Ídolo do rival, casamento no clássico e gol mais bonito: as histórias de Alex, o mito máximo na Turquia

Eterno craque brasileiro relembra passagem pelo Fenerbahçe antes do dérbi deste fim de semana contra o Galatasaray

Milhões de crianças são batizadas ao redor do mundo todos os anos. As formas variam de acordo com a religião, mas na Turquia existe uma maneira especial.

Se um pai deseja que seu filho se torne um craque e brilhe no mundo do futebol, ele leva o garoto até a estátua de Alex, sonhando que o eterno camisa 10 abençoe seu garoto com o dom da genialidade futebolística.

Alex, afinal, ganhou uma estátua na Turquia pelos incontáveis momentos mágicos com a camisa do Fenerbahçe. Foram 378 jogos, 185 gols, 162 assistências, três títulos do Campeonato Turco, uma Copa da Turquia e duas Supercopas, além de boas participações na Uefa Champions League. Golaços, dribles impressionantes, visão de jogo, técnica e habilidade absurdas, belos passes e jogadas espetaculares. O camisa 10 foi extraordinário no Fener.

(Foto: İHA)

E na Turquia, onde os amantes do futebol são extremamente fanáticos e malucos pelo esporte, batizar o filho na estátua do ídolo é apenas uma das várias histórias deliciosas que o jogo proporciona. Quem garante é o próprio Alex, que em entrevista exclusiva à Goal Brasil, relembrou sua passagem pelo Fenerbahçe.

"O povo turco é totalmente diferente do povo brasileiro, inclusive no futebol. A cultura é muito diferente. Às vezes eu voltava de um clássico que eu tinha ganho e tinham milhares de pessoas esperando a gente no centro de treinamento. Eu já vi casais de noivos com champagne comemorando o matrimônio deles no meio de vários torcedores. No Brasil eu nunca vi isso. E na Turquia isso acontecia sempre. Eu até brincava com o Fábio Luciano que toda vez que tinha um clássico tinha um casamento (risos)", contou o eterno craque em entrevista à Goal Brasil.

Este fim de semana, inclusive, reserva mais um dérbi entre Fenerbahçe e Galatasaray. Será no domingo, às 15h (de Brasília), na casa do Fener. O clássico, porém, não tem o brilho dos tempos de Alex. O Gala, afinal, é apenas o terceiro colocado da Turkey Süper Lig, seis pontos atrás do líder Istanbul BB. O ex-time do brasileiro está apenas no quinto posto, duas unidades atrás do rival. A fase de ambos não é das melhores.

(Foto: seskimphoto.com)

Ainda assim, pela histórica rivalidade, um dos maiores clássicos do mundo sempre chamará atenção. Alex preferiu não dar um palpite para o dérbi, e admitiu que não está acompanhando muito a temporada atual do futebol na Turquia, mas relembrou algum de seus melhores momentos contra o Galatasaray, além de eleger seu gol mais bonito e o tento mais importante.

"Meu gol favorito foi no 2 a 2 em casa (em 2012), que eu fiz um gol de fora da área, pegando um rebote do zagueiro (e acertando um belíssimo chute). Não foi o gol mais importante, mas foi o mais bonito. Eu também tive a felicidade de ganhar um clássico na casa deles, no primeiro clássico no novo estádio deles (em 2011). Nós saímos perdendo, mas no segundo tempo eu dei a assistência para o gol do empate e aos 41/42 minutos do segundo tempo, eu fiz o gol de cabeça (que decretou a vitória do Fener) e para mim foi o gol mais importante que eu fiz em clássicos, porque nós estávamos atrás na classificação e aquele jogo foi importante para o título que nós conseguimos vencer", comentou.

Saída conturbada

No entanto, mesmo com os feitos impressionantes pelo Fenerbahçe, inclusive em clássicos, Alex teve uma saída conturbada do clube e não foi homenageado como deveria. E o pior: tudo aconteceu por causa dos ciúmes de um técnico que sequer continua por lá.

Último treinador de Alex no Fener, Aykut Kocaman, ex-jogador e ídolo da equipe, tinha ciúmes do meia brasileiro porque não queria ver o camisa 10, com 185 gols, ultrapassá-lo na lista de maiores artilheiros da história do clube. O meio-campista estava (e continuou) apenas nove tentos atrás de Kocaman, que fez de tudo para impedir que o feito acontecesse.

(Foto: Depophotos)

O treinador afastou Alex do time sem qualquer motivo, alegando que pelo tamanho que o craque tinha, ele não poderia tê-lo contra suas ideias no vestiário. O brasileiro questionou a decisão e foi conversar com o presidente do Fenerbahçe, Aziz Yildirim. No entanto, o mandatário escolheu ficar ao lado do técnico. Na ocasião, o camisa 10 desabafou que em apenas três minutos tudo foi resolvido e ele deixou a equipe turca.

Alex comentou a polêmica e garantiu não ter problemas com o mandatário. "Não tenho problemas com ele (Aziz Yildirim). Ficou uma situação mal resolvida e eu não sei o que aconteceu porque eu não tive problema nenhum com ele. Eu nunca tive problemas com o presidente do clube. Eu tive discussões normais de quem trabalha no clube há muito tempo, mas problema com ele eu nunca tive", afirmou.

"No entanto, da última vez que eu estive na Turquia, eu liguei pra ele pra gente se encontrar e ele nem quis me receber. Eu não sei porque isso aconteceu, tenho até curiosidade de saber, porque com ele eu nunca tive problema. Eu tive problema com o treinador (Aykut Kocaman) do clube. E ele, como presidente do clube, na hora de tomar uma decisão, acabou indo pelo lado do treinador. Eu entendi completamente. Mas para mim isso já passou, eu já parei de jogar, e sou muito bem resolvido com essa situação", completou.

(Foto: AA)

O meia ainda disse que a polêmica não interferiu na sua aposentadoria pelo Coritiba. Ele sempre teve esse plano, e a saída do Fenerbahçe, que iria acontecer futuramente, foi apenas antecipada. "Escolhi o Coritiba porque desde que deixei o clube com 19 anos, quando fui para o Palmeiras, eu tinha a intenção de encerrar a carreira no Coritiba. Quando eu voltei ao Brasil, eu pensei em jogar mais dois anos e depois parar. Também escolhi o Coritiba por uma questão de transição familiar. Estava na minha cidade, já poderia colocar as crianças na escola. Por isso fiz essa opção e queria encerrar a carreira pela equipe que eu sempre torci e onde comecei minha carreira", explicou.

Ídolo do rival

Se os torcedores do Fenerbahçe idolatram Alex como um gênio fantástico, do lado do Galatasaray, os fãs exaltam Gheorghe Hagi. O craque romeno é um dos maiores jogadores da história do futebol e deixou um legado de grandes feitos por clubes e também pela seleção, quando liderou a Romênia na Copa do Mundo de 1994. Na ocasião, a melhor geração de todos os tempos do país chegou nas quartas de final do Mundial com show do camisa 10.

Na Turquia, Hagi e Alex são constantemente comparados, já que são grandes ídolos dos rivais e ambos eram camisas 10 magistrais. Para o brasileiro, porém, não existe comparação alguma.

"O Hagi foi um jogador fenomenal. Em 1994 eu tinha 16 anos e acompanhei a Copa do Mundo. Ele foi espetacular com a seleção da Romênia. Ele fazia coisas maravilhosas. Era um jogador espetacular. Eu acho que o Hagi foi melhor do que eu. Eu não fico muito preocupado se eu joguei mais ou menos que outros jogadores, mas quando se fala do Hagi, realmente, ele foi fantástico", elogiou.

"Eu tenho poucas referências do Hagi nos clubes, porque acompanhei ele pouco nos clubes, a referência que eu tenho dele é na seleção da Romênia. Além disso, as marcas que eu tenho, os ídolos e o gostar de futebol vieram da minha adolescência, e o Hagi marcou muito a minha adolescência, porque ele jogou muita bola", exaltou.

Futuro

Alex ainda comentou seus planos para o futuro e reclamou do trabalho feito nas categorias de base brasileiras. "As categorias de base mudaram muito. Hoje, os clubes querem ganhar mesmo nas categorias de base, ao invés de formar o jogador. Já ouvi várias entrevistas em que os dirigentes comentam que o clube foi campeão infantil e juvenil de basquete, vôlei, futebol... Está tudo muito voltado para o título, e aí se esquece da formação, porque o treinador que está no time sub-12 e sub-13, se não ganhar o título, acaba sendo mandado embora", comentou.

(Foto: Depophotos)

"Os meninos de 12, 13 anos, que têm as características que eu tinha, normalmente são mais baixos, e acabam sendo deixados de lado por esse treinador porque ele prefere um jogador mais forte e alto, que pode fazer a diferença na força, e não na técnica. Olhando para o futuro, isso é prejudicial, porque não se formam jogadores técnicos e pensando no time de cima", criticou.

"Eu penso em muita coisa, mas não tenho nada definido ainda (para fazer no futuro). Meus filhos e minha família me ocupam muito tempo, e eu gosto, é um tempo agradável para mim. Então, ser comentarista na televisão me dá a oportunidade de estar dentro do futebol, vendo as coisas do futebol e estando no mundo do futebol, vendo as coisas pelo lado da imprensa, mas de também ter um tempo com a minha família. Está muito agradável para mim e por enquanto vou continuar dessa forma. No futuro eu realmente não sei o que farei", concluiu.