Vilãs ou vítimas: Associação Nacional das Torcidas Organizadas mostra o lado das facções e pede reflexão

Goal entrevistou André Azevedo, presidente da Associação Nacional das Torcidas Organizadas, que falou da relação das facções com os clubes e como controlar o histórico de violência

Briga nos arredores ou nos estádios de futebol? As chances de algum dos envolvidos estar trajando a camisa de uma torcida organizada são de quase 100%. Portanto, no Brasil, tornou-se comum associar a paz nos campos à possível extinção das facções. Porém, segundo a Associação Nacional das Torcidas Organizadas (Anatorg), chegou o momento de mudar esse cenário.

A Goal Brasil conversou com André Azevedo, presidente da Anatorg e da Dragões da Real (do São Paulo), para entender como a associação pretende trazer diálogo e reflexão. O mandatário revela que desde a criação da entidade, em dezembro passado, já houve reunião com o Ministério do Esporte, além de entendimentos entre torcidas rivais - Galoucura (Atlético-MG) e Máfia Azul (Cuzeiro), por exemplo.

"Não existe violência no futebol, existe violência. As torcidas são uma extensão da nossa sociedade. A PM trata a torcida como gado e quem é tratado assim, age assim. É preciso punir os envolvidos", garante André Azevedo. São 66 torcidas organizadas representadas.

Confira a entrevista completa:

Qual a função da Anatorg? O que ela pretende?
Nós nos organizamos há pouco tempo de forma legal, em dezembro. Nos bastidores, a associação já funciona há três ou quatro anos. Muita gente acha que o conceito da criação da Anatorg é defender as torcidas organizadas, também é isso, mas não é esse o ponto principal. Mesmo porque a gente entende que as torcidas têm que se reeducar em vários pontos, porque elas também erram bastante. A primeira ideia, nos dois próximos anos é fazer uma política interna, de torcida para torcida, fazer uma reeducação e conscientização. A gente faz visitas no Brasil todo, às torcidas, conversa. Fora isso, fazemos ações, protestos, algumas coisas em defesa da própria instituição. Nós representamos a torcida associada, não o torcedor. Nós lutamos para que aja uma individualização do torcedor que age de forma violenta.

Qual o poder da associação sobre as TOs?
As torcidas comparam a ideia, talvez a única saída de sobrevida para elas seja essa. Temos como parceiro o próprio Ministério do Esporte, que está apoiando a Anatorg.

Há o interesse em mudar imagem das TOs? Como será tal processo?
É uma imagem equivocada. Não existe violência no futebol, existe violência. As torcidas são uma extensão da nossa sociedade. Eles não vivem numa redoma. A violência que tem no estádio é a mesma que tem na praia, um arrastão, em bares, no trânsito. Quem se associa numa Mancha Verde, numa Gaviões, seja lá qual for, é o cara que vive no nosso cotidiano. A violência entre as torcidas pode ser um dos fatores para isso, mas é uma culpa compartilhada, com os estádios, a Polícia Militar, as ações. A PM trata a torcida como gado e quem é tratado assim, age assim.


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Como coibir a violência de membros da TOs?
Não fazemos promessas, fazemos ações de prevenção, mas o Estado não acaba com a violência, então também não podemos. Pensamos que o caminho não é esse. É impossível pegar uma torcida de 40 mil sócios e prometer que todos vão agir igual. Nem o presidente de uma torcida consegue isso.

Como deve ser a relação das TOs com os clubes? Algumas recebem ajuda financeira ou em forma de ingresso. Isso é saudável? Ou deveria haver um distanciamento?
Talvez a relação promíscua entre clube e torcida também não seja bacana, mas a relação de diálogo, eu acho que é favorável. Nós fizemos um intercâmbio na Alemanha, porque os brasileiros, principalmente a imprensa, tem muito isso de ‘Ah, a Europa, porque na Europa’, e a gente foi para lá estudar. A gente viu que ainda tem briga, ainda tem problemas. Mas se investe muito em segurança. Lá o sistema busca resolver o problema, aqui é a política da exclusão, se fecham torcidas, mas não resolve o problema.

Identificamos que há muito diálogo com as torcidas. Aqueles mosaicos europeus, é tudo clube x torcida, um não faz sem o outro e todo mundo fala que é bonito. Eu sou presidente da Dragões da Real também e eu tenho muita relação com o presidente do São Paulo. Ele não paga minhas viagens. Mas eu falo com ele, sobre jogador, sobre várias coisas. É uma relação aberta, de amizade.

Em Minas, Galoucura, Máfia Azul, por exemplo, sequer podem entrar com materiais próprios nos estádios por determinação do Ministério Público. Por que a situação de algumas TOs chegou a esse ponto?
Penso que a impunidade é um problema. A Máfia Azul e a Galoucura são torcidas filiadas à Anatorg e vem conversando, por exemplo. Historicamente, nunca se falaram, mas agora sentaram, estão tentando, se iniciando um diálogo, mas não é algo para ter resultado agora. É a longo prazo.

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Os torcedores "normais" sempre citam as TOs como agentes violentos. O caminho para restabelecer tal confiança será longo?
Conseguimos já fazer com que torcidas com 20, 30 anos de existência, começassem a dialogar. Só de abrir o diálogo já é um ponto positivo.

Alguma organizada não responde à associação?
Tem várias que não fazem parte, que acham que não vai levar a nada. A Anatorg não cobra nada, é questão de ideal, de acreditar nisso.

Quais as próximas atitudes da associação?
Queremos estreitar relações com órgãos públicos referentes ao esporte, como foi feito com o Ministério do Esporte, Ministério da Justiça, e tentar sempre o caminho do diálogo. Acredito que temos que prestar um serviço social. O mau torcedor ele não é só um mau torcedor, mas também um mau cidadão. Você tira ele do estádio, por vezes, mas o coloca na rua. A ressocialização é necessária. A nossa ideia é fazer um trabalho de conscientização da pessoa, não excluí-la.

Torcidas organizadas que fazem parte da Anatorg: