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Açougueiro fez Jorge Jesus passar de jogador a treinador da noite para o dia

09:00 BRT 14/10/2019
Jorge Jesus - Amora (Foto: Arquivo pessoal)
Aos 35 anos, JJ trocou a reserva do Almancilense para prontamente assumir o comando do Amora em 1989

O Almancilense parecia entregue. Sem qualquer tipo de sustos, o Amora vencia em casa por 3 a 0. Na volta do intervalo, um meia cabeludo e falador salta do banco de reservas para mudar o cenário da partida. E também o próprio destino no futebol.

Aos 35 anos, Jorge Jesus foi o responsável direto pela reviravolta no placar: 3 a 3. Esteve próximo de garantir uma surpreendente vitória de virada. Faltou pouco. No entanto, não voltou para casa de mãos vazias. Ali mesmo, no Estádio da Medideira, passou por uma transformação radical na carreira.

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Mário Rui, famoso açougueiro da região do Seixal, a 25km de Lisboa, e também presidente do Amora na ocasião, enxergou no então adversário um perfil único de liderança e conhecimento tático. Não somente no papel de jogador. O já falecido dirigente não pensou duas vezes, desceu ao vestiário e, numa conversa que durou poucos minutos, convenceu Jesus a ser novo treinador da equipe.

Dois dias depois da abordagem atípica, JJ já estava a comandar os treinos no Amora, onde trabalhou de 1989 a 1993 e colecionou histórias curiosas, entre elas ter usado a mesma roupa (calça de linho e camisa de manga curta) durante uma sequência de invencibilidade de 16 jogos. 

Nos primeiros quatro anos na nova função, Jorge Jesus teve sempre ao lado o atacante português Jorge Paixão, hoje treinador do time reserva do Shenzhen FC, da China

"O Jorge [Jesus] sempre teve uma grande preocupação com os detalhes, seja nos treinos ou nos jogos. O nosso trabalho físico era feito com bola, algo incomum naquela altura. Era muito exigente, principalmente na questão tática. A nossa equipe marcava por zonas, e tínhamos êxito numa estratégia então nova no futebol português. Foi a primeira pessoa que ouvi falar em 'bola aberta' e 'bola fechada'. Era mesmo muito evoluído", revelou Paixão.

"Era óbvio para mim que ele teria uma carreira brilhante pela frente. Sempre foi um profissional 'agressivo', sempre viveu tudo com muita intensidade. Às vezes a exigência no dia a dia era acima da média, a exaustão era visível. Exagerava um pouco, é verdade, mas era - e ainda é - um grande profissional", completou.

Jorge Jesus assumiu o Amora aos 35 anos (Foto: Arquivo pessoal)

Nada se cria, tudo se copia. Ou se aprimora. Os históricos Johan Cruijff, no Barcelona, e Arrigo Sacchi, no Milan, foram os maiores inspiradores do treinador português que agora tem feito sucesso no Flamengo, sendo líder do Brasileirão e semifinalista da Copa Libertadores.

"Até mesmo os treinos nas vésperas dos jogos eram feitos com muita seriedade e intensidade, visto que ele [Jorge Jesus] tinha aprendido boa parte disso na Espanha e na Itália. A exigência dele com os atletas sempre foi um diferencial", explicou o ex-zagueiro Baidek, que foi o primeiro brasileiro a ser comandado por Jorge Jesus, no Amora, em 1990.

Jesus, hoje com 65 anos, acabou por deixar o Amora por problemas internos. Uma saída que causou revolta e até mesmo comoção no elenco - muitos jogadores, inclusive, choraram no momento da despedida. Dali em diante, o treinador não parou de crescer na carreira iniciada a convite de um açougueiro, tendo passado por Felgueiras, União da Madeira, Estrela da Amadora, Vitória de Setúbal, Vitória de Guimarães, Moreirense, União de Leiria, Belenenses, Braga, Benfica e Sporting, todos de Portugal, e Al Hilal, da Arábia Saudita.