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A preparação nigeriana para a Copa das Confederações foi prejudicada por uma disputa sobre bonificações e os desentendimentos entre jogadores e federação continuam

ANÁLISE
Por Ed Dove 

Mais uma vez as questão financeiras colocaram para fora suas garrinhas feias no futebol africano e ameaça destruir as preparações nigerianas para a Copa das Confederações. Ainda que a situação tenha sido contornada, o fiasco da ameaça deixou uma mancha no futebol do continente e trouxe os fracassos da federação da Nigéria para o centro das atenções.

Na quinta-feira, muitos rumores emergiram dando conta de que a seleção nigeriana iria boicotar a Copa das Confederações devido a um desacordo sobre as bonificações devidas aos jogadores. A discórdia ganhou uma expressão muito clara quando a seleção se recusou a embarcar no avião que já estava esperando por eles, o voo SA075 da Namíbia para Johannesburgo, de onde eles, então, seguiriam para o Brasil.

O fato de que os Super Eagles fizeram sua postura ganhar contornos tão dramáticos certamente ajudou a dar publicidade ao seu objetivo, mas também ressaltou a natureza bagunçada da situação como um todo.

As seleções africanas não são estranhas às disputas por questões financeiras; o time togolês quase desistiu da sua primeira participação em uma Copa do Mundo por conta de uma disputa sobre os bônus, enquanto Camarões e Gana são apenas duas de outras muitas nações que passaram por arranca-rabos públicos por causa de dinheiro.

Os próprios Super Eagles já estiveram nesta situação antes. A confusão de quinta-feira trouxe de volta à memória lembranças vibrantes de uma outra batalha por dinheiro. Em 2007, os jogadores adotaram a mesma postura, se recusando a viajar até Uganda antes de uma partida classificatória para a Copa Africana de Nações.

O técnico da Nigéria, Stephen Keshi

O atoleiro financeiro da Federação Nigeriana (NFF) se aprofundou ainda mais desde a infame disputa pública anterior.

Na Copa Africana de Nações 2013, os jogadores estiveram acompanhados de uma comitiva generosa, que incluía um coordenador, um secretário, um psicólogo e uma analista de vídeo. Sem poder sustentar os salários e os custos de viagem que acompanhavam este pessoal de bastidores, cortes foram feitos depois do triunfo na CAN, e seis membros da delegação perderam seus empregos.

As bonificações também sofreram cortes, e os dois atos de austeridade deixaram uma ferida aberta entre os jogadores e as figuras administrativas restantes. Este foi um dos fatores-chave na negatividade que cercou os Super Eagles desde a gloriosa vitória na África do Sul.

Enquanto o fato de que os bônus foram reduzidos - de $10 mil (R$20 mil) para $2.500 (R$5 mil) - não desceu nada bem, um problema ainda mais profundo se encontrou na forma como a NFF comunicou e executou suas decisões. Jogadores mais experientes ficaram claramente descontentes, com razão, diante da escolha tomada sem que eles tenham sido consultados.

A postura publicamente contrariada dos atletas não foi algo precipitado, que aconteceu no calor do momento, mas sim uma coisa que já vinha sendo planejada, com o time preferindo se concentrar nas eliminatórias para a Copa do Mundo antes se rebelar às vésperas da Copa das Confederações.

Eventualmente, o ministro dos esportes, Alhaji Bolaji Abdullahi, interveio e chegou a um acordo com os protagonistas envolvidos. Por consequência, os jogadores reconsideraram a greve e concordaram em embarcar para o Brasil, onde irão enfrentar o Taiti na segunda-feira.

Ao mesmo tempo em que a notícia foi um alívio para a FIFA, a CAF e os torcedores nigerianos, foi também apenas uma reconciliação temporária, e os fãs dos Super Eagles devem se manter receosos.

Muitos esperavam que as táticas revolucionárias de Stephen Keshi pudessem mudar as coisas para melhor - estes últimos capítulos apontam o contrário.

O fato de que a NFF tem dificuldades de conseguir receitas é um problema muito claro; o jornal nigeriano 'Vanguard' sugeriu, na quinta-feira, que a federação está verdadeiramente falida. Os jogadores precisam se tornar mais cientes da realidade fiscal da sua federação - particularmente depois das revelações de que a NFF cogitou retirar seus representantes do Campeonato de Nações Africanas (a competição continental para os jogadores que atuam em casa) devido a falta de fundos.

A imagem pública da federação claramente precisa melhorar, já que a falta de transparência e fortes suspeitas de corrupção mancharam a relação da NFF com os torcedores e patrocinadores em potencial. O desligamento permanente levou a uma instabilidade crônica dentro da equipe e a uma falta de receitas para o time nacional. Muitos esperavam que as táticas revolucionárias de Stephen Keshi pudessem mudar as coisas para melhor - estes últimos capítulos apontam o contrário.

Os Super Eagles estão mancando, em vez de marchando, rumo à Copa do Mundo no seu grupo das eliminatórias, mas este foco irá, sem dúvida, ser colocado em segundo plano durante as preparações para a Copa das Confederações. A perda do meio-campista Ogenyi Onazi acabou passando despercebida em meio à comoção da semana.

Em que condições a Nigéria chegará ao Brasil para a disputa do torneio, só saberemos quando a bola rolar.

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