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Derrota chocante do Chelsea faz meses de raiva, frustração e desilusão acumuladas pelos torcedores se transformarem em um quase princípio de motim

COMENTÁRIO
Por Liam Twomey em Stamford Bridge

A última vez que o Swansea havia batido o Chelsea em Stamford Bridge - em novembro de 1925 - foi em uma partida da antiga Segunda Divisão, onde os dois lados enfrentavam adversários como South Shields, Clapton Orients (agora Leyton Orient) e The Wednesday (agora Sheffield Wednesday).

A última vez em que os gigantes galeses haviam vencido o Chelsea em geral, Bucks Fizz era o número 1 nas paradas de sucesso da Inglaterra com a música 'Making Up Your Mind'. O ano era 1981.

Mas as peculiaridades da história tomaram contornos insignifcantes na quarta-feira, quando uma derrota até certo ponto chocante do time da casa colocou para fora meses de raiva, frustração e desilusão acumuladas pelos torcedores do Chelsea na forma de um quase princípio de motim.

FIM DA LINHA PARA TORRES?

NOTA DO JOGADOR VS SWANSEA
   
A única coisa mais intrigante do que sua decadência notável nos últimos três anos - o que, na verdade, já se tornou um tópico exaustivo - é como ele conseguiu dominar o truque de evitar ter chances de gol. Ele não marcou, não fez nada e, pior ainda, nunca pareceu que iria fazer.
Os ânimos estavam tensos desde o momento em que as escalações foram anunciadas pelo sistema de som do estádio. Bruce Buck, presidente do clube e voz pública de Roman Abramovich, foi vaiado quando se aventurou a pisar no gramado.

Demba Ba, deixado no banco em favor de Fernando Torres apesar de ter marcado dois gols na sua estreia contra o Southampton no sábado, teve uma recepção extasiante de todos os cantos de Stamford Bridge, enquanto os cantos mais altos no pré-jogo foram reservados à Frank Lampard, também entre os reservas.

Mesmo com o bom e confiante início de jogo dos Blues, que teve o trio Juan Mata, Eden Hazard e Oscar reunido novamente, voando perigosamente pelo ataque, todo e qualquer movimento era feito ao som de 'Super Frankie Lampard' ou 'Renovem com ele'. Conforme o sucesso da tática adotada pelo Swansea se tornava mais óbvio, a multidão exasperada focava ainda mais intensamente nas suas estrelas ausentes.

No meio-campo, cada erro cometido por um Ramires atipicamente mal era interpretado como mais uma razão para pedir a entrada de Lampard. Com 26 minutos do segundo tempo e o time da casa já um gol atrás, Rafa Benítez finalmente atendeu ao desejo dos Blues.

Mas deu mais 10 minutos para Torres se tornar o foco isolado da ira das arquibancadas, antes de finalmente tirá-lo de campo sob um coro de sonoras e potentes vaias.

A única surpresa em relação ao fim do apoio a Torres é que demorou demais para que acontecesse - o jogo de ontem foi a sua 100ª aparição pelo clube, sem nenhum motivo para celebração.

A torcida demonstrou paciência excepcional e muita compreensão para com Torres, principalmente por conta de um desejo desesperado de vê-lo tornando-se algo mais do que o mico mais caro da história do futebol inglês.

Por um tempo, eles acreditaram piamente nas desculpas - Didier Drogba era muito intimidante, o time estava muito lento, é tudo culpa da falta de confiança. Mas, nesta temporada, Torres o crédito de Torres se esgotou, e a simpatia transformou-se em raiva com a compreensão de que a demissão brutal de Roberto Di Matteo e a desastrosa imposição de Benítez não trará mais do que as mesmas performances indiferentes de antes.

Muito se diz que Torres decaiu à mediocridade em todos os departamentos, mas isto não é verdade. Não há nenhum atacante na Inglaterra, e possivelmente em toda a Europa, que tenha a mesma capacidade que ele para desaparecer completamente de uma partida.

Nos 81 minutos em que passou em campo na noite de quarta-feira, Torres encostou na bola apenas 19 vezes, e conseguiu apenas um chute a gol - uma tentativa mais ou menos de fora da área que recebeu aplausos apenas dos fãs mais caolhas do Chelsea. O time efetivamente jogou com 10 em campo.

Sua habilidade única de be consistentemente irrelevante impressiona em um time eclodindo de criatividade e ritmo. Mas se esconder não é uma qualidade apreciada em nenhum nível do futebol, muito menos em um clube que faturou a Champions League apenas sete meses atrás.

Michu foi quase tão anônimo para o Swansea. Mas o espanhol dos galeses trabalhou de forma altruísta pela sua equipe, incomodou a defesa do Chelsea e, quando a sua chance apareceu, ele não desperdiçou com a frieza de um atirador experiente. Ele marca quando quer. Torres raramente mostra ter a mesma vontade.

Enquanto o infeliz espanhol foi a única opção para o ataque em Stamford Bridge, a torcida não tinha opção se não apoiá-lo. Mas agora que o clube assinou com alguém que de fato faz gols, eles não veem mais razão de persistir com a insensatez. Apenas quando Ba entrou em campo o Chelsea pareceu um time com dentes.

Benítez se recusou a criticar sua 'estrela' depois da partida. De fato, o treinador foi muito cauteloso em não mencionar seu nome nenhuma vez, ou de Ba. "Estou feliz com a forma como a equipe se portou hoje," disse aos repórteres. "Não acho que podemos falar apenas de um jogador."

Seu otimismo provocou ainda mais raiva nos torcedores azuis, mas nenhuma surpresa. Benítez sabe que não pode falar mal de Torres sem torpedear a única razão pela qual foi contratado pelo clube. Enquanto Abramovich considerar seu 'presente' como alguém em que vale a pena insistir, Ba não irá começar jogando, independente do que digam torcida, jornalistas ou até mesmo as estatísticas.

As vaias após o apito final moram mais do que pelo resultado de 2 a 0 para os visitantes. Seja a saída de Drogba, a contratação de Benítez, o tratamento injusto de Lampard ou a primazia corrupta por Torres, os torcedores do Chelsea veem-se cercados por evidências de que o clube não apenas os ignora, mas está também descartando tudo aquilo que é mais importante para eles.

Benítez e Torres são o foco atual da fúria azul, e é difícil enxergar como qualquer um dos dois pode sobreviver em Stamford Bridge por muito mais tempo. Mas se Abramovich e seus conselheiros não se cuidarem, a noite de quarta-feira mostrou que eles também podem acabar se vendo de frente com a força total do descontentamento.

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