Como Guardiola transformou o Barcelona e Messi nos melhores de nossa história

COMENTÁRIO: Nesta quarta, Pep retorna ao clube onde brilhou como jogador e técnico

“Apertem os seus cintos”, disse Pep Guardiola em sua coletiva de apresentação como técnico do Barcelona. “Porque nós vamos fazer um passeio”. Ele não estava errado. O que aconteceu superou a imaginação de todos, já que a história foi escrita de maneira espetacular: e o futebol foi revolucionado em fantásticos quatro anos.

No início, muitos foram os que rotularam o catalão como inexperiente, mas o ex-capitão do clube deixou suas intenções claras desde o início. Em sua apresentação, após apenas uma temporada no Barça B, ele anunciou que Ronaldinho, Deco e Samuel Eto’o não estavam em seus planos. Uma baita afirmação para um técnico novato, mas Pep passou meses estudando meticulosamente o elenco do Barça para torna-lo excelente mais uma vez.

Ronaldinho já havia passado de seu auge, e após inicialmente ter ajudado Lionel Messi a se ambientar passou a ser visto como má influência para o argentino. O mesmo pode ser dito de Deco. Guardiola tinha medo de que Messi perdesse seu potencial por culpa dos brasileiros, enquanto Eto’o era visto como uma bomba-relógio pelo novo comandante do Camp Nou. Mas após as saídas de Deco e Ronaldinho, Guardiola viu mudança em Eto’o e decidiu manter o camaronês... ao menos por um tempo.

Naquele verão, Pep subiu Sergio Busquets da base e assinou jogadores-chave: Gerard Piqué voltou à Catalunha após defender o Manchester United e Dani Alves chegou do Sevilla, ao lado do volante Seydou Keita. Martin Cáceres, Hleb e Henrique também chegaram e teriam menos sucesso. Mas a base estava montada.

(Foto: Getty Images)

Uma chocante derrota por 1 a 0 para o Numancia aumentou a dúvida em cima de Guardiola, mas no empate em 1 a 1 contra o Racing Santander o time já estava muito melhor. Já sob pressão por apenas ter somado um ponto entre seis disputados, os meninos de Pep golearam o Sporting Gijón por 6 a 1 fora de casa, na terceira rodada do Campeonato Espanhol.

“Quando o Barça assinou com Pep, eu disse: ‘Madre Mia, nós vamos voar’, afirmou Xavi anos depois. E eles voaram. Depois do Sporting Gijón, o Barcelona não desceu mais: conquistou a Copa do Rei, o Campeonato Espanhol com nove pontos de vantagem sobre o Real Madrid e mais uma Champions League. Camp Nou virou terra para a tríplice coroa.

Messi elevou o seu jogo a um novo nível: 38 gols em 2008-09, comparados aos 16 da temporada anterior. “Tivemos uma época muito boa quando Pep estava aqui”, disse o camisa 10 na terça-feira, durante entrevista coletiva. “Foi quando eu mais cresci como jogador de futebol”, completou.

A filosofia do clube o abraçou desde a sua chegada, aos 13 anos de idade. Mas Pep soube lapidar aquela joia de maneira única, como aprendeu com técnicos com os quais havia trabalhado (Johan Cruyff, Bobby Robson, Louis van Gaal e Juanma Lillo) e com os que tinha passado um tempo debatendo sobre o esporte (Marcelo Bielsa, Ricardo La Volpe e César Luis Menotti).

(Foto: Getty Images)

Após somar novos troféus a coleção, Pep já não contava mais com Eto’o e trouxe Ibrahimovic. No entanto, o sueco não se deu nada bem com o clube nem com o treinador. A solução de Guardiola foi colocar Messi como ‘falso 9’. E o tempo provou: aquela foi a decisão correta. O argentino marcou 47, 53 e depois 73 gols nas futuras três campanhas.

Tendo conquistado o Campeonato Espanhol pela segunda vez consecutiva, o Barcelona começou a temporada 2010-11 com um novo atacante: David Villa. Mas o ex-goleador do Valencia seria deslocado para os lados, para Messi continuar no centro. Durante um ano, funcionou perfeitamente. Vieram outra La Liga, assim como a Champions League. Mas talvez o ponto alto tenha sido os 5 a 0 sobre o Real Madrid de Mourinho, no Camp Nou: “Que, futebol. Que domínio!”, lembrou Xavi nesta semana. “Tínhamos sempre a bola: quando perdíamos, recuperávamos instantaneamente. Foi o lado mais sublime do futebol”.

Embora aquele sublime Barça tenha perdido a tríplice coroa ao ser derrotado pelo Real Madrid na final da Copa do Rei, eles se vingaram dos arquirrivais na semifinal da Champions League, antes de conquistaram a taça com vitória sobre o Manchester United, em Wembley. A quarta temporada de Guardiola seria a sua última e, embora tenha perdido o Campeonato Espanhol para o Madrid e para o Chelsea na semifinal da Champions, o clube conquistou outros quatro troféus: Supercopa da Espanha, Supercopa Europeia, Mundial de Clubes e Copa do Rei.

Um total de 14 taças, dentre 19 disputadas em quatro anos de sucesso absoluto. Mas o treinador catalão havia atingido o seu limite. Visivelmente cansado após quatro temporadas exaustivas e frustrado com a falta de apoio da diretoria encabeçada por Sandro Rosell, Guardiola decidiu tirar um ano sabático em Nova York.
“Saio satisfeito”, disse após a conquista da Copa do Rei, seu último troféu no Barça. “Estou feliz de ter sido parte deste processo e desta filosofia, que eu apenas continuei”. Uma fala que mostra toda a modéstia de um homem que tornou o Barcelona no maior time de nossa época. Desde então, todos sentem sua falta no Camp Nou.