Fernando Martinho: A falta de grife

"Imagine se Márcio Araújo é convocado, mesmo jogando em altíssimo nível. Todos tentariam ridicularizar, transformar em piada"
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Existem jogadores que por onde passam se tornam titulares. Invariavelmente, no entanto, são relegados a um posto menos valorizado. Sempre sendo os primeiros a serem sacados do time quando se contrata um jogador de “maior calibre”. Eis que o tempo passa, e aquele primeiro atleta retoma sua condição de titular.

O caso específico de Márcio Araújo no Flamengo evidencia uma clara visão preconceituosa, porém não maldosa. Seu rival de posição, Rômulo, chegou e logo de cara foi alçado à titularidade. Ninguém se atreveu a questionar a importância de Márcio Araújo na campanha sólida de 2016. Atribui-se muito à Diego, com razão em parte, o crescimento do Flamengo de 2016 ao longo do campeonato, que terminou em terceiro lugar.

Zé Ricardo, o jovem técnico conseguiu dar ao time uma solidez e padrão de jogo que seu antecessor, o tarimbado Muricy, passou longe, tendo sido eliminado — merecidamente — na Copa do Brasil pelo Fortaleza, por exemplo. E justamente nesse time bagunçado de Muricy, Márcio Araújo passava longe. Willian Arão chegava ao ataque como um faz tudo, e Cuéllar, contratado justamente para o lugar de Márcio Araújo não conseguia arcar com as funções defensivas. Mas sua qualidade técnica era enaltecida a cada jogo.

Veio Zé Ricardo como interino e Márcio Araújo se tornou um pilar daquele time que foi indo indo e… Começa 2017, chega Rômulo. Um jogador chancelado por ter atuado no futebol europeu. Márcio Araújo não goza desse atributo. Ao contrário, se é colocado entre os reservas parece encontrar mais disposição e energia quando lhe é solicitado entrar em campo. Sem nunca reclamar.

Faz lembrar um pouco, seu perfil, outro nordestino: Ronaldo Angelim. O estilo low-profile — inclusive de jogo — que não se aventura com jogadas de efeito, e não arrisca passes ousados, jogando o feijão-com-arroz que tanto se defende, acaba se tornando um peso contra o jogador. Márcio Araújo foi ridicularizado em um print de uma mensagem de Whatsapp. Foi estigmatizado num período que o Flamengo atravessava trocas constantes de técnicos, e por não ter uma chancela europeia, carrega essa cruz.

Romulo Resende Flamengo Carioca 18032017Foto: Gilvan de Souza/CR Flamengo/Divulgação


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O volante que não erra passes, que rouba bolas como ninguém, que faz o trabalho sujo, sempre recebe diminutivos sobre suas maiores qualidades. Se acertou um passe mais longo, é porque se tratava do Bangu. Se roubou muitas bolas é por deficiência técnica do rival. Já Rômulo é defendido por não ter tido tempo para se adaptar ao futebol brasileiro. Por não ter participado da pré-temporada completa.

Qual tempo de adaptação Diego teve em seu retorno da Europa? Ficou treinando um longo período até poder ser escalado, esperando a reabertura da janela de transferências internacionais, mas é justamente de jogo que o jogador precisa para entrar em forma, não é mesmo? Diego chegou chegando. Rômulo não. Mas o fato de já ter sido convocado para a Seleção, e ter vindo da Europa o coloca num patamar que Márcio Araújo não está.

Uma certa vez, José Trajano falou disso. De certos jogadores não contarem com uma simpatia por parte da opinião pública, leia-se imprensa. Ele se referia ao pequenino Madson que, na época, militava no Vasco. Como Trajano disse naquele momento: “estava jogando pra chuchu”, mas ninguém sequer o especulava na Seleção.

O mesmo caso pode se aplicar a Pará. Que desde a arrancada do Flamengo em 2016 se consolidou jogando um belíssimo futebol. Nunca, jamais, sequer se mencionou o nome dele quando o assunto era convocação. No entanto, o nome de Fágner estava lá, com seus méritos, mas como se Fágner estivesse jogando muito e o Pará nada. Não é verdade. Longe disso.

Já Alex Muralha, que simplesmente estava ali, na campanha de 2016 do Flamengo, de repente, acabou sendo convocado, mesmo sem estar desempenhando um papel esplendoroso. E ninguém se contrapôs! Por quê? Imagine se o Márcio Araújo é convocado, mesmo jogando em altíssimo nível. Ninguém admitiria. Todos tentariam ridicularizar, transformar em piada. Não que ele seja um Didi ou Gérson, mas não é um botineiro que dizem ser tampouco. O que lhe falta é grife.

Fernando Martinho colunista - só usar no rodapé Fernando Martinho é jornalista e publicitário, classe de 1982. Editor da revista Corner, trabalhou com publicidade até 2013. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 97 ou de Petković em 2001). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. À noite, ataca como DJ e nas horas vagas, caminha com cães. Sigam-me os bons: @fern_martinho