Brasileiro já encarou até camelo e larva do outro lado do mundo e revela: "os torcedores dão até Rolex"

Diretor executivo da base do Buriram United, atual bicampeão tailandês, Leonardo Vitorino conta suas aventuras do outro lado do mundo

Imagine que você está no seu trabalho e acabou de conquistar um objetivo muito perseguido por todos. A felicidade é tamanha que seu chefe resolve fazer um jantar para celebrar o feito. Você, então, feliz com a conquista e seu emprego, chega para jantar esperando aquele banquete, mas se depara com um... Calma, vamos dar um tempo para você respirar. Com um camelo pronto para ser comido. É, isso mesmo, você não leu errado: um camelo. E o pior é que seu chefe, o presidente da firma, está do seu lado, comendo todo satisfeito, e você não pode sair dessa e tem que deliciar a exótica comida.

Pois é, que dureza, hein...

Ainda bem que nós só imaginamos, mas Leonardo Vitorino, brasileiro de 41 anos que é diretor executivo da base do Buriram United, atual bicampeão tailandês, passou por isso quando trabalhava no Qatar, e contou a história em entrevista exclusiva à Goal Brasil .

"Cara, uma situação bem estranha foi quando a gente tinha conquistado o campeonato no Qatar. Quando somos campeões, o presidente faz um jantar e vai colocando o pedaço do camelo em cada prato da comissão técnica e dos jogadores. E nesse dia eu estava na mesa em que o presidente estava, então não tinha nem como pensar em não comer (risos). Tive que comer mesmo, mas não é uma coisa tão ruim assim (risos). É bem parecida com uma carne assada, mas um pouco mais melada (risos)", lembra o brasuca.

(Fotos: Divulgação)

Vitorino é especialista em categorias de base. O tupiniquim, aliás, tem vasta experiência do outro lado do planeta, onde trabalhou e obteve êxito no Al Gharafa e El Jaish, no Qatar, no Santos, de Angola, e também em seleções dos Estados Unidos e Austrália, além de também trabalhar em clubes brasileiros, como o Botafogo. No primeiro time citado, aliás, o hoje dirigente do Buriram United foi premiado quatro vezes como autor do melhor programa de desenvolvimento de jovens equipes. Já na África, ele levou o Santos à primeira divisão da Angola tendo apenas jogadores de até 23 anos em seu time.

Pelo sucesso no Qatar, ele se lembra com carinho dos tempos no país, mas afirma que também está muito feliz na Tailândia. "Apesar de tudo (diferenças culturais), o Qatar foi um lugar em que trabalhei e gostei muito. O Qatar e a Tailândia foram os países que eu mais gostei de trabalhar, mas o Qatar é o mais especial porque eu ganhei muitos títulos lá", explica, antes de falar sobre os mimos que os atletas costumam receber de torcedores e desmentir um mito.

"Não existe isso (ganhar carros e relógios luxuosos ao marcar gols e ter boas atuações) no Qatar. O jogador ganha apenas o prêmio de melhor em campo. De repente em algum jogo importante, ele pode ganhar um relógio, mas com relação a carro, é mais na Arábia Saudita. Na Arábia Saudita, se você fizer um gol de título, um gol importante, você ganha carro, mas não no Qatar. Hoje em dia os jogadores já estão com contratos pré-determinados. Um torcedor ou outro chega e dá um presente, uma coisa diferente para cada atleta. Às vezes dão uma estatuazinha de ouro ou um relógio Rolex, mas o carro hoje em dia é mais difícil", revela.

Vida na Tailândia e comidas bizarras

Lembra do camelo? Pois o animal não foi a única comida exótica que o corajoso brasileiro precisou encarar. Vitorino lembra de outra iguaria um tanto diferente da qual também não conseguiu escapar. 

"Olha, teve outra que não teve como escapar (risos). Teve uma festa aqui do clube que eles me ofereceram uma larva que fica nas árvores, uma branca. A minha sorte é que tava frita, porque realmente é muito difícil de comer (risos). Ela é bem salgada também. Pra não dizer 'não', eu tive que experimentar... Aí experimentei uma, agradeci, e falei pra eles que eu prefiro a comida tradicional deles (risos)", conta.

Na Tailândia, por outro lado, o problema é o excesso de pimenta, mas Vitorino está gostando muito da vida no país. "A comida aqui é um pouco apimentada, mas é mais tranquilo porque existem mais opções e supermercados que vendem tudo que comemos no Brasil, menos o feijão (risos). O nosso feijão é que faz a falta aqui (risos). Mas o resto, tem de tudo. A alimentação é muito variada e o pessoal come coisas mais normais (risos). Só no interior, com a população mais oriental, que é dureza. O pessoal come escorpião, alguns insetos, essas coisas, mas é só nas cidades menores", comenta.

"Eu até já experimentei algumas coisas aqui, mas são muito salgadas. Só que dá para se virar bem e legal. Tem de tudo aqui na Tailândia e encontramos muitos restaurantes com comida internacional, nos hotéis também, então é bem tranquilo. E a língua também não tem sido um grande problema. A primeira coisa que fiz quando cheguei foi procurar as palavras básicas. Pedi para o pessoal me mandar as palavras básicas escritas, então ficou mais fácil na prática e no dia a dia, porque são mais termos de campo. Falo inglês, mas aprendi um pouco de tailandês também", completa.

"E a vida aqui é bem legal também. Temos profissionais e muitas competições em vários locais que muita gente não conhece no Brasil. Campeonatos em Laos, na Malásia, no próprio Qatar onde eu trabalhei. E a qualidade de vida também é muito boa. Tem Bangcoc que é próximo do lugar onde moro, que é Buriram. Dá só uma hora de viagem, e Buriram também é bem tranquila. O presidente do clube inclusive fez um autódromo aqui e foi disputado um campeonato de motos em alta velocidade. O autódromo foi até aprovado pela Federação Internacional de Automobilismo", conclui.

Confira, nesta sexta-feira, a segunda parte do bate-papo com Leonardo Vitorino, em que o especialista em categorias de base fala dos problemas da estrutura no Brasil e também da preparação do Qatar para a Copa do Mundo