Herói santista e 'desbravador do Leste Europeu' Júnior Moraes fala sobre sonhos no futebol

EXCLUSIVO: Destaque no Dínamo de Kiev, especialista em enfrentar o Shakhtar, Júnior Moraes fala sobre Santos, conflitos na Ucrânia e aposta em boa campanha na Champions League

O torcedor do Santos não se esqueceu dele. Autor do gol que garantiu o título paulista em 2007, Júnior Moraes rumou para o futebol europeu na temporada 2009-10. Consolidou sua carreira em clubes do Leste e atualmente é um dos principais jogadores do Dínamo de Kiev, líder do Campeonato Ucraniano e que luta para fazer uma boa campanha na Champions League.

Com o futebol correndo em suas veias – é filho de Aluísio Guerreiro, ex-jogador do Santos, e irmão de Bruno Moraes -, Júnior tem muita história para contar: desde o ‘ataque dos sonhos’, quando jogou ao lado de Zicu e Platini na Romênia, passando pela fanática torcida do CSKA Sofia até a chegada à Ucrânia. Sem esconder o sonho de defender a Seleção Brasileira, o atacante também falou bastante sobre a rivalidade com o Shakhtar, a amizade com os brasileiros da principal equipe de Donetsk e deu o seu ponto de vista sobre o confronto do país com a Rússia. 

A conversa, feita por telefone, começou em alta temperatura... Ao menos no Rio de Janeiro, que marcava 35º e um sol ‘de rachar’. Na Ucrânia, contrariando o que ficou popularmente estabelecido por aqui, nada de frio. Um tempo bonito e um calorzinho. “Se fosse calor o ano todo assim, estaria bom”, fez questão de reiterar Júnior Moraes. Abaixo, confira o extenso bate-papo com o atacante.

O seu principal momento no futebol brasileiro foi no Campeonato Paulista de 2007, quando entrou na final e marcou o gol do título sobre o São Caetano. A torcida do Santos ainda manda lembranças por aquele jogo?

“Aquele foi o meu melhor momento no Brasil. Eu fui embora muito novo, com 21 para 22 anos. Nos meus poucos momentos, aquele foi o mais importante, e o pessoal ainda lembra sim, com carinho. Foi um campeonato importante, ainda mais pela forma como se desenhou aquela final*. O pessoal volta e meia lembra, manda mensagens pelas redes sociais. Acho que vai ficar sempre marcado na história do Santos. Foi uma passagem muito rápida, joguei acho que um ano e meio no profissional, mas fui coroado por poder, vindo da base, fazer aquele gol”.

*O São Caetano venceu o primeiro jogo por 2 a 0; o Santos, que tinha a vantagem do empate igualou o placar no encontro decisivo, com gol de Júnior Moraes

Por que, na sua opinião, você não teve tantas chances no Santos?

“Foi bem claro que aconteceu lá. Quem me subiu para o profissional e me revelou, na época, foi o Vanderlei Luxemburgo. Eu tive algumas oportunidades com ele, joguei o ano de 2007, mas logo depois, quando virou o ano, mudou o treinador. Chegou o Emerson Leão, e todos sabem da rivalidade, da rixa, que um tem com o outro. Aí seria complicado para o Emerson Leão colocar em campo jogadores revelados pelo Luxemburgo". 

Você chegou a ser emprestado para Ponte Preta e Santo André, mas lesões e falta de sequência te atrapalharam. Como foi que você acertou a ida para o futebol europeu? 

“Eu queria sair do Brasil porque já estava bem triste, desanimado. Sempre que eu assinava um contrato, como foi na Ponte Preta e Santo André, me prometiam uma coisa, combinavam, mas depois aconteciam mudanças e eu nunca tinha uma sequência de jogos. E aí eu tive duas propostas concretas: da Romênia (Gloria Bistrita) e de Portugal (do Belenenses). O time da Romênia me ofereceu um contrato melhor, e pelo que eu vi a estrutura do clube era legal, era um time organizado. Por isso eu escolhi a Romênia, por parecer mais organizado. Achei que seria melhor para mim. Eu fiz uma temporada e meia lá".

“No começo foi tudo muito diferente. Quando me apresentei para os exames, olhei o pessoal treinando em volta do campo e tinha neve até na cintura! Eu fiquei bem assustado, mas preferi focar no lado bom e foi mais fácil de me adaptar. Três meses depois de assinar o contrato eu já estava dando entrevistas em romeno. Vivi muito bem lá, guardo muitas lembranças boas”.

Dizem que o futebol romeno é muito desconfiado com esquema de irregularidades de resultado, já que o passado mostra alguns casos bem escandalosos. Esse era um tema comum nas conversas entre jogadores e, também, na imprensa?

“Na verdade, escutei mais sobre essas coisas quando fui embora de lá. Mas uma vez aconteceu com um zagueiro do meu time, Lukas Szukala. Depois de uma derrota nossa para o Cluj, o presidente do clube acusou ele de ter entregado o jogo. Ele era muito amigo meu, uma pessoa super do bem. Foi um choque para nós, porque não tinha motivo nenhum para o presidente falar aquilo. 

Acho que ele quis mexer com o grupo e acabou se equivocando na hora de dar a entrevista, e isso soou muito mal lá. Mas por tudo o que eu tenho visto da Romênia, é um dos países que mais tem evoluído sobre corrupção. Nos últimos anos muitas pessoas que cometeram irregularidades no futebol foram presas. É uma boa notícia para quem gosta do futebol, do esporte. Pode ser assim em outros países também”.

No Metalurh Donetsk, que é um time recente (fundado em 1996), você tornou-se maior artilheiro do clube. Como você acertou sua ida para lá, sendo que o caminho mais fácil, digamos assim, para brasileiros é acertar com o Shakhtar?

“É um clube novo, com uma estrutura maravilhosa. Eu fiquei encantado com a proposta que eles fizeram, o projeto que eles me mostraram. A estrutura era uma coisa sensacional, melhor do que de muitos clubes grandes da Europa. Eu aceitei o desafio, o time evoluiu bastante nas três temporadas em que eu estive lá. Foram as melhores campanhas: duas vezes em quinto lugar e uma em sexto. Conseguimos nos classificar até para a qualificação da Liga Europa, mas infelizmente não conseguimos entrar na fase de grupos”.

(Foto: arquivo pessoal/Facebook)

Você disse que aprendeu a falar romeno rápido, e alguns anos depois você estava em Donetsk. O Shakhtar é treinado pelo Mircea Lucescu, ex-jogador e treinador da Seleção Romena. Houve alguma aproximação do Shakhtar, até por ser um time cheio de brasileiros?

“Eu conheci ele (Lucescu) em Donetsk, mantinha contato com ele lá. É uma pessoa super do bem, ama brasileiro. Mas foi coisa de momento, porque o Shakhtar chegou a fazer uma proposta para o Metalurh, 5 milhões de euros. Só que, infelizmente, rejeitaram na época. Dínamo de Kiev e Guangzhou – na época treinado pelo Erikson – também fizeram propostas e eles rejeitaram. 

Depois de um tempo, eu já tinha notificado que não ia renovar o contrato. Aí o Dínamo fez uma proposta que eu achei mais interessante, até porque o Shakhtar já tinha três centroavantes no time. Aí eu decidi acertar ir pra Kiev, até porque o Shakhtar teve que sair de Donetsk por causa da situação que teve (conflito com a Rússia). Ficava aquela incerteza...

Como o conflito entre Rússia e Ucrânia afetou o seu dia-a-dia lá? 

“O campeonato passado foi muito apreensivo, difícil. Principalmente para os jogadores que viviam em Donetsk. Era uma realidade completamente diferente. Os noticiários diziam muitas coisas sobre o país, sobre o que estava acontecendo. Mas, no início, quando eram mais protestos, a gente saía para a rua e não via nada daquilo. A mídia aumentava um pouco o que estava acontecendo ali. Volta e meia algum familiar ligava, preocupado, falando de bombas... mas a gente acalmava e falava que estava tudo bem. 

Nas férias do meio do campeonato, pausa de inverno, houve notícias sobre fechamento de aeroportos. Aí ficamos mais preocupados. Mas no final todo mundo teve férias normal, não teve problema nenhum. Quando passou um tempo é que a guerra estourou de vez lá. Graças a Deus estávamos fora, mas é muito triste porque temos amigos que ficaram”.

Dentre os ucranianos que você conheceu lá, teve alguma situação que lhe sensibilizou mais?

“A notícia mais triste dentre as pessoas que conviviam comigo no Metalurh foi sobre o nosso tradutor e o nosso preparador de goleiros. O tradutor teve a casa explodida, perdeu tudo. Ele ainda estava terminando partes da casa, é bem complicado. O nosso preparador de goleiros teve a casa saqueada. Não tinha mais condições de continuar em Donetsk, aí ele foi embora e as pessoas que vivem lá roubaram tudo”.

(Foto: arquivo pessoal/Facebook)

Por causa dos bombardeios, o Metalurh e o Shakhtar passaram a jogar longe de casa. O Dínamo segue em Kiev. Essa vantagem faz de vocês favoritos para os campeonatos nacionais?

“É... eu vivi isso com o Metalurh na temporada passada e senti muito. É uma diferença? É. Uma vantagem nossa? Também, mas o Shakhtar foi campeão cinco vezes seguidas do campeonato. É um time muito sólido. Eles jogam juntos há quatro anos. É a mesma equipe, a mesma estrutura, a mesma tática. O Dínamo vem muito forte, evoluindo. Somos favoritos sim, mas acho que a diferença é mínima. É muito igual. A gente pode levar um pouco mais de favoritismo por causa dessa situação”.

Você defendeu um clube novo, que já nasceu rival do Shakhtar, e agora veste a camisa do maior rival do clube de Donetsk. Qual é a sensação antes do clássico?

“Ah, desde a época do Metalurh esses jogos, contra os times grandes, sempre me cativam bastante. E contra o Shakhtar não é diferente, sempre são jogos especiais para mim. É engraçado, porque eu tenho muita amizade com os jogadores do Shakhtar, também tenho um carinho muito especial pelo treinador deles. Mas é o meu maior rival aqui na Ucrânia, e, com certeza, quando eu jogo contra eles eu faço o meu máximo para dar o maior trabalho possível”.

CONFIRA A TABELA DE CLASSIFICAÇÃO DO CAMPEONATO UCRANIANO

Dizem que, por ser um clube com muita história no passado, a torcida do Dínamo de Kiev é mais exigente... enquanto a do Shakhtar, historicamente mais operária, apoia mais. Até que ponto isso é verdade?

“Isso tem fundamento sim. Como eu acompanhei muito tempo o Shakhtar, eu vejo a torcida deles sendo mais de espectadores: pessoas que vão mais para assistir a um espetáculo, do que para exigir alguma coisa. Gostam do clube, amam, mas não é aquele torcedor que vai, cobra, vaia. Acho que foram poucos os jogos que torcedores vaiaram o time do Shakhtar. No Dínamo eles cobram mais, acho que por causa da história, do passado, já que estavam sempre acostumados a vencer. É uma torcida que vai no estádio, canta mais, incentiva mais o time. Só que, ao mesmo tempo, é uma torcida que cobra mais também”.

“Jogo da Morte”, Valeriy Lobanovskiy, Shevchenko... no Dínamo eles passam essas histórias gloriosas para vocês ou o foco é apenas o bola-e-campo?

“Eu escutei bastante, mais por causa dos jornalistas do que pelo pessoal mesmo do clube – diretor, treinador ou algo assim. Mas eles valorizam muito a história, o país valoriza muito a história e aqui no clube também é assim. O Lobanovskiy, com certeza, é uma das figuras mais importantes do clube”.

(Foto: arquivo pessoal/Facebook)

A vantagem no Ucraniano é de três pontos. Apesar da disputa na Champions League, o foco é ser campeão nacional?

“Olha, acreditamos em nossas condições para avançar nesta fase de grupos, apesar de ser bem difícil. Só que, ao mesmo tempo, não podemos deixar de dar prioridade no Campeonato Ucraniano porque, para nós, é muito importante sermos campeões. O treinador já deixou bem claro isso, tem feito revezamento nos jogos da Champions, campeonato e também na copa. Assim os jogadores ficam sempre bem na parte física, sem a exaustão pelo número de jogos. Neste mês todo nós temos jogos no meio de semana e fim de semana, é bem puxado. E na Champions League tem que estar no seu melhor nível físico, psicológico... tem que estar no melhor em tudo. 

Como você vê o grupo de vocês, com Porto e Chelsea? De certa forma é uma ‘obrigação’ vencer o Maccabi na próxima rodada, já que é o clube ‘menos forte’ do grupo?

“Concordo quando você diz que é o time menos forte, mas não deixa de ser perigoso, porque é um clube que vem muito bem nos últimos anos. Eu acho que a gente briga com o Porto. Se for pensar na lógica, o Chelsea é o grande favorito para classificar em primeiro, o Porto e o Dínamo vão brigar pela segunda posição e o Maccabi é quem pode fazer a diferença ali no grupo, surpreendendo com uma vitória ou empate, dependendo do adversário. Nós temos que ficar de olho, porque vai ser um jogo muito difícil na próxima terça-feira, mas acredito que a gente possa sair como vencedor”.

Recentemente, contra o Obolon, você fez um belo gol de cabeça... o gol do título paulista foi da mesma maneira. Esse é o seu principal fundamento? Como você definiria o seu estilo como atacante?

“É engraçado, porque eu não sou um centroavante tão alto (1,76m). Gosto de participar de todas as jogadas, de sair mais da área para ajudar na organização do jogo... a imprensa ucraniana até diz que eu estou em todas as partes do campo, mas saber se posicionar é muito importante para um atacante”.

Desde a sua saída do Santos, o Dínamo de Kiev é o maior clube que você defendeu. Essa também é sua opinião?

“Sim. Eu passei pelo Gloria Bistrita, que não é um time top da Romênia, é um time médio. Depois fui para o CSKA Sofia, que é um clube grande da Bulgária, também tem muita história. Os torcedores lá são maravilhosos, fanáticos. É uma torcida que me faz lembrar bastante a do Corinthians, no Brasil. Aqui na Europa eu vi poucos clubes com uma torcida tão fanática como a do CSKA Sofia. Eles criam uma atmosfera sensacional no estádio.

... e lá você teve a honra de jogar ao lado do Michel Platini*, né?

“Realmente (risos). Quando eu cheguei no CSKA Sofia eu joguei com o Michel Platini e com o Zico (risos), mas se escrevia com ‘u’ no final: Zicu. Ele era romeno”. 

*Atacante homônimo do ex-jogador da França e atual presidente da UEFA, atualmente o Michel Platini brasileiro joga pelo Brasília.

E vocês faziam piada por ter uma dupla dessa qualidade?

“Bastante! Era o ataque dos sonhos, Michel Platini e Zicu (risos). Eles brincavam também com o meu nome, mas no passado não tinha ninguém com o nome igual ao meu, né?”

O planejamento é fazer uma longa história no clube, ou o sonho é de ser vitorioso, mas também rumar para mercados mais ‘famosos’ da Europa?

“Eu abri mão de muita coisa para seguir com o meu sonho, tive propostas financeiramente espetaculares da Ásia e dos Emirados Árabes. Mas eu tenho o sonho de jogar a Champions League, de fazer um bom campeonato aqui, jogar em um clube grande como o Dínamo. Lutar para ser campeão e, quem sabe, jogar pela Seleção Brasileira. Esse é o meu grande sonho. Eu tenho trabalhando muito para chegar lá. Acho que o Dínamo foi um passo muito importante para eu conquistar esse meu sonho. E também sonho em jogar, depois do Dínamo, em clubes de maior expressão no mundo”.

(Foto: arquivo pessoal/Facebook)

E futebol brasileiro. Sonha em voltar?

“Olha, eu tenho muita saudade do Campeonato Brasileiro. Eu saí muito cedo e, como falei, não tive sequência, não curti o futebol brasileiro. Joguei muito pouco. Mas, agora, voltar não está nos meus planos. Eu me adaptei muito bem aqui na Europa, mais para o lado do leste europeu. A cada ano eu me sinto melhor, tenho evoluído cada vez mais. Eu não posso dizer que não voltaria, mas a minha ideia é de continuar aqui na Europa”.

Entre as cidades europeias que você jogou e morou. Qual foi a melhor, na sua opinião?

“Ah, eu acho que Kiev é o lugar que tem mais opções, mais qualidade de vida. Mas eu gostei muito de viver em Sofia, na Bulgária, que também era capital, e na Romênia eu morei numa cidade bem pequenininha. O Shopping mais próximo ficava a uma hora de carro, era uma cidade do interior, mas eu vivi muito bem lá. Tinha muita qualidade, porque era uma cidade colonizada por alemães, era tudo muito bonito, arrumadinho. As pessoas eram muito receptivas lá, eu fiz muitas amizades. Foram três lugares muito diferentes, mas eu gostei muito de todos”.