Dependência, David Luiz, perda da aura, fim do medo: A visão internacional do 7 a 1

Jornalistas de vários países contam como viram o jogo Brasil x Alemanha e qual a percepção atual sobre a seleção pentacampeã

A Seleção com mais títulos mundiais estava sendo humilhada em sua própria casa e levando sete gols em uma semifinal de Copa do Mundo. O sentimento de espanto dominou todo planeta, mas era difícil olharmos além da nossa incredulidade e entender como o 7 a 1 estava sendo visto lá fora e qual “legado” ele deixou para os estrangeiros.

Exatamente um ano após aquele dia histórico, a Goal Brasil traz a percepção que outros países passaram a ter sobre a Seleção Brasileira e como eles viram aquele fatídico jogo. Nos relatos de jornalistas pelo mundo, vem a sensação comum de que o nosso time não é mais o mesmo.

Dependência excessiva de um jogador, geração fraca, atletas desconhecidos, desconfiança, fim do medo de enfrentar o Scratch Canarinho, pobreza tática, distância da forma original de jogar. Todos os comentários trazem a certeza de que o 8 de julho de 2014 já é um ponto de virada para o nosso futebol.

Stephen Darwin – Reino Unido

Os torcedores e a imprensa assistiram com descrença Alemanha desmantelando o Brasil no ano passado. Obviamente, havia uma percepção de que a Seleção não seria a mesma equipe sem o seu talismã, Neymar, como foi provado novamente com o desempenho decepcionante na Copa América este ano. Existe um país no mundo do futebol neste momento que depende tão fortemente de um jogador para ser sua inspiração? Provavelmente não. Tem sido um declínio bastante triste para uma nação que sempre foi considerada uma das principais potências do futebol internacional.

Chegou ao ponto onde existem jogadores convocados para o Brasil os quais torcedores no Reino Unido nunca ouviram falar. Parece que, como a Inglaterra, o Brasil está passando por uma fase de transição. A geração de ouro de Kaká, Robinho, Ronaldinho e companhia está encerrada, mas será que Neymar realmente pode fazer tudo por conta própria?

Peter Staunton – Reino Unido

A percepção geral sobre o Brasil é que ele já não é tão forte como antes. Há apenas um jogador, Neymar, que tem a mesma qualidade dos famosos brasileiros do passado. A estratégia da equipe sob o comando de Dunga é chata, um futebol ultrapassado e facilmente contraposto. 

Não existe mais a mesma aura sobre o time do Brasil. Mesmo equipes como o Paraguai na Copa América podem competir com vocês. No passado, o Brasil estava entre os favoritos em todos os torneios, mas agora eles não seriam considerados mais sérios candidatos. Não existe a mesma oferta de jovens jogadores talentosos para o time principal e o Brasil está cada vez mais contando com jogadores de qualidade inferior, que não têm a mesma aceitação dos torcedores.

Ante Buskulic – Região dos Balcãs (Croácia, Bosnia-Herzegovina, Sérvia e Eslovênia)

O Brasil é e sempre será a maior nação de futebol do mundo, sempre é preciso respeito, mas os times estão motivados como nunca quando enfrentam a Seleção Brasileira. O Brasil não é mais o que costumava ser. Especialmente sem Neymar, é uma equipe que pode ser vencida por diversos adversários. A Croácia esteve perto na Copa do Mundo, mas uma penalidade duvidosa decidiu a partida. E depois perdemos para o México, em uma partida que os jogadores não entraram tão motivados como contra o Brasil.

Havia muita desconfiança com o time brasileiro na Copa América. Era impossível no passado ver equipe com quatro, cinco, seis jogadores titulares que você nunca ouviu falar. Agora isso acontece, mas não é devido aos 7 a 1 contra a Alemanha. Aqui, nós respeitamos o Brasil, mas não existe mais medo. 

Floris Koekenbier - Holanda

Na Holanda, havia uma desconfiança com o Brasil pela sua defesa ruim, com David Luiz como melhor exemplo. Foi uma vitória da classe tática da Alemanha sobre os desestabilizados brasileiros. Para nós, faltou maturidade. 

Especialmente depois da Holanda bater o Brasil por 3 a 0 na disputa do terceiro lugar, foi possível perceber a dependência de Neymar. Além disso, Luiz Felipe Scolari é visto como responsável por estas derrotas, porque ele não tem um bom plano tático. Nós percebemos isso nas duas derrotas sofridas pela nossa seleção para o Portugal de Felipão em 2004 (Eurocopa) e 2006 (Copa do Mundo), quando foram distribuídos muitos cartões amarelos e vermelhos. 

Hocine Harzoune – França

Nenhum especialista previu isso. Todo mundo estava em espantado ao apito final, assim como os torcedores brasileiros. O Brasil sempre foi um grande rival e um adversário digno da França na história da Copa do Mundo, por isso, ninguém esperava tal catástrofe. Especialmente depois de ver a Argélia e a própria França quase eliminarem os alemães. Os franceses até começaram a criticar os defensores brasileiros do PSG e questionar suas contratações pelo clube da capital.

Foi triste. Depois do povo brasileiro se animar em realizar a Copa do Mundo no "país do futebol", este ponto foi particularmente doloroso. A imagem de David Luiz explodindo em lágrimas em sua entrevista pós-jogo disse tudo. Na França, mesmo as pessoas que não estavam interessadas no futebol falaram sobre o jogo no dia seguinte. Era como se ninguém realmente acreditava nos seus olhos.

Ryan Kelly - Irlanda



Fotos: Getty Images

Para dar uma ideia de como a humilhação do 7 a 1 foi recebida na Irlanda, lembro de uma frase que foi dita por Eamon Dunphy , ex-jogador da nossa Seleção e atual comentarista: "Uma grande nação está morta e enterrada, e não vai retornar". Ele também chamou David Luiz de maluco. 

Na minha memória, fica o modo patético como David Luiz segurou uma camisa de Neymar durante o hino nacional. Ele sintetizou exatamente o quão perdido e ineficaz era o time do Brasil, ainda mais sem o craque do Barcelona. A camisa Neymar foi, em certo sentido, um escudo pronto para a equipe. Estava claro que eles foram batidos antes do jogo começar.