Ademir de Menezes, o atacante completo que encantou o Brasil e amou o Vasco

Há exatos 20 anos, o artilheiro da Copa do Mundo de 1950 nos deixava. Mas os seus feitos são eternos


GOAL Por Tauan Ambrosio 

Ademir de Menezes, o Queixada, foi um dos maiores jogadores da história do futebol brasileiro. Atacante rápido, dava arrancadas impressionantes, armava as jogadas e aparecia para concluir. Foi o primeiro grande exemplo do que passou a ser chamado de “ponta de lança”.

Começou e finalizou a carreira vestindo a camisa do Sport Recife, mas brilhou mesmo com o Vasco da Gama. Tamanha era a sua identificação com a Cruz de Malta, que chegou a afirmar: “sou um homem dominado pelo coração, e meu coração é dominado pelo Vasco”. Mas demorou três anos para conquistar o seu primeiro título com o clube de São Januário.

O Cruzmaltino estava há oito anos sem vencer o maior torneio da época, mas com 12 gols marcados o Queixada mostrou que o tamanho de seu futebol era proporcional ao do seu maxilar. Jogando pelo lado direito do ataque, foi decisivo. Mas no ano seguinte seria protagonista de uma das maiores transferências do futebol daqueles tempos... e logo para um rival!

No início de 1946, o treinador do Fluminense, Gentil Cardoso, proferiu uma frase que entraria na história do futebol carioca: “Deem me Ademir, que lhes darei o campeonato”(embora esta frase não tenha sido exatamente dita, Gentil queria sim contar com Ademir). Profético. No dia 29 de março, o Globo Esportivo divulgava os valores incríveis da negociação. Foram 35 mil cruzeiros pelo passe, 80 mil de luvas e mais 85 mil arrecadados por sócios mais abastados do Tricolor. O valor total era de 200 mil, o preço de um apartamento de três quartos na Zona Sul carioca na época.

E Ademir foi decisivo na conquista de um dos campeonatos mais emocionantes da história. Não à toa, o certame ficou conhecido como supercampeonato. Foram 24 gols anotados, inclusive o que valeu o título, em jogo contra o Botafogo. O amor pela Cruz de Malta o traria de volta para São Januário em 1948. Naquele ano, foi parte importante do elenco que conquistou o Sul-Americano de clubes, título equivalente ao da Copa Libertadores da América atual.

Ademir conquistaria também os estaduais de 1949, 1950 e 1952 com o Vasco. Os dois últimos muito especiais. Em 1950, o Cruzmaltino levantou a taça 28 dias após o Maracanazo na Copa do Mundo - que teve o Queixada como artilheiro (9 gols) e um dos maiores destaques. Em 1952, foi artilheiro do último suspiro daquele histórico esquadrão vascaíno, eternizado na história sob o nome de “Expresso da Vitória”. Deixou o Vasco em 1956, mesmo ano em que realizou um jogo de despedida pelo Sport.

Com a Seleção, foram 35 gols em 41 jogos, além do vice mundial e um titulo Pan-Americano em 1952 (Reprodução/Conmebol)

Penduradas as chuteiras, virou comentarista de futebol e tinha uma coluna no jornal O Dia. Em 1992, teve uma de suas últimas grandes emoções com o futebol, sempre por causa do Vasco. Pela primeira vez desde a inauguração do Maracanã, o estadual carioca não era disputado no principal estádio do país – que estava interditado por causa do acidente ocorrido na decisão do Campeonato Brasileiro do mesmo ano. 

Aquele Campeonato Carioca seria conquistado pelo Cruzmaltino, marcaria a despedida do ídolo Roberto Dinamite. Mas troféu mesmo foi o que saiu em forma de palavras da boca de Ademir: “Senti vibração semelhante àquela dos tempos do Expresso da Vitória”, afirmou o eterno craque. Ele estava certo. Aquele time viria a conquistar o tricampeonato inédito.


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Há exatos 20 anos, o Queixada sentiu saudades de calçar as chuteiras e jogar futebol com a velocidade e arremate poderosos do passado. Não tinha mais forças para o jogo duro, desleal, do câncer de medula e deixou este plano para entrar, com glórias, no olimpo dos ídolos brasileiros. O futebol é construído de heróis como Ademir de Menezes, é bom não esquecer.