Uma viagem aos antigos estádios de América-MG, Atlético-MG e Cruzeiro em BH

Protagonistas do futebol nacional nos últimos anos, clubes mineiro ainda estudam a possibilidade de voltarem a ter seus próprios territórios

Ninguém pode negar que as últimas duas temporadas do futebol brasileiro foram gloriosas para as Minas Gerais. Os títulos da Copa Libertadores e da Copa do Brasil, pelo Atlético-MG, e o bi  do Brasileirão, façanha do Cruzeiro, elevaram Belo Horizonte a condição protagonista nos gramados do país.

No entanto, apesar de todas as conquistas recentes, o fator "território" é um tema controverso entre os mineiros. Afinal, Galo e Raposa não podem se gabar de terem um estádio. Os  rivais até já prepararam projetos para viabilizar o sonho da "casa própria", mas nada ainda saiu do papel.  Somente o América-MG, que segue na Série B do Brasileiro, se vangloria de poder atuar em seu domínio: o Independência.

Uma volta no tempo e o cenário muda por completo.  Os três maiores clubes de BH se orgulhavam dos seus campos. A dupla América-MG e Atlético-MG vai além, pois cada clube contou com dois no passado, ambos na área central da cidade.

Inimigos íntimos

A rivalidade entre Coelho e Galo começou em meados de 1910, com os campos vizinhos da  antiga Avenida Paraopeba, nas proximidades da praça Raul Soares, como conta Alexandre Simões, historiador e repórter especial do Jornal Hoje Em Dia.

“Inclusive, os primeiros estádios deles eram um de frente para o outro, somente com uma  avenida separando. Na época, se chamava Avenida Paraopeba, agora Augusto de Lima. O América-MG jogava onde hoje está o Mercado Central, estádio inaugurado em 1913. O Atlético tinha um ali no Minascentro, de 1912. Depois, eles fecharam esses estádios e foram para terrenos não muito longe dali”, relembra Simões.

Galo se muda para Lourdes

Na década de 20, por meio de uma permuta com a Prefeitura, o Galo cedeu o terreno na Avenida Paraopeba e deu início à construção do Estádio Presidente Antônio Carlos, no Bairro Lourdes, a poucas quadras do seu antigo "terreiro". Com capacidade para 5 mil pessoas, o Estádio de Lourdes, como ficou conhecido, abriu as portas em 30 de maio de 1929. 


Estádio de Lourdes: de 1929 a 1969 (Foto: Centro de Memória Atleticano)

Logo, o  lugar se tornou referência no Brasil. Na festa de  inauguração, recebeu o duelo Atlético- MG x Corinthians, que se consagraria como um dos grandes clássicos do futebol nacional. Com as arquibancadas lotadas, os donos da casa derrotaram a equipe paulista, por 4 a 2, com gols de Mário de Castro (3) e Said. Valeriano e De Maria descontaram  para o Timão.

Porém, o futuro do Estádio de Lourdes acabou sentenciado. Na  década de 50, o Galo passou a mandar seus compromissos no recém-inaugurado Estádio Independência. Para 30 mil pessoas, e pertencente ao Sete de Setembro Futebol Clube, o Gigante do Horto sediou os jogos de Belo Horizonte na Copa do Mundo de 1950.

Fechado em 1969, o Estádio de Lourdes foi arrendado pelo Atlético-MG e, após ser demolido nos anos 90, deu lugar a um shopping - o Diamond Mall -, que pertence ao clube alvinegro. A sede do Atlético-MG fica na esquina do empreendimento.

Alameda do Coelho, Raposa no Barro Preto

Com uma narrativa semelhante ao Atlético-MG, o América-MG deixou a Avenida Paraopeba rumo ao bairro de Santa Efigênia. Lá, o Coelho ergueu o Estádio Otacílio Negrão de Lima. A Alameda, inaugurada em 1928, tinha capacidade para 15 mil torcedores. O estádio passou por uma grande reforma na década de 40, mas foi demolido 30 anos depois. Hoje, é um supermercado.

“E assim também surgiu o Estádio do Barro Preto, o Estádio JK do Cruzeiro, de 1923. O Barro Preto também é um bairro muito central de BH, onde está o Fórum da cidade, uma área bem comercial, com lojas de roupas. Então, o que inviabilizou o crescimento desses estádios é que ficam em áreas muito populosas. Não havia como expandir”, explica o jornalista Alexandre Simões.


Estádio do Barro Preto: de 1923 a 1986 (Foto: Acervo Cruzeiro)

Sede Administrativa do Cruzeiro (Foto: Divulgação/Cruzeiro EC)

O Estádio Juscelino Kubitschek, ou Estádio do Barro Preto, foi o primeiro e único estádio próprio do Cruzeiro. O clube ainda se chamava Palestra Itália e conseguiu naquele campo a maior goleada de sua história: uma vitória de 14 a 0 contra o Alves Nogueira, no Campeonato da Cidade de 1929. A Raposa manteve o terreno do seu primeiro campo. Atualmente, estão nele a sede social celeste e o Parque Esportivo.

Mineirão e Horto entram em cena

Com o investimento do governo de Minas na construção e manutenção do Independência e do Mineirão, estádios maiores e mais afastados do Centro de Belo Horizonte acabaram em segundo plano para América-MG, Atlético-MG e Cruzeiro.

“A impressão que a gente tem realmente é que os clubes não deram, naquele momento, a devida importância à necessidade de ter uma casa. Atlético e Cruzeiro acabaram perdendo a oportunidade de ter o seu próprio campo porque que se acomodaram com o Mineirão”, frisa Simões.


Mineirão: desde 1965 (Foto: Portal da Copa)

Independência: desde 1950 (Foto: Bruno Cantini/Atlético MG)