Resenha com Henry, salário antecipado, chaveirinho e decepção com Pato: as histórias de um Tanque matador

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Goleador e ídolo no Japão, Wellington Tanque abre o jogo e conta várias histórias em entrevista exclusiva à Goal Brasil

O mundo do futebol é capaz de te fazer viver as mais diversas aventuras. Você pode conhecer um dos melhores atacantes da história do esporte. Jogar por um dos maiores clubes do Brasil. Defender equipes menores. Rodar por times médios e pequenos da Europa. Atuar com uma grande promessa do futebol tupiniquim. Vivenciar diferenças culturais impressionantes. E até mesmo ser ídolo de uma equipe que você nunca imaginou. Na verdade, você pode viver tudo isso, e em apenas uma década.

Wellington Luís de Sousa. Talvez pelo nome você não se lembre dele, mas pelo apelido de Wellington Tanque provavelmente você se recordará do atacante, de 29 anos, nascido em Ourinhos (SP).

Tanque viveu tudo isso. O matador saiu de São Paulo rumo ao Sul do País para treinar nas categorias de base do Grêmio, mas acabou sendo revelado pelo Internacional. Entre os rivais, o garoto fez um teste no Arsenal, onde conheceu "apenas" Thierry Henry e um jovem Cesc Fàbregas que já mostrava ser diferenciado. No Colorado, cresceu ao lado de Alexandre Pato, para depois se aventurar na Europa.

No Velho Continente ele defendeu Hoffenheim, Twente e Fortuna Düsseldorf, antes de voltar ao Brasil. Por aqui, entre 2011 e 2013, defendeu Figueirense, Goiás, Linense e Pelotas, quando surgiu a oportunidade ir jogar na J2, a segunda divisão japonesa, pelo Shonan Bellmare. No clube que revelou ninguém mais ninguém menos que Hidetoshi Nakata para o futebol mundial, o brasuca se tornou ídolo e foi artilheiro do time na segundona em 2014.

Wellington Tanque(Foto: GuilhermeDorigatti/Ponte Preta/Divulgação)

Idolatrado no Japão, voltou para seu país em 2015 para defender a Ponte Preta. O sucesso não foi repetido e no mesmo ano ele retornou ao Oriente para se tornar mito no Avispa Fukuoka, levando o time à J-League. O goleador, que virou até chaveiro do outro lado do mundo e celebra a organização japonesa, continua na equipe, que está novamente na J2, mas lidera a competição tendo ele como destaque e grande esperança para conquistar um novo acesso. São 11 gols em 20 rodadas, e o Tanque briga pela artilharia da segundona nipônica.

Não faltam histórias para o matador, que vive grande fase no Japão e, em entrevista exclusiva à Goal Brasil, falou sobre a sua carreira e os personagens com quem cruzou no mundo da bola. Confira o bate-papo cheio de resenha com Tanque:

Você já brilhou no Bellmare, foi artilheiro e ídolo. Hoje é mito no Avispa Fukuoka e briga pela artilharia da J2. O momento dentro de campo é ótimo. E fora dele? Como tem sido sua vida por aí?

"Está sendo boa. Eu me adaptei muito bem, estou bem tranquilo e me encaixei bem dentro e fora de campo. Minha família também se adaptou muito bem. Fukuoka, a cidade em que vivo aqui, tem muitos estrangeiros: canadenses, australianos, americanos, e os japoneses são mais abertos com isso por aqui. Em outras cidades eles são menos, mas aqui é bem tranquilo e estou muito feliz. Tem sido excepcional."

1997-Hidetoshi-NakataLendário Nakata foi revelado pelo Bellmare (Foto: J-League Photos)

E o relacionamento com os companheiros de clube, como é?

"Os japoneses da minha equipe confiam muito em mim. Às vezes, em cobranças de escanteio, eles dizem que precisam bloquear os adversários para que eu possa cabecear. A cobrança de escanteio não acaba sendo para o time, mas para mim (risos). É meio engraçado. Como estou bem fora de campo e dentro de campo confiam em mim, isso me dá confiança e motivação para jogar bem, e os gols vão saindo. Estou muito bem neste ano e feliz."

Não faltam exemplos de jogadores japoneses talentosos, tanto no passado recente quanto no presente. No entanto, o Japão tem tido dificuldades nos últimos anos e não foi bem como se esperava na Copa de 2014. Na sua posição, inclusive, existem poucos japoneses, como o Okazaki, por exemplo, que são goleadores. O que você acha que está faltando para os Samurais Blues?

"Quando o japonês colocar na cabeça que ele é bom e tem condições de brigar de igual para igual com qualquer um, ele vai começar a se destacar. Falta confiança para eles decidirem, e por isso acaba que os estrangeiros marcam muitos gols e aparecem nos momentos de pressão. Ainda falta essa personalidade e confiança para a maioria dos japoneses."

"Existem alguns grandes atacantes por aqui, como o (Yoshito) Okubo (ex-atacante da seleção japonesa, que já jogou por Mallorca e Wolfsburg na Europa, inclusive conquistando a Bundesliga com os Lobos), que agora está no F.C. Tokyo. Ele é um atacante muito bom. No entanto, falta essa personalidade para a maior parte dos japoneses. Na hora de definir, eles acabam tocando a bola para os estrangeiros, e isso acaba sendo bom para a gente, que aparece mais. Os japoneses têm muita qualidade, são muito bons, mas falta essa mentalidade."

2017-03-18-okubo2-fctokyoO experiente Okubo (Foto: Getty Images)

É muito nítida a enorme organização do futebol japonês. O que o Brasil pode aprender com os japoneses?

"Eu acho que tudo. É engraçado porque recentemente aconteceu algo comigo. Aqui, os clubes pagam todo dia 25. Ia cair o salário, se não me engano, em uma quarta-feira, que era feriado. Normalmente nós temos banco no Brasil, então os clubes pagam dois dias antes para poder cair na nossa conta na data certa. Como ia ser feriado, eles perguntaram se teria algum problema a gente receber dia 21 (risos)."

"Infelizmente isso é diferente demais do Brasil. Aí, infelizmente não é todo mundo que recebe o salário na data certa, os salários atrasam e existem vários problemas. Aqui chega ao ponto de perguntarem se existe algum problema nós recebermos o salário alguns dias antes. Teve uma vez que um amigo meu aqui no Japão recebeu o salário um dia depois do normal, porque depositaram um dia depois. O presidente do clube e o pessoal da parte financeira foi até o centro de treinamento, entrou no campo e pediu desculpas para o meu amigo na frente de todo mundo. Eles são muito corretos nessa parte salarial, é impressionante."

"A mídia aqui também é impressionante. Existe tudo que é produto dos jogadores mais famosos e ídolos dos clubes: boné, chaveiro e por aí vai. A organização, o calendário, o marketing... É tudo muito bem feito e os clubes arrecadam muito com isso. Eu mesmo tenho algumas almofadas, chaveiros e até caneta com a minha imagem (risos). A mobilização nos estádios é impressionante também, o jogo vira um evento. No Brasil, infelizmente não tem isso. Os horários também não ajudam. Ter jogo 22h é ruim para o jogador e para o torcedor. O Brasil tem muito a aprender, o Japão é muito mais organizado."

2017-05-25-iwata-ShunsukeNakamuraO histórico craque Shunsuke Nakamura é uma das estrelas da J-League (Foto: ©Getty Images for DAZN)

Antes de virar ídolo no Japão e rodar por alguns clubes no Brasil, você jogou na Alemanha. Você foi para o Hoffenheim, em 2008, com 20 anos de idade. As coisas não deram muito certo por lá para você, mas como é ver o clube hoje, tendo sucesso, fazendo uma boa campanha na Bundesliga e se classificando para a Champions League na próxima temporada?

"Eu acompanho o clube até hoje, minha esposa inclusive segue o clube no Instagram. Eu fui muito jovem pra lá, então muitas coisas que eu faço hoje, eu penso que poderia ter feito na Alemanha lá atrás. Eu saí muito jovem do Brasil e estava bem, então quando cheguei na Alemanha, achava que eu tinha que ser titular. Hoje eu vejo que não era assim que deveria ter sido, eu era muito jovem e infelizmente não fui bem lá."

"Eu tive que rodar por alguns lugares para ver que estava errado e deveria ser um jogador de grupo, não pensar só em mim. Eu guardo muito isso. Até mesmo no estilo de jogo, que me ajudou a me adaptar muito bem ao Japão, eu aprendi. O europeu e o asiático não gostam muito de firulas, gostam de um jogador mais objetivo, que é decisivo. Eu aprendi com o tempo a ser assim também e evoluí."

O bom momento do Hoffenheim te surpreende?

"Não me surpreende, porque desde 2008, a filosofia de trabalho e o modo de pensar da diretoria sempre foi ter jogadores jovens, e agora, com um técnico jovem (Julian Nagelsmann, de apenas 29 anos, chamado de Baby Mourinho), encaixou perfeitamente. O clube tem uma excelente estrutura, das melhores da Alemanha. Eu tinha certeza que mais cedo ou mais tarde eles iriam fazer sucesso como estão fazendo."

Julian NagelsmannBaby Mourinho faz ótimo trabalho no Hoffenheim (Foto: Getty Images)

"Os alemães não têm pressa. Eles vão trabalhando com calma para alcançar o objetivo e o sucesso. São trabalhos de longo prazo e que dão resultado, como ocorreu na Copa do Mundo. Pelo que eu já tinha vivido e visto, não me surpreende. Eles vão trabalhando e corrigindo os erros. Infelizmente isso não acontece no Brasil. A Seleção mudou com o Tite, mas toda a estrutura do futebol brasileiro precisa mudar."

Como surgiu o apelido 'Tanque'?

"Quando cheguei no Inter viram meu tamanho e fizeram um trabalho de força comigo. Ganhei muitos quilos, muita massa muscular, acabei centralizado e joguei sempre como centroavante. Uma vez um ex-companheiro, na base do Internacional, um zagueiro (Cauê) muito forte, que ganhava todas divididas, trombou comigo e eu ganhei. Aí os colegas perguntaram para ele o que houve e ele disse: 'não tem o que fazer, o cara é um tanque.' Aí pegou (risos)."

Antes do Internacional, quando você estava na base do Grêmio, surgiu um convite para fazer testes no Arsenal. Como foi essa experiência?

"Eu estava na base do Grêmio, mas meus direitos econômicos pertenciam ao Matsubara. O filho do dono do clube, o Norio, ligou e disse que precisava levar dois jogadores que estavam se destacando para fazer testes na Europa. Ele me indicou, mas eu estava muito bem na base do Grêmio e não queria sair, mas aí disseram que ou eu iria fazer o teste ou voltaria para o Matsubara. Eu resolvi ir (risos)."

"Fui fazer os testes no Arsenal, mas infelizmente não deu certo. A gente treinava com o profissional B que na época tinha o Fàbregas. Eu cheguei no inverno rigoroso, muito frio, que eu nunca tinha passado. Aquilo me atrapalhou muito. Mas também foi bacana porque tive uma experiência no futebol europeu muito jovem."

Nessa época já dava pra ver algo de diferente no Fàbregas? Dava pra imaginar que ele seria um grande jogador?

"Já dava para ver que ele era diferente. Ele era calado, não brincava muito, estava sempre no telefone (risos), mas dentro de campo era diferenciado e mostrava uma qualidade técnica absurda."

Thierry Henry Arsenal Invincibles(Foto: Getty Images)

Você também se encontrou com o Henry, não é?

"É verdade e engraçado. Eu não tenho as mesmas características, mas sempre me inspirei muito nele. Apesar de ter 1,86m, eu tenho uma boa velocidade, então me inspirava muito nele. Me inspiro até hoje. Ele me ajudou a ser ousado, não ter medo de dar um drible e ter confiança. Poxa, imagina só. Eu tinha 15 anos e fui conhecer um dos meus grandes ídolos. Eu tirei foto, tenho ela até hoje, até fiz um quadro com ela pra colocar em casa (risos). Fiquei muito feliz de ter conhecido ele. Tenho uma admiração enorme pelo Henry. Conversei um pouco com ele e me pareceu uma pessoa muito bacana, e dentro de campo sem comentários."

Você atua na segunda divisão do Japão, e o Inter, clube que te revelou, está na Série B do Campeonato Brasileiro. O que você acha que causou essa queda?

"A gerência ruim nos últimos anos. Era notável que mais cedo ou mais tarde isso iria acontecer. Fico triste porque graças ao Inter cheguei onde cheguei. É ruim ver o time nessa situação. Estou na torcida para que o time volte à primeira divisão e continue sendo o que sempre foi: grande e revelador de grandes jogadores."

"Eu acho que as várias trocas de treinador foram uma causa da queda. No Brasil, o pessoal acha que trocar o treinador resolve o problema. É preciso dar mais tranquilidade e deixar o treinador trabalhar. A troca de treinador é ruim e leva um tempo para que as coisas se encaixem. Acaba que às vezes os times têm quatro, cinco treinadores no ano, e isso não funciona. Isso atrapalhou muito o Inter."

Torcida Internacional Fluminense Brasileirão 11122016(Foto: Getty Images)

No Inter você jogou com o Alexandre Pato. Naquela época, no início da carreira, ele surgiu de forma espetacular e como grande promessa, mas nunca foi tudo o que se esperava dele. Fica uma decepção particular da sua parte, que viu ele crescer? O que você acha que causou isso?

"Com certeza (fico decepcionado). Comento com muitos amigos, alguns que fizeram a base conosco, que eu via o Pato como um segundo Ronaldo Fenômeno. O que ele fazia nas categorias de base era impressionante. A forma como ele subiu para o profissional, a qualidade e a frieza na frente do gol... Ele me impressionava muito. Eu via o Pato no Barcelona, no Real Madrid e disputando a Bola de Ouro com os melhores jogadores do mundo."

"Tem sim uma grande decepção, porque acho que ele poderia ser muito mais do que é. O Pato que eu vejo hoje não é o mesmo que eu conheci. No Milan, não sei se foi pelas lesões ou por já estar em uma equipe grande, ele caiu muito. Não sei se foi pela acomodação ou pelas lesões, mas ele caiu muito. Ele tinha tudo para ser um grande jogador e estar no mesmo nível de Neymar e Cristiano Ronaldo."

Alexandre Pato Internacional(Foto: Getty Images)

"Eu posso falar porque vi ele desde o começo. O Pato que eu vejo hoje não tem 1% do Pato que eu vi no começo. Eu fico triste, porque é um ex-companheiro de equipe e torcia muito por ele, mas ele optou por um outro caminho, que foi o futebol chinês."

Qual a sua melhor lembrança do Pato?

"A melhor eu não vi, mas me contaram. No primeiro coletivo dele no profissional, o Abel (Braga, treinador) fechou os portões, e no coletivo, o Pato dominou uma bola, deu um chapéu no Índio, dominou no peito e meteu a bola na gaveta. O Abel até brincou: 'poxa, imagina se eu deixo um portão aberto? Como eu ia segurar esse menino' (risos). O pessoal até pressionou ele pra renovar o contrato logo."

"Todo mundo se impressionava com a maneira e a postura dele dentro de campo, a personalidade e a qualidade. Era impressionante. Em alguns jogos na base e no time B, os adversários ameaçavam quebrar a perna dele. Ele nem respondia. Só pegava a bola, partia pra cima, dava caneta, chapéu, pedalava, fazia gol e encarava o cara que ameaçou ele. Era incrível."

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