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Após carreira espetacular no Brasil, penta com a seleção em 2002 e trabalho elogiado em Portugal, técnico não conseguiu ter sucesso no Chelsea e saiu com menos de um ano de clube.

Por Matheus Quelhas

Tri-campeão da Copa do Brasil, campeão brasileiro, bi-campeão da Libertadores, campeão do Rio-São-paulo, da Copa Sul-Minas, da Copa Mercosul, da Recopa Sulamericana, tri-campeão gaúcho e bi-campeão alagoano; campeão mundial com a seleção brasileira. Essa era a lista de títulos presente no currículo de Luiz Felipe Scolari quando ele desembarcou em Londres, no dia primeiro de julho de 2008, e foi apresentado oficialmente como técnico do Chelsea.

AS PRINCIPAIS EQUIPES DA CARREIRA DE LUIZ FELIPE SCOLARI
                           
GRÊMIO
(1993 a 96)

PALMEIRAS

BRASIL

PORTUGAL

 CHELSEA
JOGOS
85
407
26
74
36
VITÓRIAS 35 192 18 42 19
EMPATES 18 111 2 18 11
DERROTAS 32 105 6 14 7
APROVEITAMENTO 41% 47% 69% 56% 53%

Depois de uma pré-temporada na Ásia, onde obteve seus primeiros triunfos (não-oficiais), uma estreia dos sonhos pelos Blues: 4 a 0 no Portsmouth, jogando em casa. Tudo parecia perfeitamente nos trilhos para Felipão, que após construir sólida carreira em clubes tradicionais como Grêmio e Palmeiras no Brasil, atingiu a glória máxima com a seleção nacional e se consagrou mundialmente obtendo muitos méritos comandando Portugal (que não chegava a uma semifinal de Copa do Mundo, como em 2006, desde 1966, e havia sido vice-campeão europeu naquele mesmo ano). Mas quis o destino que Scolari deixasse o Chelsea com apenas sete meses de clube e, na próxima segunda-feira, contra a Rússia, retornasse ao conhecido solo britânico comandando a seleção brasileira, pela segunda vez.

Início nos Blues: excelente largada esbarra em clássicos

Foram 12 partidas de invencibilidade, sendo nove vitórias; 28 gols marcados e apenas 2 sofridos. Mas Xabi Alonso, com a perna esquerda, deu não só uma vitória ao Liverpool em Stamford Bridge, no clássico do dia 26 de outubro de 2008, como também iniciou os questionamentos ao rendimento de Felipão no banco de reservas. Os três empates da série invicta que teve fim não haviam sido quaisquer empates: 1 a 1 nos clássicos contra Tottenham e Manchester United jogando também em casa, além da igualdade sem gols contra o Cluj, da Romênia, o mais fraco dos adversários da fase de grupos da Liga dos Campeões – na estreia do clube no torneio.

O desempenho do time nas semanas seguintes parecia dar razão aos críticos: derrota para a Roma na Itália (pela Champions), eliminação para o Burnley – da segunda divisão – na Copa da Liga Inglesa, empate contra o Newcastle em Stamford Bridge, seguido de mais um tropeço na competição europeia contra o Bordeaux, ‘coroando’ a sequência com uma derrota para o Arsenal – jogando novamente em casa.

Sob olhares de desconfiança, trabalho seguiu, mas por pouco tempo

É verdade que Felipão também teve o que comemorar em Londres: quebra do recorde dos Spurs, que perdurava desde 1960, com 11 vitórias consecutivas fora de casa. Mas a marca não deu mais que uma sobrevida ao brasileiro como treinador da equipe. Antes de disputar mais um clássico contra o Manchester United, dentre quatro partidas em casa foram dois empates, frente ao rival londrino West Ham e ao Southend, da terceira divisão.

Com cinco meses de Chelsea, a paciência dos membros do clube, inclusive a da torcida, parecia já estar no fim em relação ao trabalho desenvolvido pelo técnico. E a derrota por 3 a 0 contra os Red Devils, no dia 11 de janeiro de 2009, caiu como uma bomba, direto na cabeça de Luiz Felipe Scolari – era o sexto clássico sem vitória, e a terceira derrota.

A INGLATERRA EM NÚMEROS

O desempenho do Chelsea sob seu comando
36 Número de partidas oficias comandando a equipe;
19 Vitórias nesse período;

9 É o número de tropeços em casa, somando empates e derrotas, em 19 jogos;
7 Foram os clássicos disputados;

0 Vitórias em clássicos: fator foi determinante para demissão.

Respirando por aparelhos, golpe final veio em dois atos

O Chelsea se recuperou na FA Cup e eliminou o Southend goleando por 4 a 1 (fora), e conseguiu ainda o quarto resultado positivo em sequência contra o Middlesbrough, na nona vitória de Felipão jogando diante de seus torcedores e do sempre presente Roman Abraimovich, presidente e dono do clube.

Entratanto, estava claro que um resultado negativo no embate contra o Liverpool, em Anfield Road, praticamente selaria a saída do treinador, que enfrentava bastante resistência fora e dentro dos bastidores. Após segurar a pressão dos Reds durante toda a partida, dois gols do atual jogador do Chelsea, Fernando Torres, nos minutos finais, determinaram a quarta derrota em sete clássicos disputados pelo ex-técnico da seleção portuguesa. Seis dias depois, o golpe de misericórdia veio em casa, na forma de empate sem gols contra o Hull City, diante protestos da torcida que pedia a cabeça do gaúcho – o resultado deixou os Blues a oito pontos do líder United, ainda que a 13 rodadas do fim da Premier League. Trinta e seis partidas e sete derrotas depois, no dia 9 de fevereiro de 2009, era o fim da ‘Família Scolari’ em Stamford Bridge. Mas a famosa ‘família’ chegou a se formar?

Crise interna: Felipão não resistiu à insatisfação de estrelas do elenco e membros do clube

A sorte não estava ao lado do técnico em sua passagem pela terra da rainha, mas uma boa dose de ‘estrelismo’ contribuiu – e muito – para que sua saída se desse de forma tão rápida. Sua primeira contratação foi o apoiador Deco, que veio de um Barcelona que estava em processo de reformulação (prestes a ser campeão “de tudo” com Pep Guardiola). Logo de cara se deparou com a insatisfação do meia alemão Michael Ballack, que atuava na mesma posição do luso-brasileiro, atualmente no Fluminense. Para completar, Ballack era um dos que mais tinha afinidade com Abraimovich, o que incluía constantes jantares na companhia do mandatário, relação esta que enfraqueceu o brasileiro.

 

O preparador de goleiros Christophe Lollichon, classificado como “estranho” por Felipão, foi mais um desafeto no clube. Contratado a pedido do titular da meta dos Blues, Petr Cech, junto ao Rennes em 2007, o profissional nunca simpatizou com o brasileiro e segundo relatos fazia questão de falar apenas francês nos vestiários, para dificultar a vida do gaúcho. Com Scolari demitido, Lollichon pediu alguém ‘inteligente’ no comando do Chelsea em entrevista ao jornal inglês The Telegraph.

Sobretudo, a mais marcante indisposição do treinador pentacampeão mundial em 2002 com o Brasil se deu com o atacante Didier Drogba. Tudo começou alguns dias antes de Felipão assumir o comando técnico do time, quando a necessidade de uma cirurgia no joelho tirou Drogba da pré-temporada da equipe. Acostumado a impor respeito onde chegasse, o treinador gaúcho determinou que os tratamentos de lesão passariam a ser feitos somente no clube, e não mais clínicas particulares (prática comum no clube até então), mas o marfinense queria fazer o seu em Cannes, na França, o que não lhe foi permitido.  

Soma-se a isso um tiro certeiro de Felipão – que acabou saindo 'pela culatra': Nicolas Anelka. Ele substituiu Drogba à altura, assinalando 14 gols em pouco mais de dois meses, de setembro a novembro de 2008. E com sua boa fase, o técnico brasileiro decidiu mantê-lo como titular, mesmo com Didier já disponível, mas sem estar 100% fisicamente.  A insatisfação evidente de Drogba levou Felipão a propor uma troca a José Mourinho, então na Inter de Milão: o marfinense por Adriano – prontamente aceita pelo atual comandante do Real Madrid. Porém, as atuações do 'Imperador' no mês de janeiro fizeram Mourinho pensar melhor (após quase dois meses sem marcar, foram três gols em oito dias), impedindo a saída de Drogba e colocando mais pressão sobre Scolari, que acabaria demitido pouco tempo depois.

Outro fator decisivo para a performance muito abaixo do esperado foi a política de reforços adotada pelo russo Abraimovich durante a estada de Felipão no Chelsea. Além da frustrada troca entre Drogba e Adriano, o técnico perdeu a disputa por Robinho com o Manchester City e viu a crise mundial afetar o bilionário dono do clube, que a pedido do treinador só trouxe o volante Mineiro e o português Queresma, longe de ser prioridade no elenco dos Blues, ambos sem custo.

Em entrevistas mais recentes, Scolari admite que sentiu muito a precoce demissão no clube londrino. Segundo entrevista veiculada no Sportv, sua satisfação morando na capital inglesa era total, desde a organização da Premier League à escola de seu filho, e o desejo de voltar um dia permance vivo. Mas se ‘a primeira impressão é a que fica’, qual será o efeito do fracasso retumbante de sua passagem pela Inglaterra em um possível retorno? De qualquer modo, Felipão dá prosseguimento nesta segunda-feira, contra a Rússia, em palco que certamente lhe trará muitas memórias, a um projeto bem mais ambicioso do que triunfar em um clube inglês: ser o segundo treinador da história do esporte a conquistar a Copa do Mundo duas vezes, igualando Vittorio Pozzo, campeão com a Itália em 1934 e 1938. E ao que tudo indica, ele terá quase tanto trabalho quanto encontrou em Stamford Bridge. Só esperamos que o resultado em 2014, aqui no Brasil, seja bem diferente.

 

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