thumbnail Olá,

Nenhum treinador na história foi mais bem sucedido do que Sir Alex - o que, a história sugere, fará viver com o seu legado muito mais difícil para David Moyes

COMENTÁRIO
Por Graham Lister

Quase sempre no futebol, técnicos são mandados embora dos seus cargos, demitidos por diretorias impacientes e frustradas com a falta de efeito imediato. Nestas circunstâncias, o parâmetro é relativamente baixo para quem chega para substituí-lo: simplesmente faça melhor que o seu antecessor fracassado. Mas quando o técnico que sai foi bem sucedido, a tarefa pra quem quer que seja que entre em seu lugar se torna bem mais complicada.

E quando o técnico saindo foi tão ridiculamente bem sucedido quanto Sir Alex Ferguson? O homem não só conquistou 38 taças em 26 anos de serviços prestados, mas transformou um clube regional em uma potência global - uma instituição de futebol poderosa internacionalmente, com um gigantesco apelo que só cresce, capaz de gerar uma receita sem precedentes e criar enormes expectativas nos seus fiéis torcedores. Neste caso, o desafio que seu sucessor terá pela frente se torna quase desencorajador.

De forma quase abominável, ainda que, no futebol inglês, ninguém nunca tenha tido que preencher os sapatos de um campeão serial como Sir Alex, a história mostra que técnicos de alto nível podem lançar sombras sobre quem os sucedem capazes de minar confiança, frustrar ambições e acionar todas as inibições, não importando o quão qualificados e motivados eles possam ser.

David Moyes foi confirmado como o encarregado de substituir Sir Alex. Favorecido pelo seu compatriota, Moyes é amplamente admirado por seu trabalho e longevidade no Everton, e espera-se que leve com ele a Old Trafford a exigida estabilidade e pensamento em longo prazo, bem como uma ênfase em dar valor ao trabalho com os mais jovens, comprando de forma inteligente e encorajando um futebol ofensivo. Ele precisará de todos estes atributos e mais ainda para garantir que a impecável coleção de prataria em Old Trafford não sofra com hesitações.

Ele também vai precisar de muita personalidade e confiança própria para não acabar se acovardando diante do legado que Sir Alex irá impor a ele.

Sir Matt Busby - a primeira grande era do United
Os torcedores mais antigos do United podem se lembrar com calafrios de uma sucessão malconduzida, quando Sir Matt Busby abriu mão do time para se ocupar com assuntos mais burocráticos no andar de cima em 1969. Um dos mais antigos "babes", Wilf McGuiness, que tinha 31 anos na época, considerou impossível sair da sombra de Busby. McGuiness durou apenas 18 meses no cargo antes do United se sentir pressionado a tirá-lo do seu sofrimento e chamar Busby de volta ao banco. E quando o lendário escocês - cujo recorde de cinco ligas, duas FA Cups e uma Champions League em 23 anos somente Ferguson foi capaz de eclipsar - saiu novamente do cargo, o anteriormente bem sucedido Frank O'Farrell não foi capaz se impor no United, e o declínio pós-Busby se acelerou.

Um rebaixamento e o posterior retorno à divisão como campeões da segundona se seguiram sob a batuta de Tommy Docherty, cuja FA Cup de 1977, juntamente com a de Ron Atkinson em 1983 e 1985, foi o máximo que o United conseguiu atingir entre os reinados de Sir Matt e Sir Alex.

A alguns quilômetros de distância um pouco mais para o oeste, em Anfield, Bill Shankly havia assumido o manto de Busby como o técnico mais popular do futebol durante os 15 anos em que esteve com o Liverpool, tirando os Reds da escuridão da segunda divisão e levando aos holofotes da glória. E o fez com uma mistura de inteligência tática, dureza e sagacidade ácida, tornando-se tão fortemente o espírito do clube que, quando anunciou a bomba da sua aposentadoria no verão de 1974, as pessoas se perguntaram se o Liverpool jamais poderia voltar a ser o mesmo. De certa forma, não foi; e, até hoje, Shankly segue reverenciado pelos mais fanáticos torcedores, e em toda a região de Merseyside.


Estátua de Bill Shankly - Uma lenda no maior rival do Manchester United


Mas ele havia preparado a sua sucessão muito bem de dentro da sua famosa salinha e Anfield, e seu despretensioso tenente Bob Paisley deu um passo a frente sem perder o ritmo e seguiu adquirindo recordes e sucesso que chegou até mesmo a ofuscar Shankly. De fato, a dominância do Liverpool continuou por mais dois treinadores além dele, com Joe Fagan e Kenny Dalglish, ainda que o hábito de acumular taças tenha acabado em 1990.

Apesar do sucesso de Paisley, entretanto, a sombra de Shankly se tornou um problema para o Liverpool. Shankly rapidamente percebeu que iria se aposentar em breve e tentou manter seu envolvimento dentro do clube. Ele aparecia para as sessões de treinamento em Melwood, desistindo de fazê-lo de forma relutante apenas quando sentiu que sua presença estava começando a ser ressentida. E a sua relação com o Liverpool se tornou cada vez mais fatigada até o ponto em que ele afirmou que se sentia mais bem vindo no Everton ou no Manchester United do que no clube que havia ajudado a construir. Mas, até onde importava ao Liverpool, eles haviam seguido em frente; Shankly era uma grande figura, mas uma extremamente opressora, e agora o time pertencia a Paisley.

Apenas uma semana antes de Shankly entregar o cargo, Don Revie havia deixado o Leeds United para se tornar técnico da Inglaterra. Revie reergueu o Leeds das trevas das divisões de acesso até o topo do futebol inglês, alcançado enorme sucesso doméstico e na Europa. Antes dele, o time de Yorkshire não havia conquistado nada e caminhava para continuar assim. Sob ele, tornaram-se a equipe mais temida do país, ainda que o respeito fosse dado de má vontade por conta do profissionalismo grosseiro da equipe. O Leeds de Revie era bom o suficiente para ganhar duas vezes mais taças do que realmente ganhou, mas frequentemente tropeçavam na reta final quando as inseguranças do próprio treinador acabavam passando para os jogadores.

Ainda assim, 'The Don' foi, de fato, a cabeça da família em Elland Road, e sua saída deixou um buraco no clube que nunca foi preenchido. Uma sucessão de treinadores - Brian Clough, Jimmy Armfeld, Jock Stein, Jimmy Addamson, Allan Clarke, Eddie Gray, Billy Bremner - tentaram repetir o sucesso de Revie e todos falharam, até Howard Wilkinson conseguiu levá-los de volta à primeira divisão e conquistar o último título pré-Premier League. Isto, e um curto e excitante período sob David O'Leary, se provaram as ilhas em um mar de decepção pós-Revie para os torcedores do Leeds, que ainda lembram nostalgicamente da era Revie.

O verão de 1974 também viu a demissão de outro dos mais icônicos treinadores do futebol inglês - Bill Nicholson, do Tottenham. Seu time que conquistou o doblete em 1960-61 é lembrado como um dos melhores de todos os tempos no futebol inglês, e ele também levou mais duas FA Cups, a Copa da UEFA, a Supercopa da UEFA e duas Taças da Liga para White Hart Lane. Estabeleceu a marca de sucesso a ser batida no Tottenham e, 18 treinadores depois, ninguém ainda conseguiu atingir o seu nível. Apenas Keith Burkinshaw (duas FA Cups e uma Copa da UEFA) chegou perto.

A ascensão dos rivais norte-londrinos do Tottenham, Arsenal, data da contratação de Herbet Chapman como treinador em 1925. O visionário Chapman levou o time à suas primeira conquistas e literalmente os colocou no mapa - do metrô de Londres. Sua morte prematura em 1934 não freou a dominância do Arsenal nos anos 30, quando o diretor George Allison assumiu, ainda que ele tenha delegado os assuntos do time em grande parte a Tom Whittaker e Joe Shaw, dois ex-jogadores. Os troféus continuaram a acumular, inclusive após a guerra, quando Whittaker tornou-se o técnico oficialmente.

Mas depois da morte de Whittaker, em 1956, técnicos como Jack Crayston, George Swindin e Billy Wright se esforçaram para restaurar a antiga glória dos Gunners, e Chapman agora é visto como um pesado marco pendurado nos seus pescoços e nos dos seus jogadores. Era inescapável também: o imponente busto de Chapman na famosa entrada de mármore de Highbury, o antigo estádio, era uma lembrança diária para os treinadores do Arsenal sobre o que era esperado deles.

O chefe de Billy Wright durante sua carreira como jogador no Wolverhampton Wanderers foi Stan Cullis, uma figura franca e dura na queda que assumiu no Mollineux em 1948 e de tornou o treinador mais jovem da história a conquistar uma FA Cup apenas um ano mais tarde, com 31 anos. Ele então levou os Wolves à conquista de três títulos ingleses e não conseguiu o hat-trick de campeonatos por apenas um ponto em 1960, conquistando a FA Cup de novo para compensar. Quando os Wolves venceram o multi-talentoso Honved, da Hungria, em um amistoso cercado de prestígio, em 1954, a declaração de Cullis de que seu time havia se tornado "campeão do mundo" ajudou a acelerar o nascimento de uma competição europeia.

Mas os resultados nos Wolves lentamente começaram a decair e o clube resolveu demitir Cullis em 1964. Quase 50 anos depois e o time nunca mais chegou nem perto de repetir o sucesso do treinador. Os apuros recentes - dois rebaixamentos consecutivos - apenas sublinham o tamanho da sombra que cobriu o demitido Dean Saunders e outros 19 treinadores dos Wolves desde que Cullis deixou o clube.

O Nottingham Forest viveu uma história semelhante desde a aposentadoria de Brian Clough em 1933. Aquela era dourada da sua história - Clough trouxe o único título inglês, quatro Taças da Liga e duas taças do que se tornou a atual Champions League - se provou impossível de ser copiada para os 14 homens que tentaram depois dele.

Brian Clough - Lenda no Nottingham Forest e no Derby County

Interessantemente, a maioria destes técnicos-símbolo foi quase santificada pelos seus clubes para a posteridade, muito além dos livros de história - em aço, concreto, bronze ou asfalto. Há os portões de Shankly e uma estátua em Anfield, a Arquibancada Revie e uma estátua em Elland Road, a calçada Bill Nicholson e um busto em White Hart Lane, o famoso busto e uma nova estátua de Herbert Chapman no Emirates Stadium, a arquibancada Stan Cullis no Mollineux e a arquibancada Brian Clough no City Ground, bem como uma estátua de Clough no centro de Nottingham e a lembrança de que o pedaço da estrada A52, entre Nottingham e Derby, é chamado de Via Brian Clough.

Então, no Teatro dos Sonhos, há a rua Sir Matt Busby e uma estátua, bem como, é claro, a arquibancada Sir Alex Ferguson, e outra estátua. David Moyes terá apenas que olhar para frente do banco em Old Trafford para ser lembrado do legado de antecessor e do padrão de exigência que ele estabeleceu.

Cada troféu que Sir Alex conquistou pode ter sido pela glória maior do United, mas também tornou o trabalho de qualquer sucessor um pouco mais difícil. Porque seguir os passos de gigantes pode ser uma tarefa muito, muito ingrata...

Relacionados