Vergonha, alegria e incredulidade: os diferentes sentimentos e reações de quem esteve no 7 a 1

Torcedores que estavam presentes na histórica goleada contam o que sentiram vendo uma das partidas mais incríveis da história do futebol

Um dos jogos mais incríveis da história das Copas do Mundo e do futebol completa um ano nesta quarta-feira. No 8 de julho de 2014, o Brasil sofreu a melhor humilhação de sua história futebolística: a derrota por 7 a 1 para a Alemanha na semifinal do Mundial disputado dentro de casa.

O palco daquela partida foi o Mineirão, em Belo Horizonte, e 58.141 pessoas viveram diferentes emoções durante o massacre alemão. Desde a alegria por estar vendo um bom futebol (de um time só) e um momento histórico, até a incredulidade pela velocidade com que os gols aconteciam e pelo inacreditável que era desenhado dentro de campo, e também a tristeza de alguns por ver o próprio país sendo humilhado dentro de casa.

Fabrício Leal Guimarães, de 22 anos, é um dos que ficou muito irritado com a partida. "Acreditava que o Brasil iria ganhar o jogo, por jogar em casa e ter a força da torcida. Na chegada ao Mineirão, estava tudo tranquilo, todos de verde e amarelo, com a expectativa de ganhar da Alemanha. Mas com o decorrer do jogo, principalmente durante o primeiro tempo com os vários gols seguidos, fiquei muito irritado e já queria ir embora, mas fiquei até o final, apesar de estar desanimado. O sentimento foi de vergonha, ainda bem que tinha cerveja no estádio (risos), porque o resto foi vergonhoso... Tomar de 7 a 1 em casa não dá não", conta à Goal.

Torcedora sofreu com derrota brasileira (Foto: Getty Images)

O tio do garoto, Fábio Humberto de Leal, de 40 anos, também estava presente no Mineirão, mas teve um sentimento e uma experiência diferentes do sobrinho. "Quando entrei no Mineirão foi uma alegria ímpar, parecia que já era final de Copa. Eu estava muito confiante, imaginava que o Brasil ia passar da Alemanha, ganhando de 1 a 0 ou 2 a 1... Mas foi diferente. Quando a Alemanha fez 2 a 0, eu fui ao banheiro e passei no bar para pegar uma cerveja, e lá nos bares, vi pela TV que estavam passando alguns gols. Pensei que era replay, aí quando voltei para a arquibancada, vi que estava 4 a 0. Foi inacreditável. Nós torcedores ficamos olhando para a cara do outro sem entender absolutamente nada. Parecia um treino de profissionais contra amadores", comenta.

Nem todos, no entanto, conseguiram assistir o Brasil sendo humilhado até o fim. Victor de Oliveira, de 29 anos, confessa que não aguentou ver os 90 minutos. "Sou mineiro, moro no Rio de Janeiro há quatro anos, mas antes disso frequentava assiduamente o Mineirão. Cruzeirense nato, sempre estive acostumado aos títulos dentro do Gigante da Pampulha, mas também já presenciei algumas derrotas marcantes. Entre tudo que já vi, nada se compara aos 7 a 1. Sabia que a Alemanha tinha um grande time e estava há muito tempo na fila, mas acreditava que podia dar Brasil", diz.

Victor (apoiado no amigo de camisa azul, com um copo na mão) antes do jogo (Foto: Victor de Oliveira/Arquivo Pessoal)

"No caminho do bar para os portões do estádio, a vontade de vencer superava a ansiedade. Eu e mais dois amigos, também mineiros e residentes do Rio, estávamos na última fileira da arquibancada. Lá de cima cantamos o hino com a garganta já arranhada, nos abraçamos, desejamos sorte e viramos para o campo novamente. Foi a última vez que falei com eles naquele dia. Em pouco mais de 20 minutos, quatro ou cinco gols. Quando me dei conta, já estava sozinho. Cada um foi para um lado. Todos se olhavam e ninguém sabia o que dizer. No sexto, virei de costas e fui embora. Não vi o gol do Brasil. Apenas um estádio chocado, um grande funeral silencioso", completa.

Alegria

No entanto, também existe quem não ficou triste com a derrota. É o caso de Beatriz Chueiri, de 24 anos. "Brasil e Alemanha foi o segundo jogo que eu fui naquela Copa. Também tinha ido no jogo contra o Chile (oitavas de final, também no Mineirão, quando a Seleção passou nos pênaltis). Eu não esperava que o Brasil fosse perder, então, na hora fiquei um pouco chateada, mas não senti nada. Estava do lado da torcida da Alemanha, então, os alemães estavam comemorando, e acabei curtindo, no final eu estava até comemorando os gols da Alemanha (risos). Eu gosto muito de Copa do Mundo, estava empolgada com a Copa. Não perdi o dia com a eliminação do Brasil não. Eu continuei aproveitando muito a Copa", revela.

A visão de Victor no dia da partida (Foto: Victor de Oliveira/Arquivo Pessoal)

Quem também ficou ao lado dos alemães foi o casal Isabela Jardim, de 28 anos, e Lucas Ragé, de 31. Os dois, inicialmente, nem iriam ao jogo, como conta Ragé. "Nós compramos ingresso de última hora. Não tínhamos conseguido antes, mas um primo da minha noiva tinha e vendeu para a gente faltando um dia para o jogo. No dia a gente ficou zoando o pessoal do trabalho, mas depois eles que brincaram com a gente, falando que a gente é pé frio e o Brasil perdeu por nossa causa (risos)".

"Antes do jogo foi muito legal, abracei os alemães e eles ficaram conversando com a gente. Sinceramente, hora alguma ficamos mal. O clima foi bacana e os alemães foram muito legais. Eles falaram que a gente tinha ganho a Copa muitas vezes e tínhamos que deixar eles ganharem também. Foi melhor assistir com eles do que em casa, com outros brasileiros reclamando. Durante os três primeiros gols foi horrível, mas depois foi muito bacana. Se eu pudesse ir de novo, iria! Era impossível ficar triste com tanto alemão do nosso lado", diz Isabela.

Alemães celebraram dentro e fora de campo (Foto: Getty Images)

O jeito dos alemães também cativou Ragé, que afirma: "temos muito a aprender com eles". "O jogo foi ótimo e a experiência foi muito legal. No começo foi um choque, mas depois foi muito legal. Eles têm muito fair play. No intervalo fui pegar uma cerveja e, no caminho, os alemães já vinham dando condolências, dizendo que eles não esperavam ganhar de tanto, mas que o Brasil era demais e a maior seleção de futebol do mundo, e que era uma honra estar no nosso país. Foi memorável nesse sentido do fair play. A gente tem muito a aprender com eles", finaliza.