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O atacante colombiano é seguidamente apontado como um dos goleadores mais letais do mundo do futebol, mas parece decidido a dar um passo para trás apenas pela questão financeira

COMENTÁRIO
Por Mark Doyle

Radamel Falcao é indiscutivelmente o terceiro melhor atacante em atividade no futebol mundial, é desejado pelos grandes clubes da Europa e pronto para entrar na melhor fase de sua carreira. E escolheu se transferir para os campeões da Ligue 2, a segunda divisão do futebol francês. Como é que algum fã de futebol não ficaria confuso indignado com esta última afirmação?

Claro, o ex-Atlético de Madrid não deve nada a qualquer um de nós. Ele chegou onde chegou por conta própria, através de uma combinação de excepcional talento e dedicação. Ele merece seu sucesso. Merece a fortuna que amealhou (tanto quanto qualquer outro futebolista de ponta 'merece' as riquezas proporcionadas pelo futebol moderno).

Como o surpreendentemente honesto Benoit Assou-Ekotto (lateral do Tottenham) disse certa vez, as lesões podem abreviar a carreira de qualquer um, a qualquer momento, então um profissional minimamente racional deve tentar ganhar o máximo de dinheiro enquanto pode.
OS NÚMEROS DE FALCAO NA EUROPA

 PORTO
PARTIDAS
GOLS
MÉDIA DE GOLS POR PARTIDA
87
72
0.82
 ATLÉTICO DE MADRID
PARTIDAS
GOLS
MÉDIA DE GOLS POR PARTIDA
87
69
0.79

No entanto, Falcao já vinha sendo muito bem recompensado por sua habilidade de colocar a bola nas redes com frequência, tendo ele passado por duas transferências milionárias durante seus oito anos de carreira, indo da Argentina à Espanha com um passagem por Portugal no meio do caminho.

Era certo que sua próxima transferência seria ainda mais lucrativa. O Chelsea chegou a acenar com a possibilidade de bancar os 60 milhões de euros (R$ 166 mi) previstos em sua cláusula de rescisão para levá-lo a Stamford Bridge, além de um gordo salário capaz de satisfazer qualquer um.

A despeito de como o futebol vê os Blues, e os meios pelos quais eles cresceram no cenário nacional até chegar aos inéditos títulos continentais, talvez a ida para o clube londrino, tivesse ela acontecido, o teria ajudado a alcançar o sonho de vencer a Champions League. No fim das contas, nem teria sido pelo dinheiro.

No entanto, como podemos imaginar que Falcao não está motivado pelo ganho financeiro com as notícias que chegaram nesta sexta-feira? Terá ele a audácia de afirmar que foi motivado por outra coisa que não a isenção fiscal sobre seu salário de quase 14 milhões de euros por temporada que vai receber em Monte Carlo. Certamente, ele não insultará a inteligência de nenhum de nós, sugerindo que ele outra coisa que não avareza está guiando suas escolhas pessoais? Certamente, ele não falará nada sobre 'novos desafios' ou 'projeto empolgante' tal qual Samuel Eto'o declarou ao trocar a Inter pelo Anzhi Makhachkala, há dois anos. Ou será que não?

Eto'o, em contrapartida, pôde argumentar que já havia ganho tudo o que havia para ganhar a nível de clube. O camaronês chegou na Rússia como tricampeão da Champions League, enquanto Falcao ostenta o modesto título de 'Rei da Liga Europa'.

Indo para o Monaco, o apelido pode acabar se tornando uma boa para Falcao, já que suas perspectivas não melhoram muito a partir de agora. Mesmo se o clube do Sul vença a batalha que trava com a Federação Francesa de Futebol (FFF)*, permitindo aos Rouge-et-blanc a contratação de mais estrelas em busca de salários polpudos, é difícil imaginar que o Monaco não precise de ao menos mais um ano para chegar à Champions League.

A VISÃO DA ESPANHA
Falcao assinou com o super-empresário português Jorge Mendes em 2011, e isso levou muitos a acreditar que ele seguiria em breve para Madrid. E ele o fez, não para o Real, mas para o Atlético. Há um pacto de não-agressão entre os rivais, um acordo de cavalheiros que impede que seus jogadores assinem pelo adversário. Isso impediu que Sergio Aguero atravessasse a cidade, e que provavelmente também impediu que Falcao fosse para o lado blanco da capital. Ao menos por ora.

Mendes, cuja empresa (Gestifute) teria bancado metade dos 40 milhões de euros pagos pelo Atlético ao Porto em 2011, possui uma relação harmoniosa com o Real, já que José Mourinho, Cristiano Ronaldo, Pepe, Ricardo Carvalho (também transferido para o Monaco) e Angel Di María são todos seus clientes. Diz-se na Espanha que o mesmo Mendes inseriu uma cláusula no contrato de Falcao com o Monaco que facilitaria sua ida para o Real no futuro.

Enquanto adolescente, o atacante colombiano revelou o sonho de jogar pelo Real, desejo reiterado por seu pai no ano passado. No meio tempo, ele vai receber 14 milhões de euros por ano, livres de taxas, na Riviera Francesa. No entanto, esta será a quarta temporada seguida em que ele deixará de disputar a Champions League.

- Ben Hayward | Especialista em futebol espanhol
Mesmo assim, tal como vimos acontecer com o Paris Saint-Germain, é bem provável que o clube de Dmitry Rybolovlev precise de alguns anos para se estabelecer entre os maiores da Europa. A essa altura, Falcao terá quase 30 anos de idade, e aquele que deveria ser o melhor período de sua carreira estará no passado, desperdiçado ao forçar sua saída de um grande clube, e para longe de uma grande liga de fato.

Em termos esportivos, seria uma tragédia. Estamos falando do jogador que praticamente sozinho destruiu o Chelsea na Supercopa da última temporada, com um hat-trick de altíssimo nível. Quatro meses depois, ele deixou todos os presentes no Camp Nou de boca aberta, com um gol tão belo que foi aplaudido de pé pela torcida adversária.

Foi uma reação completamente compreensível por parte dos torcedores do Barcelona. Era óbvio para qualquer um com o mínimo de interesse por futebol que havia ali um grande talento. Que merece estar no mais alto nível de competitividade. Que merece disputar todas as edições da Champions League, e que parecia pronto para transformar o Atlético em uma força do futebol europeu.

Falcao foi abençoado com um dom precioso, e seria uma pena se ele não percebesse o potencial que carrega consigo.

Como diz um certo ditado, a coisa mais triste na vida é um talento desperdiçado. Falcao e sua legião de empresários e investidores fizeram uma escolha. A errada. E isso vai definir como nós lembraremos dele para sempre.

*O órgão do futebol francês exige o pagamento da fortuna de 200 milhões de euros (mais de R$ 500 mi) para permitir a presença do Monaco na Ligue 1. Os benefícios fiscais do Principado, ao contrário da França, facilitariam a contratação de jogadores com alto salários e são um dos principais motivos da disputa.

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