Descanse em paz, geração de 1950: Como o Maracanazzo repercute menos após o 7 a 1

Craques brasileiros que perderam a final da Copa de 1950 foram crucificados por décadas. Agora é a vez de Thiago Silva, David Luiz e companhia

O jogo é só um jogo? Depende . Alguns jogos extrapolam o absurdo, se tornam lendários. Como esquecer o ainda recente 7 a 1 da Alemanha? Ou melhor: será que vamos realmente apagar aquele vexame?

A resposta é não . E a prova disso é justamente a derrota da Seleção Brasileira na outra Copa do Mundo no Brasil, em 1950. Se em 2014 os brasileiros foram massacrados pelos alemãs nas semifinais, a derrota de 65 anos atrás foi na decisão do Mundial. Mas, com muitas diferenças.

O Brasil de 1950 nunca havia vencido uma Copa do Mundo. Aquela foi apenas a nossa primeira final, contra um Uruguai calejado. O povo estava animado para receber a primeira competição do pós-guerra, após anos de paralisação. A equipe brasileira tinha jogadores que se tornaram verdadeiros mitos em seus clubes, e são cultuados em estátuas e bandeiras.

A geração de 2014 assumiu o fardo do vexame histórico (Foto: Vanderlei Almeida/AFP/Getty Images)

Cabe lembrar que ao contrário da campanha meia-boca de 2014 (três vitórias e dois empates até encontrar a Alemanha), a Seleção de 1950 fez chover até chegar na final. Inclusive com uma goleada de 7 a 1 nas quartas de final contra a Suécia e 6 a 1 na semifinal contra a Espanha.

"Ah, mas naquele tempo se amarrava cachorro com linguiça" . É meu amigo, naquele 8 de julho de 2014 a linguiça devorou o cachorro. A lógica foi para o espaço derrotada pela soberba.

Em 1950 o Brasil perdeu para o Uruguai, que até então era uma potência mundial. Em 2014 o Brasil entrou de salto alto, acreditando ainda no bordão o "país do futebol". E o pior, acreditando em um bizarro mote de um narrador que diz que "a Alemanha não joga futebol: joga algo muito parecido com o futebol, e que no final dá certo" . Já ouviu essa pérola?

As testemunhas oculares do Maracanazzo beiram entre 80 e 90 anos de idade. Uma geração que jamais esqueceu aquele "silêncio mortal" após a partida, e pôde contar por gerações: "meninos, eu vi". Naturalmente não estive presente naquele recém-inaugurado Maracanã, mas sinto o silêncio daquela derrota. 

(Foto: STAFF/AFP/Getty Images)

A diferença é que o 7 a 1 foi filmado por (literalmente) milhares de câmeras no Mineirão. O auge da geração smartphone. Câmeras 360º. Tudo, tudo para registrar com detalhes cada lance de Müller, Klose e Khedira. Ao contrário das raras imagens em preto e branco 1950, essas filmagens de 2014 contêm todos os detalhes. O vexame é nítido, e não um exercício de imaginação .

O Brasil nunca ganhou nenhuma das duas Copas que sediou. Sabe-se lá quando a Copa voltará para o país. Daqui a muitas décadas certamente. E até ganhar uma Copa em casa, 1950 e 2014 serão sempre lembradas. Mas, para alívio da geração de 50, a humilhação do 7 a 1 será a maior referência .

A verdade é que a geração de 1950 sofreu calada durante anos. A cada vez que se falava em Maracanazzo, sem dúvidas as memórias daquela derrota atormentavam os jogadores. Não é a toa que as traves da final foram usadas para alimentar as chamas en catártico churrasco devorado pelos jogadores. O título não veio, por caprichos do futebol, esse esporte em que o "se" não entra em campo. Vide os depoimentos de parentes dos já falecidos jogadores da final de 1950.


Getty Images

Recentemente Tereza Borba. a filha do goleiro Barbosa, se declarou aliviada com o 7 a 1. Aquela dolorosa lembrança que seu pai carregou até 2000, quando faleceu aos 79 anos, foi diminuída. "Para mim está ótimo. Eu já sabia. E o Barbosa foi vice-campeão. Ele tinha orgulho de ser vice, entendeu? Tomamos um chocolate, que não foi da Suíça. Fiquei triste por ser brasileira, mas feliz por honra ao Barbosa. Ele deve estar feliz agora ", declarou ao Uol Esportes.

Depoimento similar ao de Mariana Zaed, neta do atacante Jair Rosa Pinto. Mariana disse a Goal que a goleada de 2014 afastou de vez o fantasma do Maracanazzo: "Eu acredito que livrou, porque eles perderam a final jogando. Esse jogo em 2014 foi uma vergonha, um vexame... bem diferente do jeito que eles foram vices em 1950. Agora, com certeza, eles puderam descansar em paz! ".


Getty Images

O Brasil de Ademir Queixada, Bigode, Barbosa e Jair da Rosa Pinto pode descansar (enfim) em paz. Hora de lembrar das falhas de Dante, David Luiz, Fernandinho, Júlio César... lembrar, refletir e nunca mais repetir uma atuação realmente indigna da grandeza da Seleção.