Pazini: A hora perfeita para demitir Dunga

Seleção Brasileira só voltará a jogar em março de 2016 e novo treinador, mais competente e atualizado, teria tempo para estudar

O futebol não é apenas números e resultados. Nunca se tratou e nunca se tratará apenas disso. Existe a magia do jogo, a beleza e o sentimento inexplicável que move torcedores, jogadores, treinadores, jornalistas e todos que amam o esporte.

A Seleção Brasileira, de alguns anos para cá, perdeu isso. Corrupção, contratos com outros interesses, dirigentes fugindo ou com medo de deixar o País e o distanciamento do torcedor (em função de tudo isso e muito mais) são algumas das causas. Dentro de campo vemos o reflexo das escolhas feitas fora das quatro linhas. E recentemente, falando apenas do trabalho de Dunga, o escrete canarinho se limita aos resultados, e nem eles são bons.

Em 2015, o Brasil venceu apenas quatro jogos oficiais - deixando de lado os amistosos, que não querem dizer muita coisa e nos quais os adversários testam opções para ajeitar seu time e elenco, enquanto Dunga escala força máxima para conseguir os "três pontos" e usar vitórias em partidas que nada valem como muleta. Nestes quatro duelos, a Amarelinha venceu dois rivais duas vezes: Peru e Venezuela, na Copa América e Eliminatórias. Diz muito sobre a Seleção e seu momento.

Boas notícias

Nesta terça-feira, o Brasil venceu o Peru sem muitas dificuldades na Fonte Nova. Teve um início difícil, com a equipe de Gareca finalizando duas vezes com perigo e o time mandante sem conseguir criar nada. No entanto, depois de marcar o primeiro gol com Douglas Costa, após o jogador do Bayern de Munique entrar em diagonal da esquerda para o centro, aproveitando boa combinação pela direita com Willian e uma rara investida ao ataque de Elias, o escrete canarinho dominou a partida.

(Foto: André Mourão / MoWA Press)

A vitória por 3 a 0 foi merecida e era esperada, no entanto, não existe muito o que comemorar. Alguns pontos interessantes e bons, porém, foram observados. O time parece depender menos de Neymar. Com o craque do Barcelona em atuação apagada, sem produzir muita coisa, Douglas Costa - em sua melhor exibição com a camisa verde-amarela - e Willian jogaram muito e lideraram a Seleção. Ambos jogaram abertos pelos flancos, mas se movimentando e entrando em diagonal, e trocaram de lado na etapa final. Os dois estão crescendo e jogando cada vez melhor pelo Brasil.

Elias segue subindo pouco ao ataque e poucas vezes sendo o elemento-surpresa como faz no Corinthians, mas fez isso algumas vezes contra o Peru, como no primeiro gol, e Renato Augusto, não apenas pelo tento, teve boa atuação. Assim como Lucas Lima, ele é uma boa alternativa no meio-campo. Ajudou na marcação, no toque de bola e ritmo de jogo, e chegou bem ao ataque. Além disso, Alisson foi bem no gol e provou que é mais uma boa opção para a posição.

Muitos problemas

No entanto, futebol não é apenas resultados, como afirmei no início do texto, e o Brasil novamente mostrou vários problemas. Venceu, mas não convenceu, como em várias outras vezes. Apesar do jogo ter sido disputado no Nordeste, região onde a Seleção normalmente é muito exaltada, por historicamente jogar menos vezes por lá, durante boa parte do duelo, a Fonte Nova presenciou um silêncio incrível. A torcida foi um reflexo do time de Dunga: sem empolgação e criatividade. Culpa dos torcedores? É claro que não. Como já afirmei antes, a CBF causou um distanciamento do povo com a Seleção com o passar dos anos, e a equipe não empolgou ninguém nesta terça, mais uma vez.

O Brasil segue jogando com seus setores distantes demais. Existe um espaço gigante entre a defesa, o meio-campo e o ataque. A transição muitas vezes é lenta - só é veloz nos contra-ataques que Dunga adora - e ocorrem muitos erros de passe ou passes ruins e na fogueira - Luiz Gustavo que o diga. A criatividade inexiste - apenas quando Neymar tira um coelho da cartola ou Douglas Costa e Willian arrancam pelos flancos - e a movimentação também é ruim.

(Foto: André Mourão / MoWA Press)

Os setores não conversam. As linhas são muito distantes e o Brasil parece jogar com blocos separados: a defesa, o meio-campo, e o ataque. É refém de jogadas de Douglas Costa e Willian pelos lados e da genialidade de Neymar. É um amontoado de jogadores, não um time. O meio-campo não se aproxima, não existem variações e infiltrações, uma movimentação envolvente e troca de passes. O futebol apresentado é muito pobre.

A ideia de jogar com o falso 9, é ter uma movimentação veloz e interessante no setor ofensivo. Quando Neymar sai da área, a ideia é que Douglas Costa ou Willian, que atuam abertos pelos lados, entrem em diagonal, ou que algum meio-campista, como Elias ou, neste caso, Renato Augusto, se infiltrem como elementos-surpresas. Isso ocorreu pouquíssimas vezes no jogo, enquanto em incontáveis oportunidades, Neymar saiu da posição de referência e ficou um buraco no setor e também no meio-campo sem nenhuma aproximação. Foram várias e várias as vezes em que o camisa 10 saiu para cruzar e não tinha uma alma viva dentro da área peruana. Gosto da opção de um falso 9, mas o Brasil precisa melhorar sua movimentação e aprender a jogar desta forma.

Além dos vários problemas táticos, existem também os técnicos, que são afetados pelas falhas táticas de Dunga. É claro que é difícil um jogador render na Seleção, o que rende em seu clube, mas é possível tornar essa diferença menor. 

(Foto: Getty Images)

No Wolfsburg, Luiz Gustavo inicia a transição defesa-ataque com muita qualidade, muitas vezes chega ao setor ofensivo como elemento-surpresa para finalizar e arma boas jogadas. Elias é o melhor volante do Brasileirão porque chega ao ataque o tempo inteiro e isso é um diferencial enorme. Na Seleção, com os setores muito espaçados e uma movimentação ruim, eles não conseguem fazer isso e, principalmente o primeiro citado, erra muitos passes ou toca muitas vezes na fogueira. Citei os dois volantes, mas todos os jogadores da Seleção podem render mais do que estão rendendo, e não rendem muito em função da pobreza tática da equipe, que afeta a técnica.

A hora de trocar

Dunga também toma várias outras decisões equivocadas. Para não me prolongar demais e citar vários exemplos, citarei um gritante. Como é possível alguém convocar Kaká, que não foi brilhante em sua temporada de estreia na MLS com o Orlando City, que sequer chegou aos playoffs, ao invés de Philippe Coutinho, que brilha na melhor liga do mundo, está jogando demais, vive melhor momento e é dez anos mais novo?

O Brasil tem vários problemas, não convence e, com Dunga, não acredito que veremos mudanças e resoluções. Infelizmente, também não acredito que a CBF vai demitir o treinador. É óbvio que trocar o técnico não resolve todos os problemas do futebol brasileiro. Para isso, são necessárias várias outras e mais profundas mudanças, que devem ser debatidas em outro texto, no entanto, a Seleção precisa de outro treinador, mais moderno, atualizado e com ideias diferentes. Existem muitos nomes que poderiam assumir a Amarelinha.

(Foto: Leo Correa/Mowa Press)

E agora, seria a hora perfeita para isso. O Brasil só volta a jogar em março de 2016. Trocando de técnico agora, ou após o fim do Brasileirão, o novo comandante teria pelo menos três meses para estudar muito, ver muitos vídeos, conversar com os atletas e começar a pensar e esboçar seu time e o que pode ser feito.

Infelizmente, porém, isso é um sonho que acredito ser muito difícil de se realizar. Enquanto isso, ficamos no mesmo, no futebol de resultados que tomou conta da cultura futebolística brasileira. A Seleção é apenas o topo de uma pirâmide com incontáveis problemas. Pobre futebol brasileiro.