Afinal de contas, o Uruguai é tetracampeão mundial?

Em 1924 e 1928, a Seleção Uruguaia venceu a competição de futebol na Olimpíada e se autoproclama quatro vezes campeã do mundo
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GOAL Por Tauan Ambrosio 

A história é conhecida para uns, mas ainda passa despercebida por outros. Por que a Seleção Uruguaia, adversária do Brasil nesta quinta-feira (23), usa, com reconhecimento da Fifa, quatro estrelas em cima de seu escudo se conquistou duas Copas do Mundo?

Bom, a resposta para esta pergunta também explica o apelido de Celeste Olímpica, usado até hoje para se referir ao selecionado charrua. E começa antes mesmo da Olimpíada de 1924, realizada em Paris.

No Uruguai, a população chega até mesmo a estranhar quando falam que a seleção de futebol é bicampeã mundial. Para eles, a Celeste é a primeira tetra do planeta. E isso porque as medalhas de ouro em 1924 e 1928 valeram como título mundial.

Camisa do Uruguai, com as quatro estrelas (Foto: Divulgação)

Atualmente, não há discussão: uma coisa é Olimpíada, outra é Copa do Mundo. Só que os registros históricos realmente dão, ao menos, motivos para o debate em relação a 1924 e 1928. Naquela época, a Fifa ainda não tinha criado o seu campeonato do mundo e o objetivo era fazer isso exatamente nas Olimpíadas.

Os jogos de Paris, em 1924, tiveram no futebol organização e independência absoluta da Fifa e Federação Francesa: ambas presididas pelo famoso Jules Rimet.

A revista France Football, deixando claro o caráter mundial do torneio de 1924

Foi durante o congresso da Fifa de 1923, em Genebra, que a entidade ficou - ao lado da federação nacional do país sede, no caso a França – responsável pela administração do certame. Veículo oficial da Federação Francesa na época (e até 1946), a revista France Football, que até hoje é renomada no mundo inteiro, propagou, desde antes de a bola rolar, o caráter mundial inédito do torneio que seria realizado.

Fifa e Federação Francesa foram as responsáveis pelo calendário, regras, inscrições, critérios de admissão dos atletas e cronograma. Tudo isso com extrema liberdade. O exercício dos poderes foi tão satisfatório, que serviu como base para a Copa do Mundo Fifa de 1930.


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Vale pontuar, também, que a Olimpíada de 1924 mudou a história da Fifa – embora a entidade não lembre tanto este fato. No caminho de preparação para os Jogos de Paris, a Fédération Internationale de Football Association chegou à VIII Olimpíada ainda mais forte por causa do futebol: subiu de 21 para 39 países associados, número superior ao da federação de Atletismo.

Tudo por causa da dimensão mundial.

O caráter global em 1924 esteve muito presente. Participaram 22 equipes, de cinco continentes, número maior do que todos os Mundiais Fifa até 1982. Na página 330 do número 36 da France Football era anunciado o Torneio Mundial de Futebol da VIII Olimpíada’. E, a nove meses da bola rolar oficialmente, veículos de imprensa anunciavam que o vencedor seria considerado campeão do mundo.

Julest Rimet teve liberdade plena de poderes nas Olimpíadas pré-Copa do Mundo FIFA

Vale lembrar que, de 1924 até 1978, sem interrupções, a qualificação (ou seja, o nome do campeonato em si) dos Mundiais era de responsabilidade das federações nacionais dos países sede. Não era responsabilidade da Fifa.  Em 1954, Rimet cedeu à qualificação suíça e limitou à Fifa o direito de criar o subtítulo.

O caminho do Uruguai até o ouro em 1924 e 1928

A estreia dos uruguaios foi contra a Iugoslávia, que se considerava uma equipe de certo valor. Só que os sul-americanos não decepcionaram os analistas que já viam aquele time com um olhar todo especial. A vitória na estreia foi maiúscula: 7 a 0. Só o público que foi minúsculo. Apenas três mil espectadores. Mas isso mudaria dali para frente, assim como mudaria a instalação celeste, que abandonou a “incômoda e pouco higiênica Vila Olímpica” e se instalaram em um casarão. O Chateou d’Argenteuil.

Hector Scarone, campeão em 1924, 1928 e da Copa do Mundo de 1930 (Foto: Tauan Ambrosio/Goal.com)

O segundo desafio reservou uma vitória por 3 a 0 sobre os Estados Unidos, em partida vista por 10 mil torcedores. Na terceira rodada, os comandados do técnico Ernesto Figoli não tiveram pena dos franceses: 5 a 1 nos donos da casa. A vaga para a semifinal estava garantida, e o duelo contra a Holanda marcou o maior desafio dos sul-americanos.

Os holandeses abriram o placar no primeiro tempo, e conseguiam aguentar a incrível pressão uruguaia no segundo. Pedro Cea conseguiu empatar e Héctor Scarone, craque do time, garantiu a vitória em pênalti – bastante contestado pelos neerlandeses.

A decisão foi contra a Suíça, e lotou o estádio de Colombes. Cientes de que testemunhariam a coroação do primeiro campeão mundial, 40 mil pessoas entraram no estádio e 10 mil ficaram no lado de fora. O primeiro tempo foi apertado, mas bom o bastante para o Uruguai ficar na vantagem por 1 a 0. No final das contas, o resultado final foi 3 a 0 e uma medalha de ouro com significado mais do que especial: o mundo era celeste pela primeira vez.

Quatro anos depois, o caminho rumo ao bi começou também com os holandeses. Jogando em Amsterdã, os ‘donos do mundo’ fizeram 2 a 0. Depois golearam a Alemanha (4 a 1), venceram a Itália (3 a 2) e, em dois desafios, levaram a melhor sobrea Argentina na grande decisão.

O título de 1924 pelo mundo

A imprensa uruguaia exaltou o feito de seus heróis, mas apenas repetindo o discurso europeu. Os jornais suíços classificaram o Uruguai como campeão olímpico e mundial (e forçaram um título europeu para a Suíça, afinal de contas naquela época a ideia de um campeonato de seleções europeias estava longe de acontecer).

Em 2008, França e Uruguai disputaram um jogo anunciado como "de 5 estrelas" (Foto: Getty Images)

O mesmo aconteceu na França, que em 2008 até promoveu um amistoso contra os uruguaios da seguinte maneira: “O Jogo de 5 Estrelas”. A promoção do encontro, realizado no dia 19 de novembro gerou ironias por parte de um comentarista de TV... chamado Arséne Wenger.

Medalha em homenagem a Jose Nasazzi, ao lado do ouro olímpico de 1928 (Foto: Tauan Ambrosio/Goal.com)

Em 1930, o país não comemorou apenas o primeiro título de uma Copa do Mundo Fifa. Vibrou com o fato de, pela terceira vez, estar no topo do mundo. E o raciocínio foi o mesmo logo após o Maracanazo, com o narrador Carlos Solé aos gritos de: “É tetra!”.

Veredicto final

Seleção Uruguaia campeã olímpica em 1924

Na verdade, o debate parece encontrar uma solução menos polêmica se deixarmos claro uma coisa. A Copa do Mundo como nós conhecemos é a Copa do Mundo FIFA (a globalizada FIFA World Cup), e nesse terreno a Celeste Olímpica conquistou dois títulos: 1930 e 1950. Mas antes, em 1924 e 28, o Uruguai foi considerado o melhor time do mundo por ter conquistado os torneios mais importantes do futebol mundial. Ambos com organização completa e independente da FIFA.

O Uruguai é quatro vezes campeão mundial, mas duas vezes vencedor da Copa do Mundo FIFA.

A própria entidade ratificou, um tanto às escuras, tal afirmação.

Em 2010, a FIFA reconheceu as estrelas na camisa do Uruguai como “não Copas do Mundo, mas sim torneios precursores da Copa do Mundo, de alto nível desportivo e organizados pela FIFA”.

Equipe que conquistou o bicampeonato olímpico em 1928

Mas no texto sobre equipamentos oficiais, a FIFA não fala exatamente desta maneira, deixando a entender que entende, sim, o Uruguai como campeão do mundo: “As associações membros que ganharam uma ou mais edições precedentes da Copa do Mundo da FIFA (ou da Copa do Mundo feminina) estão autorizadas a colocar em seu uniforme de jogo do conjunto titular a estrela de cinco pontas ou outro símbolo de acordo com as instruções da FIFA por cada vitória em uma Copa do Mundo da FIFA”.  

De qualquer maneira, os desempenhos excelentes nos torneios olímpicos deram aos uruguaios o apelido de Celeste Olímpica. O que por si só mostra a importância do feito.