O futebol e a história falharam com um de seus melhores filhos

Lionel Messi anunciar sua aposentadoria da seleção argentina sem títulos é uma das grandes injustiças que tornam o esporte tão apaixonante

Cabeça quente e uma decisão que não foi para valer. Uma escolha irrevogável e verdadeira. Certo. Errado. Independentemente da sua opinião, Lionel Messi anunciou, na madrugada de domingo para segunda-feira, sua aposentadoria precoce da seleção argentina, aos 29 anos. Não cabe a nós julgar a decisão do craque, que é pessoal e precisa ser respeitada. Só podemos imaginar o enorme tamanho do fardo e da responsabilidade que o camisa 10 carrega, mas não sentir e saber exatamente como é. Nós não temos ideia do que ele passa, e é, no mínimo, incrivelmente arrogante querer julgar essa escolha.


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"Não existe justiça no futebol", diz o ditado. O futebol foi injusto com Messi, e falhou com um de seus melhores filhos, assim como a história.

O camisa 10 é um dos melhores da história. Isso não se discute. Dono de atuações, jogadas e gols inesquecíveis, cinco Bolas de Ouro, outros incontáveis prêmios e uma infinidade de títulos - todos os possíveis por clubes - pelo Barcelona. No entanto, sempre existiu uma enorme pressão por ele não conseguir repetir os feitos pela Argentina. Críticas injustas pelas várias diferenças de um time para uma seleção, pela forma de trabalho, pelos companheiros, adversários, esquemas táticos e sistemas de jogo distintos e pela pressão enorme do jejum albiceleste, sem títulos de expressão com sua equipe principal desde a Copa América de 1993.

As críticas também são injustas porque Messi viveu grandes momentos, teve atuações memoráveis, marcou golaços e produziu lances incríveis pela seleção argentina. As Eliminatórias Sul-americanas para a Copa de 2014, o próprio Mundial no Brasil e as últimas três edições da Copa América deixaram isso muito claro. Falta, porém, a coroação de um título. O gênio do Barça e sua geração foram vitoriosos nas categorias de base com dois ouros olímpicos, em 2004 e 2008 - o craque do Barça faturou a medalha em 2008 -, e um Mundial sub-20, em 2005. No entanto, nenhuma taça foi erguida pela equipe principal argentina, com Messi e a Albiceleste amargando alguns vices, principalmente os últimos três, na Copa do Mundo de 2014, na Copa América de 2015 e na edição centenária do torneio continental neste ano.

Parecia, no entanto, que a escrita finalmente ia mudar, e que Messi, enfim, seria coroado como uma conquista pela seleção principal, realizando não só o seu sonho, mas o de toda a sua nação. O camisa 10, afinal, nunca deu um show tão absurdo por seu país como o espetáculo que proporcionou nos Estados Unidos, e a Argentina nunca pareceu tão pronta e próxima do fim do jejum. Até se tornar o maior artilheiro da história da Albiceleste, o gênio se tornou. Neste domingo, porém, tudo deu errado.

Messi e a Argentina sumiram na decisão. Nem mesmo quando teve um jogador a mais, a Albiceleste conseguiu ser melhor que o Chile, que controlou o jogo e provou ter mudado de patamar nos últimos anos. Irreconhecíveis, o camisa 10 e seus companheiros passaram longe de repetir as ótimas atuações que vinham tendo no torneio - Higuaín, que era o vice-artilheiro da equipe na competição, atrás de Messi, voltou a perder um gol fácil em uma final, por exemplo; Banega foi muito aquém do esperado; e o camisa 10, apesar de causar a expulsão de Díaz, pouco produziu -, enquanto a Roja, que não vinha rendendo o esperado nas Eliminatórias Sul-americanas para a Copa do Mundo de 2018 e começou a CA100 decepcionante, comprovou sua recuperação atropelando o México, vencendo a Colômbia e fazendo um bom jogo contra os hermanos.

O time de Pizzi recuperou sua confiança tática, jogou em alto nível técnico e mostrou a conhecida intensidade para não deixar o rival respirar, marcando sob pressão, sempre forçando o erro do adversário, e também a qualidade para manter a posse de bola, trocar passes, se movimentar e trabalhar as jogadas, com a ótima técnica do meio-campo e o ataque muito perigoso. Arturo Vidal, por sinal, fez bela partida na final.

Ainda assim, a Argentina conseguiu levar a decisão para a disputa de pênaltis. E nela, a história e o futebol mais uma vez falharam com um de seus melhores filhos. Messi cobrou mal a sua penalidade, e o Chile se sagrou bicampeão da Copa América. Mais uma final perdida, a quarta. A ampliação do jejum. Mais críticas. Mais cobranças. Mais uma desilusão.

Messi entra de vez na galeria dos craques históricos que nunca conquistaram um grande torneio por sua seleção principal. Cruyff nunca ganhou um troféu pela Holanda, e perdeu a final da Copa de 1974 com o mágico esquadrão que ajudou a transformar o futebol. Zico e Sócrates não têm uma grande conquista sequer com o Brasil, e ficaram marcados com a fantástica seleção de 1982, sendo que o número 10, como o argentino, ainda perdeu uma penalidade em 1986. Por seleções, Alfredo Di Stéfano e Eusébio são outros que também passaram em branco. Puskás, assim como Messi, conquistou uma edição do torneio de futebol nos Jogos Olímpicos, mas não tem outra conquista gigante com a Hungria, e o camisa 10, com um escrete fenomenal dos Magiares, foi derrotado na final do Mundial de 1954. Isso para citar apenas alguns gênios absurdos da história do futebol. Messi e sua ótima geração, uma das melhores da história do futebol argentino, também entram na galeria com os três vices na Copa América e a derrota no Brasil em 2014.

(Fotos: Getty Images)

É claro que uma conquista com a Argentina tornaria Messi ainda maior, mas não acho que a ausência de uma taça com a seleção principal de seu país o torne menor. É uma marca, com certeza, mas não diminui o tamanho da lenda. Messi sempre será lembrado como um dos maiores jogadores da história, independentemente dos fracassos com a Albiceleste. E, de qualquer forma, ele tem um ouro olímpico, algo tão perseguido pelo Brasil. Claro que não é uma conquista com a seleção principal, mas chama atenção a diferença do peso e da forma com que o torneio é abordado pela imprensa brasileira. É como se ele não tivesse peso algum ao comentar o jejum de Messi, e fosse algo importantíssimo ao falar da necessidade tupiniquim de conquistá-lo.

O gênio, porém, não merecia essa marca. A geração de Ángel di María, Kun Agüero, Ever Banega, Gonzalo Higuaín e companhia não merecia isso. Messi chegou em quatro finais com a Argentina, e não ganhou uma sequer. Ele sempre será lembrado pela genialidade e incontáveis lances mágicos, golaços, passes e dribles absurdos, e sempre nos fazer sorrir com jogadas impressionantes. A infinidade de títulos com o Barcelona é completamente anormal, assim como seu futebol que não é deste mundo. No entanto, alguns, infelizmente, sempre irão comentar e lembrar de seu jejum com a Albiceleste e das atuações apagadas nas finais, ainda que ele também tenha tido partidas memoráveis com a camisa de seu país. O futebol e a história falharam com um de seus melhores filhos, o melhor dos últimos anos, o símbolo do jogo bonito que tanto amamos. Lionel Messi, definitivamente, não merecia isso.