'Nem em 100 anos o Benfica será campeão europeu novamente' - A incrível maldição de Bela Guttmann

COMENTÁRIO: Depois de 52 anos, a maldição de um ex-treinador amargurado ainda persegue o Benfica. Será que os Encarnados serão capazes de vencer o vodu desta vez?
A maldição de Bela Guttmann já passou de 50 anos, mas nós nunca saberemos com certeza quais foram as exatas palavras do grande treinador húngaro.

A versão mais clássica e popular da história diz que ele declarou, após sua saída amarga do clube, em 1962: "Nem em 100 anos o Benfica vai conquistar outra Copa Europeia". A exatidão das palavras, entretanto, não é conhecida.

A razão pela qual Guttmann saiu de forma tão abrupta de Lisboa teve tudo a ver com a recusa da direção do Benfica em aceitar lhe pagar uma bonificação pela conquista da Copa Europeia duas vezes seguidas. Teorias alternativas afirmam que ele declarou em uma entrevista que precisaria de 100 anos até que outro time português conseguisse conquistar duas vezes uma taça continental.

Qualquer que seja a versão que você queira acreditar, todas as previsões de Guttmann - verdadeiras ou ficção - se tornaram realidade. A dívida nunca foi paga e o sucesso europeu abandonou o clube desde então. As Águias chegaram à decisão da Copa Europeia em cinco outras oportunidades desde a famosa profecia de Guttmann, e perderam em todas.

Em 1963, o Milan destronou-os; a Inter conseguiu o título dois anos mais tarde; o Manchester United de Matt Busby venceu a famosa final de Wembley na prorrogação em 1968; o PSV ficou com a taça nos pênaltis em 1988; finalmente, em 1990, o Milan foi o campeão vencendo por 1 a 0.

Aquela histórica final aconteceu em Viena, onde Guttmann - que morreu há 33 anos - está enterrado. O grande Eusébio visitou o seu túmulo antes da partida para rezar e pedir para que a maldição fosse removida. Não deu certo.

Na temporada passada, o Benfica chegou à final da Europa League em Amsterdã apenas para cair vítima da maldição novamente, com o Chelsea levantando o caneco após um gol nos acréscimos de Branislav Ivanovic para fazer 2 a 1 para os Blues.

Guttmann era um personagem extremamente controverso e carismático. Gostava de ser o centro das atenções, tomando decisões ousadas e fazendo declarações audaciosas. Diferentemente dos seus colegas de profissão, sua crença era de que ele jamais deveria ficar no mesmo clube por muito tempo.

"Um técnico é como um leão. Ele domina os animais enquanto demonstrar confiança e não tiver medo. Mas quando os primeiros sinais de medo aparecem nos seus olhos, ele está perdido," dizia.

Sobre seus comandados, o Húngaro uma vez afirmou: "Durante a primeira temporada, o técnico pode trabalhar quieto, na segunda é mais difícil, a terceira é fatal."


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Guttmann quase nunca passou sequer dois anos no mesmo clube. Tornou-se um eterno andarilho, traindo e sendo traído quase toda temporada.

Em 22 anos, entre os anos de 1945 e 1967, ele trocou de clube pelo menos 18 vezes. Sempre que havia algo que o desagradasse, simplesmente caía fora e partia em busca de um novo projeto.

Um dos primeiros exemplos aconteceu no clube romeno Ciocanul, onde Guttmann recebia seu salário em vegetais por conta dos problemas com comida no país. O presidente ousou pensar que poderia influenciar na escalação do time. "Você sabe o básico. Boa sorte!" Guttmann disse, e foi embora.

No Kispest, o grande clube húngaro do período pós-guerra, ele teve dificuldades de relacionamento com Ferenc Puskas, cujo pai o sucederia como treinador. Quando o 'Major Galopante' tentou convencer um jogador a ignorar as instruções táticas no intervalo, o húngaro simplesmente foi para a arquibancada e depois tomou o trem para casa, para nunca mais voltar.

Provavelmente sua declaração mais bizarra foi dada quando o Milan decidiu mandá-lo embora em 1955, apesar do time estar liderando a liga e jogando ótimo futebol. "Fui demitido, apesar de não ser nem criminoso, nem homossexual," Guttmann afirmou aos jornalistas.

Apesar de impertinente, Guttmann era um estrategista brilhante. Seria justo dizer que ele teve papel fundamental no triunfo do Brasil na Copa de 1958, exportando seu revolucionário sistema 4-2-4 para a América do Sul enquanto trabalhava no São Paulo, que ele guiou ao título estadual.

Mas seu maior sucesso veio em Portugal, onde começou com o Porto e ganhou a liga em 1959, roubando-a do Benfica já na reta final.

Guttmann tornou-se um eterno andarilho, traindo ou sendo traído quase toda temporada

Seu próximo passo foi deixar o clube e ir parar no maior rival, Benfica, onde ganhou mais duas ligas nacionais e duas taças europeias. Sua filosofia ofensiva era extremamente bem sucedida. "Não me importa se o adversário marcar algum gol, porque eu sei que sempre irei marcar mais," declarou.

Foi exatamente o que aconteceu na grande final de 1962, em Amsterdã, quando o Real Madrid abriu 2 a 0 e depois 3 a 2 com um hat-trick de Puskas, apenas para o time português vencer por 5 a 3 graças a Eusébio. Depois do apito final, Puskas deu sua camisa ao jovem moçambicano em admiração.

O Benfica foi o único time em toda a carreira de Guttmann onde ele permaneceu por três temporadas completas. O húngaro poderia ter seguido lá e construído um império semelhante ao do Real Madrid nos anos 50, com Eusébio e Mario Coluna o idolatrando. Mas isto seria fugir completamente da sua personalidade e ele, então, decidiu atacar seus superiores, exigindo uma bonificação generosa pelos dois títulos e, depois, fazendo sua maldição.

"Nem em 100 anos o Benfica vai ganhar outra Copa Europeia."

Cinquenta e dois anos mais tarde e o Benfica está a apenas 90 minutos de encerrar o seu vodu europeu. O time de Jorge Jesus chegou à final jogando um futebol ofensivo semelhante ao dos melhores times de Guttmann - mas serão eles fortes o suficiente para bater a maldição mais forte da história do futebol?