Aos olhos de uma criança, o 7 a 1 não é eterno

Nascidos depois de 2002 viveram o pior momento da Seleção na Copa do Mundo, mas curiosamente não se importam tanto com isso

Há muitos e muito anos o mundo ocidental conta os anos de forma particular. O 'Antes de Cristo' e o 'Depois de Cristo' ajudam a datar fatos e conhecimentos históricos em livros sobre a humanidade. Entretanto, há um ano vivemos sob um novo ponto de partida - pelo menos para quem vive entre o Oiapoque e o Arroio Chuí. Vivemos no 'Depois do 7 a 1'. 

Se fatídica eliminação do Brasil para Alemanha na semifinal da Copa do Mundo de 2014 assombra milhões de brasileiros desde o último dia 8 de julho, imagina para aqueles que mal viveram o 'Antes do 7 a 1'. Imagina para quem nasceu na virada do milênio ou depois disso e não de lembra de Cafu gritando "Eu te amo, Regina" ao levantar a taça de campeão em Yokohama.  

O perder

Parece um cenário triste para quem já passou dos 15 anos, mas por mais que as imagens de crianças chorando no Mineirão e nas Fifa Fan Fests tenham ilustrado o sentimento de dor da 'Geração do 7 a 1', essas imagens não são genuinamente infantis. Para a psicóloga Edna Fernandes, as crianças que nunca viram o Brasil ser campeão não sentem que perderam algo com o 7 a 1, mas reproduzem o sentimento do adulto que de fato viveu os momentos áureos da Seleção Brasileira e que viram tudo desabar aos pés de Müller, Klose, Kroos, Khedira e (respira) Schürrle.  

Yasuyoshi Chiba/ AFP/ Getty Images

"A criança não vai entrar nessa questão de cabeça. E se ela entrar, eu vou dizer para você que é uma atitude completamente doentia, porque a criança ainda não tem essa internalização sobre o que é futebol. Ama, gosta, chora, grita e vibra porque é estimulada pelos pais", afirma Edna, que também explica a momentânea troca de camisas do Brasil por de outros países e times estrangeiros.  

"Para a criança, isso não é um trauma. A criança não conhece os trâmites, os detalhes dos jogos. A criança é apenas um torcedor que quer a vitória, e muito mais impulsionado pelos pais e pelos amigos do que qualquer outra coisa. Em relação a essa troca de camisa, eu digo que é coisa de momento. Tão logo a Seleção volte a jogar, eles torcerão de novo pela Seleção Brasileira", completou.  


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O argumento da psicóloga não só se confirma em círculos familiares, como detona a real importância do futebol brasileiro e na formação da sociedade no país. E é preciso entender que o trauma do 7 a 1 só é trauma para quem de fato entendeu a dimensão do que aconteceu em Belo Horizonte naquela tarde de terça-feira.  

"Com absoluta certeza, eu fiquei mais triste pelo resultado do que eles. Eles não entendiam direito e ficaram tristes por me verem triste. Hoje, e mesmo pouco tempo depois da Copa, eles já estavam torcendo pelo Brasil de novo e vibrando com o Neymar. Eles adoram o Neymar, acho que mesmo antes da Copa, gostavam mais do jogador do que da Seleção em si", disse Caren Cordeiro, mãe de dois meninos de 8 e 3 anos.  

Laurence Griffiths/ Getty Images Sports

De fato, o carinho das crianças pelos jogadores brasileiros não diminuiu. Se David Luiz está na lista negra de milhões de brasileiros adultos, para as crianças ele continua sendo o cara que faz caretas no Instagram e dança loucamente em programas de TV no final de semana. Se o atacante Hulk não marcou sequer um gol no Mundial, para o pequeno torcedor ele continua a ter nome de herói e Vingador, e só por isso já merece sua admiração - ele é o Hulk po!  Talvez os dois expliquem porque Antoine de Saint-Exupéry escreveu que "todo homem traz dentro de si o meninos que foi".

Isso para não falar de Neymar. O craque do time, o maior jogador brasileiro da atualidade. Qual garoto de 10 não quer ter o mesmo corte de cabelo de Neymar? Dá para contar nos dedos se você perguntar isso em qualquer classe do Jardim de Infância. E é isso que importa para uma criança que sofreu (mas não sofreu) com o 7 a 1. Se a camisa amarelinha tá guardada, esperando alguma vitória mais especial no futuro, o moicano não sai das cabecinhas que, no fundo, mal conseguem compreender porque perder uma Copa do em casa é tão doloroso quanto lhe dizem que é.

Odd Andersen/ AFP/ Getty Images

Geração 7 a 1 

Ser da 'Geração do 7 a 1' também é aprender com o outro lado da moeda, que trabalhou com disciplina durante anos para chegar ao topo. A atitude da Alemanha dentro e fora de campo talvez justifique a razão pela qual o episódio do Mineiratzen se tornou uma piada entre os próprios brasileiros, uma crítica aos desdobramentos políticos no futebol brasileiro e um ensinamento aos jovens torcedores que não viram o Brasil ser campeão.  

Para estes, viver no 'Depois do 7 a 1' sem ter aproveitado direito o 'Antes' nem é tão ruim assim, pelo menos não agora. Sorte da Seleção Brasileira que, apesar de ter matado alguns torcedores com sua atuação na semifinal do Mundial, ainda tem uma safra de novos torcedores que cantarão "Mil gols" nos próximos anos, mesmo que o respeito não tenha voltado. Sorte de David Luiz e Cia. que criança esquece fácil. O saudoso Barbosa teria invejado a 'Geração do 7 a 1'.