, jogando até os 120 minutos da decisão contra o Atlético de Madrid e batendo um dos pênaltis. A confiança do técnico em sua estrela não se abalou nem com as notícias de que Bale estava reclamando de cansaço na semifinal contra o Manchester City por ter jogado golfe nos dias anteriores à partida.

Para Bale essa confiança era valiosa. Ele já havia tido conflitos com Carlo Ancelotti, que se irritou com o que achava ser uma atitude egoísta do jogador. O mais grave foi durante um empate de 2 a 2 contra o Valência em que Bale decidiu resolver uma jogada sozinho ao invés de servir Karim Benzema. Ele foi substituído imediatamente por um irritado Ancelotti.

Zidane, por outro lado, apesar de ter sido assistente do italiano até sua demissão em 2015, deu um novo começo ao jogador. Bale jogou bem na Eurocopa de 2016 e confirmou os instintos do treinador: ele tinha que ser uma estrela no Real Madrid também.

O problema é que a fragilidade física do atacante sempre atrapalhava. Em novembro de 2016 ele precisou passar por uma cirurgia no tornozelo e perdeu dois meses e meio de futebol. No retorno ele parecia receoso de se machucar de novo e não atuou bem.

Algum tempo depois Bale confirmou ao treinador que estava apto para jogar em um jogo decisivo contra o Barcelona em casa, mas conseguiu atuar só 30 minutos antes de pedir para sair. O Barcelona venceu por 3 a 2. Foi mais tempo, pelo menos, do que ele conseguiu jogar na final da Champions League contra a Juventus, quando passou só 13 minutos em campo.

A temporada 2017-18 viu Zidane buscar outras opções para compensar a falta de confiança em Bale. Isco e o jovem Marco Asensio começaram a ter mais chances no time titular, deixando Bale com apenas 20 jogos de titular no Campeonato Espanhol e três na Champions League. Anunciado como sucessor de Ronaldo como Rei de Madrid, Bale estava se tornando um reserva de luxo.

Bale foi herói do 13º título de Champions League na final contra o Liverpool, mas seu rosto do jogador não parecia dizer isso após a partida. Ele se sentiu isolado no vestiário, tendo apenas Luka Modric como um amigo próximo de verdade. Talvez tenha sido por isso que minutos depois de ter feito dois gols na decisão, Bale estivesse com raiva. Ele logo mandou um ultimato direcionado a Zidane: me dê mais minutos ou vou embora. No fim das contas foi o técnico que foi embora, junto de Cristiano Ronaldo, o que acalmou os ânimos em Madrid e deixou Bale como o líder da equipe.

Mas mais uma vez sua condição física o impediu de assumir esse papel, o que atrapalhou o sucesso dos sucessores de Zidane, Julen Lopetegui e Santiago Solari. Ele passou a temporada no departamento médico enquanto o Real Madrid não parecia se importar muito. E dessa vez não teve gols na Champions League para o salvar da ira do Bernabéu.

Gareth Bale overhead kick Real Madrid Liverpool Champions League final 260518

O retorno de Zidane 10 meses depois de sair do cargo foi o começo do fim. Não contente com o que já tinha dito na frente de todos após a final da Champions League, em fevereiro Bale de novo atacou o francês: “Eu estava muito frustrado por não ser titular”, disse à revista Four Four Two.”Eu joguei bem desde que voltei. Marquei cinco gols nos últimos quatro jogos do Campeonato Espanhol e senti que deveria ter sido titular”.

“Zidane não falou comigo sobre isso. Não conversamos desde então. Nossa relação era boa. Não diria que somos melhores amigos, mas era uma relação profissional normal”, concluiu.

Essas palavras atingiram Zidane profundamente. Naturalmente introvertido, ele valoriza lealdade acima de tudo. Desde que ele retornou a Madrid, todos percebem que estes são os últimos dias de Bale na equipe.

Ele não defendeu Bale publicamente, nem quando o Bernabéu passou a atacar o galês em campo, o que piorou ainda mais a tensão. A queda de Bale também veio acompanhada de diversas acusações de “traição” de seus companheiros. Marcelo disse que Bale não aprendeu nada de espanhol mesmo após cinco anos em Madrid e Thibaut Courtois disse que Bale não tinha amigos no vestiário e que preferia jogar golfe a participar de eventos do time.

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Na última segunda-feira, horas depois de ser desprezado no Bernabéu, Bale estava de novo jogando golfe. A imprensa da Espanha diz que sua reação ao ser deixado de fora contra o Bétis também envolve este esporte: “Se eles querem que eu vá é só me pagar 17 milhões de euros por ano. Se não, eu fico. Se tiver que jogar golfe, eu jogo”, foram suas supostas palavras depois da derrota.

Bale ainda tem três anos de contrato e um salário que garante que sua venda não será fácil. Mas as chances dele jogar para Zidane de novo são praticamente nulas, o que marca o fim de um período em Madrid onde ele venceu quatro Champions League mas raramente alcançou o reconhecimento que seu talento e suas conquistas mereciam.

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