O ‘novo Neymar’ que não sente a pressão

O Real Madrid pagou 45 milhões de euros para levar Vinícius Júnior ao Bernabéu no último ano, mas jogar ao lado de Ronaldo não intimida a jovem estrela do NxGn

A ascensão meteórica de Vinícius Júnior não é novidade para o Brasil, o lar espiritual do futebol. Nascido e criado em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro, Vinícius, como os demais ao seu redor, sonhou um dia em se tornar o próximo astro de seu país.

Seu talento precoce ficou claro desde a mais tenra idade, e ele chegou ao Flamengo, um dos maiores clubes do país, quando tinha 10 anos. O impacto foi imediato. Alegre, talentoso e irreverente, o garoto chamou a atenção a cada passo de sua ascensão nas categorias de base.

Mas foi em 2017, ao longo de três loucos meses, que sua vida seria transformada para sempre.

A Copa São Paulo de Futebol Júnior teve um importante papel na história do futebol brasileiro. De Casemiro e Neymar, a Lucas Moura e Gabriel Jesus, alguns dos melhores jogadores na Seleção ganharam fama no mais prestigiado torneio de base da nação. Vinícius tinha 16 anos, mas arrasou adversários pelo caminho - alguns deles até três anos mais velhos.

Semanas depois, ele levou o Brasil ao título do Sul-Americano Sub-17. Foi o artilheiro e eleito o melhor jogador do torneio.

Então, para completar tudo, o Real Madrid o chamou. O Flamengo fechou negócio por 45 milhões de euros (mais de R$ 160 milhões, à época) pela jóia que sequer havia feito sua estreia profissional.

“Eu não esperava por isso. Nem eu, nem minha família, mas acreditamos que poderia acontecer em algum momento”, contou Vinícius à Goal após receber seu prêmio NxGn, que elenca os 50 melhores jogadores do planeta nascidos a partir de 1999.

“Tudo aconteceu muito rápido nesses três meses. Eu estava no banco na base, mas então tive uma excelente Copa São Paulo e Sul-Americano, então fui chamado ao time principal muito rápido.”

O tamanho da transferência pode ter surpreendido a muitos, dado que Vinícius ainda não havia jogado entre os profissionais. Mas, de certo modo, sua carreira sempre pareceu avançar rapidamente.

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Aos 13 anos, ele já era convocado à Seleção Sub-15 do Brasil, levando o time ao título com seis gols e cinco assistências em seis partidas.

Duas vezes campeão continental com apenas 16 anos, o estrelato parecia inevitável, e o Flamengo sabia que não havia porque adiar sua estreia apenas para protegê-lo.

No dia 12 de maio de 2017, ele fez sua primeira partida como profissional diante do Atlético-MG, nada menos que no histórico Maracanã, quando teve a chance de encarar Robinho, seu ídolo de infância.

“Foi um sonho que se tornou realidade, para mim e minha família”, disse. “Todos sonham com algo desse tipo, e para mim aconteceu aos 16 anos. Foi um momento muito especial”

“Quando eu comecei a jogar, lá em São Gonçalo, alguém me perguntou uma vez quem era meu ídolo, e eu respondi que era Robinho. Mas Neymar e Ronaldinho são jogadores que me inspiram muito no futebol.”

Vinícius parece ser o jogador completo: rápido e habilidoso, ele passou a adolescência voando através dos marcadores, como manda o manual brasileiro do drible. Ele sabe chutar com os dois pés, e finalizar de longe, com força. Outro grande atributo é sua visão de jogo, que já o ajudou a criar incontáveis chances de gol para os companheiros de time.

Com chegada prevista a Madrid em julho deste ano, quando completar 18 anos, as expectativas são grandes sobre o garoto. Tão grandes que ele só poderia ser comparado com um jovem Neymar, que surgiu para o mundo no final da última década. Mas, se o rótulo de ‘novo Neymar’ é injusto, não é em nada surpreendente.

“Eu não ligo para isso”, insiste Vinícius. “Mas sempre acompanhei Neymar. Tenho mais contato com ele nos últimos tempos e, quando o vejo jogar, tento aproveitar alguma coisa e melhorar meu jogo”

“Mas eu não quero ser outro Neymar. Quero fazer minha própria carreira, e espalhar alegria a todos os brasileiros.”

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Com a ida ao Real Madrid cada dia mais próxima, alguns poderiam imaginar que a pressão para que Vinícius faça valer um valor tão expressivo da negociação assuste alguém que sequer completou a maioridade. Mas, para ele, não é assim.

Ele é um adolescente alegre e tranquilo, sempre com um sorriso de orelha a orelha. Afinal de contas, ainda é um garoto que só quer se divertir jogando bola.

“Não há pressão”, ele declara. “É muito bom poder jogar futebol. Gosto de divertir com o que faço no campo, e não há uma grande responsabilidade, dentro ou fora do campo. Só quero ser feliz aqui no Flamengo, e ajudar a equipe.”

Ele não tem muito tempo para dar sua contribuição, no entanto. Apesar do grande carinho pelo Fla, Vinícius sabe que, em breve, terá de viajar a Madrid para integrar o maior clube do futebol mundial.

Ele visitou o Santiago Bernabéu pela primeira vez, no final do último ano, e recebeu calorosas boas-vindas.

“Conversei um pouco com Cristiano Ronaldo, tentei descobrir mais sobre a estrutura do Real Madrid”, revela.

“Falei com todo mundo, mas principalmente com Marcelo e Casemiro. Conversei muito com eles, e o Ronaldo é um cara muito legal. Ele me desejou boa sorte, e perguntou quando eu iria me juntar a ele lá.”

Hoje, Vinícius conta com muitos novos e famosos conhecidos - e já montou um álbum que serve para lembrar o quão grandes foram as mudanças que aconteceram em sua vida. Mas ele ainda fala com a mesma humildade que sempre teve.

“Tem algumas fotos que eu fico olhando e pensando, ‘Os caras que eu só via pela TV e no videogame estão agora me dando conselhos para que eu me torne uma pessoa melhor, dentro e fora de campo”, diz ele, visivelmente maravilhado.

“Mas esse é o resultado do meu trabalho duro, e Deus, que sempre me abençoou colocando gente muito boa ao meu lado.”

Seu jeito humilde e centrado agradaram à torcida do Flamengo, que não vê nele a arrogância que já comprometeu as tenras carreiras de muitas promessas que vieram antes de Vinícius.

Teria sido fácil que o sucesso houvesse lhe subido à cabeça. Ainda com 17 anos, ele já marcou 12 gols em 53 partidas, a maior parte deles saindo do banco de reservas.

Sua próxima missão é garantir uma vaga entre os titulares e, então, mirar feitos maiores, como ser convocado à Seleção Brasileira principal.

“Tite [técnico do Brasil] está fazendo um ótimo trabalho, e temos grandes jogadores: Neymar, Gabriel Jesus e Coutinho estão entre os melhores jogadores do mundo”, declara.

“Vamos fazer uma boa Copa do Mundo, e voltar pra casa como campeões.”

E não apenas isso. Antes que o ano termine, ele também espera representar os atuais campeões da Europa.

De fato, quando foi perguntado sobre quem ganharia a Champions League este ano, ele abre seu tradicional sorriso e diz:

“Ah, vai dar Real Madrid!”