Campeões mundiais em épocas diferentes, Tostão e Paulo Sérgio analisam o 7 a 1 da Alemanha

Exclusivo: Craques do passado e jornalistas avaliam o futebol brasileiro um ano após a sua maior derrota dentro dos campos

Há exatamente um ano, a Seleção Brasileira sofria a derrota mais vexatória de uma equipe nacional de futebol. Jogando a Copa do Mundo em casa, o time então comandado por Luiz Felipe Scolari perdeu de 7 a 1 para a Alemanha na semifinal. Um resultado que entrou para a história; 90 minutos que talvez sejam o documento mais forte para mostrar como o esporte mais popular de todos tem sido maltratado em nosso país. 

O que mudou desde então? A eliminação na Copa América deixou pistas de que pouco ou quase nada foi feito. Na busca para entender melhor o atual panorama do nosso futebol, a Goal Brasil conversou com dois campeões mundiais em épocas diferentes, Tostão e Paulo Sérgio, e com os jornalistas Marcelo Bechler e Mário Marra em busca de respostas sobre o que aconteceu naquele dia 8 de julho no Mineirão.

O luto necessário após a 'tragédia' e a falta de ação posterior

“Todo o luto que cerca uma tragédia precisa ser vivenciado, discutido, incorporado, para que a pessoa ou qualquer entidade/grupo se recupere após esse luto - para viver e recuperar o que foi perdido”, afirma, com exclusividade, Tostão. “No Brasil, não. No Brasil, ao invés de vivenciarem esse luto, passaram a negar isso e a queda do futebol brasileiro... e já atrasamos um ano. Precisamos começar a recuperar esse prestígio perdido”, avalia o craque campeão do mundo em 1970.

Paulo Sérgio é outro que pode falar do assunto como poucos: por já ter sido campeão mundial em 1994 com o Brasil e por ser ídolo na Alemanha, onde defendeu as camisas de Bayer Leverkusen e virou ídolo do Bayern de Munique. O ex-atacante constantemente viaja para o país, e revela o sentimento de ver o Brasil desacreditado aos olhos dos algozes: “na última rodada do Campeonato Alemão eu fui convidado para entregar as medalhas para os campeões, no caso o Bayern de Munique. O Schweinsteiger, que é um grande amigo meu, sempre me pergunta: ‘e aí, Paulo, o que acontece com a Seleção Brasileira?’ Na hora eu não faço nada. Dou uma risadinha e fico quieto, até porque não cabe nem discussão em um resultado tão expressivo como foi”.

E o respeito que os alemães tem pela história do futebol brasileiro talvez seja o principal fator para tanta incredulidade: “hoje, eles respeitam bem a Seleção Brasileira, mas ao mesmo tempo ficam muito felizes de terem conseguido um resultado tão importante em uma Copa do Mundo no Brasil, e com um futebol que poderia ser o nosso. Nós perdemos uma grande oportunidade”, explica o camisa 18 da Seleção na campanha do tetra.

A reação dos jogadores e o fator psicológico

Além do futebol apresentado, os jogadores da Seleção Brasileira têm sido bastante criticados pelo comportamento fora de campo: excesso de fotos em redes sociais e uma preocupação, mesmo que aparente, maior em parecer um popstar tem sido os grandes pontos questionados. A dedicação dos atletas para com a camisa amarela levanta cada vez mais dúvidas daqueles que tanto a acompanham. Tostão discorda deste tipo de avaliação, e acredita que a culpa tenha sido mais de quem não vestia as chuteiras


Jogadores brasileiros sentiram a pressão psicológica durante a Copa América do Chile (Foto: AgenciaUno)

“Na verdade, todos eles querem ganhar. Em uma Copa do Mundo não tem isso não: perderam porque foram inferiores tecnicamente, e o lado psicológico é importantíssimo, principalmente na Copa foi importante. Os jogadores não suportaram a pressão de jogar dentro do Brasil, ainda mais com o discurso ufanista do Felipão e do Parreira, antes da Copa, de que o Brasil ia ganhar, que estava com a taça na mão... que não era possível perder em casa. Tudo isso aumentou a pressão nos jogadores, que sentiram, realmente. Ficaram presos nessa pressão e perderam a espontaneidade de jogar, e isso prejudicou muito a atuação deles”, avalia o craque, que também é um dos colunistas mais reverenciados do jornalismo esportivo.

DA ESPERANÇA À HISTÓRICA DERROTA: RELEMBRE AS IMAGENS DO 7 A 1

Para Mário Marra, colunista da Goal e comentarista da ESPN Brasil, o excesso de sentimentalismo também teve o papel de vilão: “Pouco adiantava gritar o hino. Chorar as decepções e aspirações apenas escancarava a falta de solidez de um trabalho manco. Um trabalho que se apoiava em nada concreto. A Seleção Brasileira, que tantas aulas deu, foi destrinchada pela Alemanha. Eles, frios, sabiam tudo que tinham para fazer. Os comandados pela emoção de Felipão ainda procuram se apoiar no passado para explicar o presente”, avalia.

Após o apito final, Dante recebeu o carinho dos companheiros de Bayern (Foto: Imago)

Um dos símbolos daquele jogo foi Dante. O zagueiro, até então titular do Bayern, acabou não repetindo, após a Copa do Mundo, as atuações que o levaram a ser convocado. O próprio jogador já falou que estabeleceu um limite com seus colegas de time em relação às brincadeiras, mas Paulo Sérgio vê isso como algo natural dentro de um futebol globalizado: “Isso é inevitável. Se eu, que vou às vezes para a Alemanha, sou alvo de algumas brincadeiras... imagina com o Dante. Essa gozação é inevitável, ainda mais no mundo da bola”.

Para o jornalista Marcelo Bechler, pouca coisa mudou desde aquele 8 de julho: "O 7 a 1 me surpreendeu, mas não vi no mundo uma mudança muito grande nas análises feitas sobre nós. Continuam vendo nossos jogadores com qualidade e nossa Seleção pragmática, afastada do que a consagrou e foi referência para o futebol mundial. Também não acredito que a derrota tenha trazido, de cara, um trauma ao futebol brasileiro", crava. 


Getty Images

"A Seleção eliminada na Copa América tinha Firmino, Coutinho, Douglas Costa, Everton Ribeiro, Robinho, Tardelli, Elias, Felipe Luís, Miranda e Jefferson que não estavam na Copa do Mundo. Dos 14 utilizados na eliminação contra o Paraguai, só Fernandinho e Willian estavam em campo naquela goleada.  Acho que o grande problema é querer culpara tudo e a todos, sem ter um foco, sem entender realmente qual é o problema. E com isso fazer mudanças sem saber onde se quer chegar", completa

O futuro pós-7 a 1

E a Seleção Brasileira, quando vai dar a resposta que tanto se espera dela? A impressão que fica é que o número de questões a serem reajustadas em nosso futebol são bem maiores do que as traves do Mineirão pareceram ser para os comandados de Joachim Low. Usando palavras diferentes, os campeões mundiais apontam problemas em nossa estrutura como pontos que precisam sofrer mudanças.

Paulo Sérgio em ação na Copa do Mundo de 1994: "A culpa é de uma má gestão" (Foto: Getty Images)

“Hoje, o Brasil não comporta pagamentos de salários absurdos. E eu sempre falei que muitos clubes iriam quebrar após a Copa do Mundo: dito e feito. Os clubes de campeonatos regionais quebraram, clubes de expressão, que marcaram época no interior de vários estados, quebraram. Atualmente, a realidade dos clubes grandes é muito triste, porque esses clubes grandes não têm condições de pagarem os seus atletas. A culpa é dos atletas? Não. A culpa é de uma má gestão”, opina Paulo Sérgio.

Tostão, camisa 9 da maior seleção da história: "conhecemos mais de perto os nossos problemas" (Foto: Getty Images)

“Não há dúvida nenhuma que o Brasil perdeu prestígio depois dos 7 a 1. Mas eu acho que os europeus ainda acreditam mais no futebol brasileiro do que os próprios brasileiros. Eles continuam valorizando os jogadores brasileiros, contratando muitos deles... eles acham que o Brasil vai se recuperar, voltará a ser uma grande seleção, com um grande futebol. Nós, brasileiros, que conhecemos mais de perto os nossos problemas, os graves problemas dentro e fora de campo, que somos mais pessimistas. Não há dúvida de que hoje há um desencanto com o futebol brasileiro em todo o mundo”, finaliza Tostão, um dos craques que simboliza a identidade de ‘jogar bonito’ que durante tanto tempo esteve atrelado ao futebol brasileiro.