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Depois da eliminação da Juventus na Liga dos Campeões, Antonio Conte apontou para vários problemas que indicam que o futebol italiano está respirando por aparelhos

COMENTÁRIO
Por Kris Voakes | Correspondente do futebol italiano


Depois da eliminação da Juventus na Liga dos Campeões, para o Bayern de Munique, Antonio Conte foi direto e sincero na sua avaliação do lugar do futebol italiano na Europa.

"Não consigo ver uma equipe italiana conquistando a Liga dos Campeões nos próximos anos," admitiu o ex-técnico de Bari e Siena. "Tenho vontade de rir quando ouço que com apenas mais dois ou três jogadores podemos ser campeões europeus. O futebol italiano está estagnado e isto deveria ser motivo de preocupação para todos."

Uma equipe da Juve que era, discutivelmente, mais bem equipada do que o Chelsea que triunfou no continente há onze meses, saiu da competição com o rabo entre as pernas depois de um 4 a 0 no placar agregado, mas comparações com o time inglês, que superou expectativas, são enganosas. É a comparação de força entre alguns dos grandes clubes da Europa que deixou Conte preocupado com o futuro do futebol italiano.

Enquanto os bávaros continuam a sobressair-se no seu impulso para superar Barcelona e Real Madrid como a maior potência do esporte, o futebol alemão como um todo está crescendo. E, enquanto a Premier League continua a atrair interesse e atenção faça chuva ou sol, a Serie A está naufragando.

"Qual foi a última vez em que uma equipe italiana chegou às semifinais?" perguntou Conte, sabendo muito bem que o fracasso da Lazio em superar o Fenerbahce na Liga Europa significou que a península da bota não tem representação em uma semifinal europeia pelo terceiro ano consecutivo, algo que acontece pela primeira vez no futebol da Itália.

"Acho que todos devem se unir para tentar mudar as coisas. Quando digo todos, sigo clubes, torcedores, a imprensa e todas as instituições," ele continuou. E com isso sua declaração deu uma martelada certeira no centro da questão.

Ao mesmo tempo em que outras ligas continuam a prosperar apesar da severa crise econômica mundial, os tempos são difíceis na Itália. Os Azzurri continuaram em boa forma da Euro 2012 para as eliminatórias para a Copa do Mundo, o que mostra que há talento de alto nível, mas a profundidade, apelo, organização e marketing simplesmente não são capazes de evidenciar isto.

E agora é chegada a hora da ação. O futebol italiano precisa se preparar para uma revisão massiva se quiser afundar ainda mais nos próximos anos, e existem muitas áreas diferentes onde as mudanças precisam ser feitas.

CONSTRUIR NOVOS ESTÁDIOS, MESMO SEM A LEGGE STADI

Em outubro de 2009, autoridades rascunharam uma lei que tinha por objetivo ajudar os clubes na construção dos seus próprios estádios. Entretanto, em dezembro de 2012, o presidente do FIGC, Giancarlo Abete, avisou que, "salvo um milagre, isto continuará apenas como uma proposta".

No presente, apenas a Juventus tem seu próprio estádio, com os outros 19 clubes da primeira divisão alugando os campos de organizações locais nos dias de jogo. Os Bianconeri são os únicos que podem tirar vantagem da dádiva financeira de coletar as receitas de bilheteria, shows e outros eventos que podem acontecer durante a semana.

Atualmente, a Legge Stadi (lei dos estádios) continua parada. "É a típica história italiana," Abete explicou. "Novas construções são necessárias, mas se a lei não passar nós vamos ter apenas que esquecer o assunto."

Uma mudança na lei que obrigue os conselhos a julgar o planejamento para a construção de um estádio dentro de um prazo de 90 dias é desesperadoramente necessária para o futebol italiano. Mas há maneiras de se contornar o bloqueio caso ele permaneça.

Como aconteceu quando a Juventus derrubou o velho Stadio delle Alpi e construiu o Juventus Stadium, é permitido que novos estádios sejam construídos em locais onde eles já existem. Isto deveria incentivas os clubes a seguir padrões semelhantes. Não há nada que impeça uma diretoria de tomar a decisão de comprar o espaço do estádio dos governos locais e depois pôr em prática um plano de construção de um novo estádio no lugar. Os clubes podem jogar em locais próximos durante o período das obras ou fazer a estrutura em duas fases, que permitam que as partidas não sejam interrompidas.

Ainda que não seja o cenário ideal, e que não resolva os problemas dos times de Milão e Roma, que dividem seus estádios, certamente seria uma alternativa melhor do que ficar parado. Enquanto não houver uma mudanças no status quo, o calcio apenas fica cada vez mais para trás, os estádios se tornam cada vez mais velhos e decrépitos e os clubes simplesmente não conseguem fazer dinheiro com as receitas de dia de jogo.

Até que uma nova lei seja aprovado, segue sendo a única opção aberta aos clubes, e, sendo assim, deve ser levada seriamente em consideração.

PARAR DE ENTERRAR OS ESCÂNDALOS E FRACASSOS

É apenas muito corriqueiro no futebol italiano que as pessoas queiram ignorar problemas dentro do esporte. Seja ignorar completamente atitudes racistas por parte de uma torcida (este jornalista já presenciou diversas ocasiões em que cantos muito claramente racistas foram totalmente ignorados pela mídia e pelas autoridades), a continuidade de resultados ruins dentro de campo ou as penas brandas para manipulação de jogos, há uma real necessidade de se começar a levar estes problemas mais a sério.

É preciso atrair atenção para estas situações se quiserem que elas acabem um dia, já que a prática de se deixar que tudo aconteça como pano de fundo quase como se não estivesse lá apenas joga mais lenha na fogueira.

Quando o escândalo do Calcioscommesse eclodiu no verão de 2011, foi a chance do futebol italiano de mostrar que realmente queria chegar à raíz do problema de manipulação de jogos. Mas, em vez disso, as notícias rapidamente passaram da página para as páginas 17 ou 25, e logo estavam sendo tratadas como grandes sequências de acontecimentos mal-entendidos. Jogadores, agentes e outros implicados no escândalo receberam suspensões curtas, em sua maioria, e muitos outros já estão de volta aos seus trabalhos. Os ganchos deveriam ter sido muito maiores, quiçá permanentes, para passar a mensagem de que o calcio não vai mais tolerar corrupção.

Da mesma forma, resultados fracos em competições europeias não podem mais ser aceitos como se fossem normal, devido à emergência de clubes como Chelsea, Manchester City e Paris Saint-Germain, que receberam injeções de dinheiro estrangeiro. Em vez disso, deveria haver questionamentos profundos sobre as eliminações de cada clube italiano na Europa. Espera-se que, neste ponto, pelo menos, as palavras e Antonio Conte recebam atenção.

Mas esta não tem sido a tendência no calcio ultimamente. As más notícias são sempre enterradas, e esta prática tem de parar se as pessoas quiserem sentir a pressão de ter que empurrar o futebol do país para frente.

FAVORECER MAIS OS TIMES NA EUROPA LEAGUE

A UEFA não vai mudar de ideia. Por mais inúteis que os atuais coeficientes dos países sejam, eles estão aí para ficar. Então agora cabe ao futebol italiano fazer o que for possível para ajudar os clubes que o representam em terras estrangeiras.

Um sistema que dita que o Benfica, semifinalista da Europa League, receba o número de pontos de coeficiente que a Juventus, apesar do time ter sido eliminado ainda na fase de grupos da Liga dos Campeões, precisa ser reformado. Mas não será.

Assim sendo, o calcio precisa se conformar com o fato de que a Europa League precisa receber mais atenção se a Itália quiser manter sua terceira vaga na Champions League, quanto mais se quiser recuperar a quarta, que agora é da Alemanha.

No momento, existe muito pouco em jogo para os clubes que disputam a irmã mais nova da Champions, com uma premiação mínima e pelo menos 17 jogos a mais na temporada para que se possa conquistar o troféu. Parece, a muitos clubes italianos, que o número de lesões que se sofre durante as disputas é maior do que a compensação financeira de correr para jogar toda quinta-feira.

Entretanto, o calcio precisa oferecer maiores incentivos aos seus clubes que ajudam o país a conquistar mais pontos de coeficiente. As premiações financeiras na Serie A deveriam ser maiores para aqueles que chegam mais longe na Liga dos Campeões e na Liga Europa do que para os que simplesmente em ordem de classificação para que os times levem os jogos de quinta-feira mais a sério.

Os campeões da Europa League levam para casa apenas 5 milhões de euros, mas se as autoridades italianas oferecerem incentivos financeiros independentes aos clubes que avancem até as fases mais avançadas do torneio, talvez equipes como Udinese, Napoli, Sampdoria, Genoa, Palermo e etc. passem a fazer mais esforço para passar de fase e continuar competindo da próxima vez em que estiverem representando a Itália.

Até que este sistema seja considerado, os clubes continuarão a colocar todos os seus objetivos na classificação para a Champions League pela Serie A muito acima de qualquer pretensão à Europa League.

REDUZIR O NÚMERO DE EQUIPES NA SERIE A

Não foi uma decisão tomada em benefício do futebol italiano que a Serie A fosse ampliada para ter a participação de 20 clubes a partir de 2004, mas sim uma reação mal calculada ao Caso Catania quando o calcio buscava uma maneira de aliviar os problemas crescentes em uma Serie B inchada.

Nove anos depois e podemos dizer que a expansão da primeira divisão não deu muito certo. Sim, as equipes passaram a ter mais dois jogos em casa com os quais podem gerar receitas, mas não é como se eles estivessem faturando milhões a mais. E, em outros aspectos, o formato com vinte equipes tem muitas desvantagens.

Quase sempre chegamos à reta final de temporada com várias equipes que já não brigam por mais nada, e a tendência é que os times já salvos não se movimentem para nada nas semanas finais. A reação do Bologna ao alcançar 40 pontos com oito jogos ainda por fazer na temporada 2010-11 foi tirar dois meses a mais de férias. Eles conseguiram apenas dois pontos das partidas restantes, marcando dois gols e sofrendo 15, e terminaram apenas duas posições acima da zona de rebaixamento.

E este caso não é isolado, e causa danos à integridade do esporte. Enquanto o Bologna enfrentou Milan e Napoli, brigando por posições, e perdendo para os dois, eles já haviam pego a Inter duas vezes, o que quer dizer que a disputa pelo título foi parcialmente condicionada pelo calendário. Sim, isto pode ser dito sobre os calendários de quase todos os países, mas dada a tradição italiana de simplesmente não ligar mais para nada uma vez que seu destino esteja decidido, o problema tende a ser exagerado na Serie A. Por esta razão, é preciso que haja mais competitividade, por mais tempo.

A Serie A deveria voltar ao formado de 18 clubes. Em cada um dos 34 jogos da equipe haveria mais urgência por pontos, como acontece na Bundesliga. A tendência a acreditar que quanto maior, melhor, não se aplica. Se o futebol italiano quer ganhar mais apelo diante das massas, não vai perder com menos dois clubes provincianos na divisão de elite.

HORÁRIOS MAIS FLEXÍVEIS

O crescente mercado global ajudou a assegurar que a Premier League inglesa e a La Liga espanhola recebessem mais atenção do que nunca, e já passou da hora da Serie A ganhar um pedaço desse bolo.

Com as audiências de futebol crescendo assombrosamente na Ásia, a Lega Calcio já se tocou do apelo, mas ainda não se movimentou para começar a fazer dinheiro. A Supercopa da Itália foi disputada em Pequim por três anos e uma rodada da Serie A passou a acontecer ao meio-dia do horário local todas as semanas para poder conquistar os fãs no oriente, que poderiam, em vez disso, estar assistindo ao futebol inglês ou espanhol.

Mas isto ainda não foi longe o suficiente, especialmente considerando o baixíssimo apelo de algumas das partidas que são exibidas no horário a cada temporada. Inter e Juventus, por exemplo, só jogaram neste horário apenas duas vezes cada uma em 2012-13, enquanto a viagem do Milan à Florença para enfrentar a Fiorentina fora de casa há duas semanas foi apenas o seu primeiro jogo do meio-dia.

Se a Itália quiser mesmo atrair a audiência da Ásia, então alguns horários mais flexíveis precisam ser pensados. Dado que todos os jogos são televisionados dentro do país, há muito pouca chance da mudança afetar o público no estádio ou os números da audiência doméstica drasticamente.

COMO FICARIA ESCALADA A RODADA DE UM FIM DE SEMANA NUMA LIGA DE 18 TIMES

SEXTA-FEIRA
SÁBADO
DOMINGO
SEGUNDA-FEIRA
HORÁRIO DE ROMA
20:45
(Semana de CL)
12:00, 14:00, 16:00, 20:45 12:00, 14:00, 16:00, 20:45 20:45
(Semana sem CL)
         
HORÁRIO DE TÓQUIO
03:45 19:00, 21:00, 23:00, 03:45
19:00, 21:00, 23:00, 03:45
03:45

No formato sugerido aqui para uma liga com 18 equipes, o domingo poderia ter uma rodada tripla com três dos jogos de maior apelo do fim de semana, jogados às 12h, 14h e 16h da Itália, permitindo, assim, que a audiência asiática acompanhasse as batalhas dos clubes mais importantes da Serie A antes de ir para a cama. Enquanto isso, haveria oportunidade de colocar times que disputam a Champions League na semana seguinte para jogar na sexta-feira (substituindo a segunda-feira naquela semana) e nos sábados à tarde antes dos jogos europeus, enquanto as audiências italianas também teriam três jogos à noite para assistir.

Ainda que uma lista de confrontos completamente flexível não caia muito bem para os mais tradicionalistas, é vital que haja mais do que um simples aceno de cabeça para atrair o que é um mercado estrangeiro gigantesco. Este é um ótimo exemplo de como o próprio calcio não se ajuda a sair do buraco.

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