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O ex-jogador Pepe relembra momentos do torneio e bastidores da conquista

Por Vanessa Rodrigues
São Paulo

O dia 29 de junho de 1958 é especial para os torcedores brasileiros. Nesta data, diante da Suécia, que jogava em casa, a Seleção Brasileira de Garrincha e do ainda garoto Pelé conquistou em Estocolmo sua primeira Copa do Mundo.

Dentre os convocados do técnico Vicente Feola para o torneio estava também o atacante José Macia, mais conhecido como Pepe. Na época com 23 anos, o jogador habilidoso seria o titular da equipe, porém devido a uma contusão Zagallo assumiu seu lugar. Mesmo assim Pepe participou com a delegação do primeiro título mundial vencido por nossa Seleção Brasileira e contou com exclusividade para o Goal sobre os bastidores da conquista.

Antes da Copa do Mundo, a Seleção Brasileira teve uma preparação como nunca havia acontecido antes. O presidente da Confederação Brasileira de Desportos, João Havelange, chamou o empresário e fundador da rádio Record, Paulo Machado de Carvalho, para chefiar o planejamento da equipe fora de campo. Foram feitos vários amistosos antes da competição.

“Foi a primeira vez que o Brasil levou uma seleção a sério. Os preparativos foram bons, passamos por cidades que transmitiam muita saúde e tranquilidade. Devemos muito ao Paulo Machado de Carvalho que fez todos os preparativos”, conta Pepe.

Esta foi a primeira Copa do Mundo sem a presença de seu idealizador, o francês Jules Rimet, que havia falecido em 1956. Rimet deixou a entidade em 1954 e em seu lugar assumiu o belga Rodolphe Seeldrayers. Como novidade a Argentina estava de volta à disputa, após ter ficado fora dos torneios de 1938, 1950 e 1954.

Sob o comando do treinador Vicente Feola, que assumiu o cargo em fevereiro daquele ano, os jogadores brasileiros que atuavam no país foram priorizados, assumindo o lugar daqueles que estavam no exterior. Havia um sentimento de patriotismo e também o receio de que os clubes estrangeiros dificultassem a liberação dos atletas. Com isso, os jovens Garrincha e Pelé tiveram a oportunidade de servir à Seleção.

“O Pelé estava começando naquela época. Conhecíamos bem o Pelé, mas os europeus ainda não, ele surpreendeu a todos. Tinha 17 anos, mas já tinha jogado com grandes equipes e não tremia. Entrou como uma luva, jogou muito bem e não sentiu nada de nervosismo”, lembra o ex-jogador.

Aquele que se tornaria o Rei do futebol por pouco não ficou fora da competição. Em um amistoso realizado antes da viagem para a Copa, Pelé foi atingido por um zagueiro adversário. Os médicos então não davam como certa sua recuperação à tempo, mesmo assim o técnico Feola insistiu em contar com o jogador e confirmou seu nome na convocação.

Após o desastre de 1950, quando o Brasil foi derrotado na decisão do mundial pelo Uruguai, no Maracanã, a responsabilidade de decidir novamente uma final era enorme. Em Estocolmo, no estádio Rasunda, aconteceria a tão esperada decisão da Copa do Mundo de 1958. Mesmo jogando no campo adversário, os brasileiros estavam confiantes e calmos antes da partida.

“Os dias anteriores ao jogo foram de estrema tranquilidade. Apesar de ser uma decisão nosso time sabia que era melhor e que tinha muita chance de ganhar. Os próprios jogadores sabiam que eram melhores, mesmo jogando no campo adversário. A Suécia também sabia e perdeu de forma limpa, sem dar nenhuma botinada”

Brasil 5 x 2 Suécia

Foi um momento marcante para a história do futebol brasileiro e mundial. Jogando em Estocolmo, no estádio Rasunda, a Seleção Brasileira venceu a decisão da Copa do Mundo de 1958, contra a Suécia, por 5 a 2. Os gols brasileiros foram marcados por Vavá (2), Pelé (2) e Zagallo.

Logo no começo da partida, os anfitriões abriram o placar, com Liedholm, craque que jogava na Itália. O gol poderia abalar a equipe brasileira, mas aconteceu o contrário. Um gesto do jogador Didi fez com que a situação servisse como um grande incentivo.

“A Suécia saiu ganhando e Didi era o jogador mais experiente. Ele pegou a bola de dentro do gol e levou até o meio de campo conversando com os jogadores, dizendo que tínhamos condição de virar o jogo. Isso deu tranquilidade aos jogadores mais novos”, relembra Pepe.

O susto não abalou o Brasil, que chegava ao ataque com perigo. A reação brasileira aconteceu logo, passados quatro minutos, Vavá empatou. A pressão dos visitantes então continuou e no final da primeira etapa Vavá apareceu novamente, desta vez para virar o resultado. O lance começou com Garrincha, que passou pelo seu marcador e fez a assistência.

No segundo tempo, a Seleção Brasileira confirmou sua superioridade aumentando o resultado da partida. O craque Edson Arantes do Nascimento, mais conhecido como Pelé, mostrou porque o treinador havia insistido tanto por sua convocação.

O garoto mostrou toda sua habilidade, passou por vários adversários e marcou o terceiro gol do Brasil. A partida já estava dominada, quando Zagallo fez o quarto. Já o quinto saiu novamente de Pelé, que desta vez cabeceou para o fundo das redes, pouco antes do final da partida. Os adversários ainda diminuíram a goleada, com Simonsson, mas o campeão já havia sido definido e com autoridade.

“Eu não pude jogar porque estava lesionado, mas lembro que assim que terminou o jogo entramos no campo, todos os jogadores, e demos a volta olímpica. O Bellini recebeu a taça e depois o rei da Suécia nos cumprimentou um a um. Nos sentimos ali os donos do mundo”, conta.

“Um momento que me marcou muito foi a volta olímpica. Como é bom dar uma volta olímpica sendo campeão, foi uma grande satisfação. O Brasil perdeu em 50 e tínhamos a missão de ganhar dos donos da casa, então foi maravilhoso”, completa.

A volta dos campeões ao Brasil

Os campeões não imaginavam a empolgação vivida pelo país devido ao título da Copa do Mundo de 1958, em Estocolmo. Antes mesmo de chegarem ao Brasil, puderam sentir o reconhecimento desta conquista, na parada do avião em Portugal.

“Foi incrível a chegada ao Brasil. Não sabíamos como todos estavam acompanhando com tanto orgulho. Saímos de Estocolmo, descemos em Portugal e lá já tivemos uma recepção muito boa”, conta o ex-jogador, Pepe.

Chegando ao Brasil, os craques passariam por diversos estados. Do aeroporto de Congonhas até o Pacaembu, a delegação demorou cerca de 7 horas. Uma série de homenagens estavam agendadas, mas antes disso o povo queria saudar os campeões, fazendo com que o caminhão dos jogadores parasse várias vezes pelo caminho.

“Depois (de Portugal) no Brasil passamos por várias cidades, em Recife invadiram o aeroporto, depois no Rio de Janeiro e em São Paulo, foi uma recepção digna de campeões do mundo, teve muita festa”, relembra.

Um legado eterno: o respeito

A conquista de 1958 foi o ponta pé inicial para nossa Seleção Brasileira ser reconhecida mundialmente. Foi um título marcante que mudou a história do futebol brasileiro e de seus profissionais. Naquela época, os jogadores não tinham o prestígio nem as condições adequadas de exercer a profissão como é hoje. Por isso a conquista é apontada com o marco de um recomeço.

“Nosso futebol passou a ser considerado o melhor do mundo, os torcedores ficaram muito empolgados. O legado desta conquista é o respeito. O Brasil se tornou muito mais respeitado após este título. Eu tinha 23 anos na época. A partir deste momento os jogadores passaram a ser muito mais valorizados, este título mudou a vida de todos nós jogadores, passamos a ser tratados com dignidade”, conta José Macia, mais conhecido como Pepe.

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