A derrota do Benfica para o Chelsea e a maldição de Bela Guttmann

Mais do que uma semana azarada, a derrota encarnada para os Blues na decisão da Europa League marca 50 anos de um tormento que começou com a maldição de um ex-treinador
COMENTÁRIO
Por Marcella Martha

A derrota do Benfica na final da Liga Europa pode ter sido surpreendente, dada a forma como aconteceu. As Águias eram, indiscutivelmente, o melhor time em campo, durante a maior parte do tempo, e o gol que eventualmente decidiu o destino da taça saiu no último minuto de jogo, quando todos já se preparavam para, no mínimo, mais 30 minutos de bola rolando.

A atuação da equipe e o empate de Oscar Cardozo depois dos Blues saírem na frente pode ter dado a impressão, por um momento, de que o Benfica estava pronto para levantar uma taça europeia de novo, depois de 51 anos. Contudo, ao ver o Chelsea alcançar uma heróica vitória no apagar das luzes, a frase 'Eu já sabia' deve ter passado pela cabeça dos torcedores benfiquistas, e até de alguns dos jogadores - certamente do técnico Jorge Jesus e do ídolo Eusébio, que acompanhava a partida ao lado do presidente da UEFA, Michel Platini.

A MALDIÇÃO QUE PERSEGUE O BENFICA

MILAN SAGRA-SE O 1º CAMPEÃO ITALIANO
1963
O Benfica chegou à final pela terceira temporada consecutiva, mesmo sem Guttmann, mas o Milan venceu por 2 a 1 graças a dois gols de Jose Altafini, cancelando o gol de Eusébio, que abriu o placar.
INTER CONQUISTA O 2º TÍTULO SEGUIDO
1965
Dois anos mais tarde, o Benfica tinha grandes esperanças de voltara ser rei da Europa, mas desta vez outro time de Milão, a Inter, apareceu para levar a taça para casa, com um 1 a 0 no San Siro.
MANCHESTER UNITED LEVA A TAÇA
1968 Dez anos depois do acidente que matou os Busby Babes do Manchester United, no acidente aéreo de Munique, em 1958, os Red Devils se reergueram das cinzas para conquistar seu primeiro título europeu, condenando o Benfica a uma terceira derrota em final em seis temporadas. George Best foi o astro da goleada por 4 a 1.
PSV LEVA NASPENALIDADES
1988
Vinte anos depois da última derrota em decisão, o Benfica foi novamente despachado, desta vez pelo PSV de Guus Hiddink, nos pênaltis, depois de um 0 a 0 no tempo regulamentar. O PSV conquistou a taça em ter vencido nenhuma partida das quartas-de-final em diante.
MILAN BATE O BENFICA DE NOVO
1990 A sétima e mais recente (até quarta-feira) final de copa europeia aconteceu há 23 anos, quando um gol solitário de Frank Rijkaad provou-se suficiente para superar o Benfica em Vienna, cidade onde Guttmann está enterrado.
E não tem nada a ver com a tragédia do fim de semana, quando os Encarnados tiveram a chance de conquistar o campeonato português dentro da casa do Porto e, em vez disso, permitiu que o maior rival virasse a partida também nos acréscimos e passasse à frente na tabela de classificação com apenas um jogo para o fim da competição. Não. A questão aqui é muito mais profunda, muito mais grave: uma maldição.

Vencer o Chelsea não era simplesmente levantar uma taça, dar a volta por cima, trazer alegria para o torcedor; vencer o Chelsea significaria tomar um metafórico banho de sal grosso para espantar uma praga que já dura mais de 50 anos.

Troféus europeus nem sempre foram lembrados com tons nostálgicos e saudosistas entre os benfiquistas. Em 1959, o clube contratou o técnico húngaro Bela Guttmann, que à época treinava o Porto, uma decisão que se provou um golpe de gênio.

Guttmann, o melhor técnico judeu de todos os tempos, cujo paradeiro durante a Segunda Guerra Mundial jamais foi revelado, era uma figura extremamente controversa e pitoresca. Algo como um antecessor de Mourinho, ele gostava de ser o centro das atenções, tomar decisões corajosas e dar declarações audaciosas. Diferentemente da maioria (mas como Mourinho), Guttmann acreditava que jamais deveria ficar muito tempo em um mesmo lugar. "Um técnico é como um domador de leão. Ele domina o animal enquanto tem autoconfiança e não demonstra medo. Mas quando a primeira sombra do medo aparece nos seus olhos, ele está perdido," dizia. Quanto aos seus empregadores, o húngaro uma vez declarou: "Durante a primeira temporada, o técnico trabalha calmamente; a segunda é mais difícil; e a terceira é fatal." Para estar mais perto da verdade, Guttmann quase nunca passou mais de dois anos em um mesmo clube. Tornou-se um eterno dissidente, traindo e sendo traído quase todos os anos. Em 22 anos, entre 1945 e 1967, ele mudou de time não menos do que 18 vezes. Sempre que alguma coisa ia contra sua vontade, ele simplesmente ia embora para trabalhar em outro projeto.

Um dos primeiros exemplos veio no clube romeno Ciocanul, onde Guttmann recebia seu salário em vegetais por conta dos problemas com alimentos no país. O presidente ousou pensar que poderia influenciar a escalação do time. "Você sabe o básico. Boa sorte!" Guttmann disse a ele, e foi embora imediatamente. No Kispest, o mais bem sucedido clube húngaro no período pós-guerra, Guttmann teve uma relação difícil com Ferenc Puskas, cujo pai ele sucedeu no cargo como treinador. Quando o "Major Galopante" tentou convencer um jogador a ignorar as instruções táticas de Guttmann no intervalo, o húngaro simplesmente foi para as arquibancadas, depois pegou o trem para casa, e nunca mais voltou.

Sua declaração mais bizarra veio quando o Milan o mandou embora em 1955, mesmo com o time liderando o campeonato e jogando um futebol maravilhoso. "Fui demitido, apesar de não ser nem um criminoso, nem um homossexual," disse aos jornalistas. Hoje, nem Mourinho, que coleciona pérolas, ousaria pensar em uma declaração tão infeliz. Entretanto, mais de meio século atrás, isto apenas serviu para bombar a sua imagem. Ele se tornou a figura mais sincera do futebol, ofuscando todos ao seu redor.

O húngaro era também um estrategista brilhante. É justo dizer que Guttmann teve papel importantíssimo na conquista brasileira da Copa do Mundo de 1958, exportando seu revolucionário sistema 4-2-4 para a América do Sul durante o período em que passou treinando o São Paulo, onde foi campeão paulista. Seu maior sucesso, contudo, veio em Portugal. Começou no Porto, onde ele ganhou a liga nacional em 1959, roubando do Benfica na reta final da temporada. O próximo passo, seguindo suas filosofias, foi trocar o Porto pelo seu maior rival.



Bel-Canto | José Mourinho, que já fez o Benfica sofrer muito, é o Bela Guttmann da era moderna


Sua passagem de três anos pelas Águias começou com mais um título português (ele conquistou dois no total), que deu acesso à Copa Europeia, uma competição ainda em estágio embrionário na época. O Benfica voou até a final, onde venceu o Barcelona por 3 a 2 e encerrou a sequência de cinco títulos do Real Madrid nos primeiros cinco anos do torneio.

Os comandados de Guttmann marcaram 26 gols em nove jogos na edição 1960-61 da sua aventura europeia e acumulou igualmente impressionantes 22 no ano seguinte, defendendo o título. O ápice veio na forma de dois gols no segundo tempo da final de 62, marcados pelo lendário Eusébio, que Guttmann contratou como um garoto de 18 anos em 1960, na vitória de 5 a 3 sobre o Real Madrid, no Olympich Stadion, em Amsterdã.

Mas a euforia benfiquistas ruiu como um castelo de areia não muito tempo depois. Com cinco títulos em três anos, Guttmann exigiu um aumento de salário, mas a diretoria do clube recusou, e o herói húngaro marchou do Estádio da Luz.

"Nem em cem anos o Benfica vai conquistar outra copa europeia."


Mesmo com sua natureza de andarilho, a experiência no Benfica o marcou profundamente, e as palavras ditas antes de ir embora são, até hoje, o efeito mais duradouro do seu legado. Revoltado, Guttmann teria dito: "Nem em cem anos o Benfica vai conquistar outra copa europeia".

Não se sabe se Guttman estava se referindo apenas à Copa Europeia, mas o fato é que, 51 anos depois, sua palavras permanecem verdadeiras, seu sentimento igualmente forte e sua maldição nunca foi quebrada.

O Benfica conquistou 13 títulos portugueses nos 14 anos após a saída de Guttmann, mas o sucesso europeu nunca mais voltou, apesar de ter Eusébio no ataque e de ter chegado a três decisões entre 1963 e 1968.

O clube teve mais duas oportunidades, em 1988 e 1990, para acabar com o voodoo, mas falhou. Na última final, que aconteceu em Viena, onde Guttmann - que morreu há 30 anos - está enterrado, Eusébio foi rezar diante do túmulo do ex-treinador, mas seu pedido por perdão se provou infrutífero, e as Águias seguiram no seu calvário depois de uma vitória do Milan por 1 a 0.

O Benfica chegou à final de competições secundárias apenas uma vez desde 1962 - a Copa da UEFA, em 1983, perdida para o Anderlecht - antes da decisão da última quarta-feira, a sétima chance do time de se livrar da praga de Guttmann, que chegou na metade do caminho.

É claro que muitos outros fatores influenciaram as desgraçadas do Benfica. Donos de clube que jorram dinheiro ainda não demonstraram interesse na liga portuguesa. As Águias também tiveram de sobreviver no cenário europeu nos últimos anos recrutando jogadores na América do Sul, já que os talentos da casa rapidamente vão embora para buscar sua sorte em outros países - um contraste bruto com o Benfica de 1962, quando todos os jogadores em campo na final eram portugueses. Da mesma forma, a mudança de formato nas competições continentais tornou o caminho mais difícil para equipes de ligas menos competitivas, já que agora três ou quatro times dos campeonatos mais fortes garantem vaga para o torneio.

Depois de acabar em terceiro lugar no seu grupo na edição deste ano da Champions League, o Benfica se viu "rebaixado" a disputar a Europa League - mesma situação do Chelsea, que, até o dia 25 deste mês, ainda é o campeão reinante do torneio. Mas a equipe de Jorge Jesus deu brilho à competição, deixando para trás quatro oponentes ardilosos.

O fato de a final ter acontecido em Amsterdã, onde, há 51 anos, os Encarnados conquistaram seu último triunfo continental, certamente deixou muitos torcedores esperançosos. É improvável que alguém tenha ido visitar o túmulo de Guttmann em Viena, mas muitos devem ter murmurado algumas preces.

Mais uma vez, entretanto, e com requinta de crueldade, a sombra da maldição pairou sobre o time do Estádio da Luz. Em algum lugar, o técnico húngaro deve ter dado um sorriso e murmurado de volta: "Vocês deveriam ter me dado aquele aumento".

Chelsea | O mais recente algoz do Benfica a dar sequência à maldição de Guttmann