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Em entrevista para a Goal.com, Almir Somoggi, consultor de marketing e gestão esportiva, fala sobre a situação financeira dos times brasileiros

           DÍVIDAS REFERENTES A 2011
   R$ 564 milhões
   R$ 405 milhões
   R$ 387 milhões
   R$ 368 milhões
   R$ 355 milhões
   R$ 245 milhões
   R$ 208 milhões
   R$  199 milhões
   R$ 197 milhões
   R$ 178 milhões
   R$ 158 milhões
   R$ 120 milhões

Por Tauan Ambrosio (@ambrosiotauan)

O futebol brasileiro nunca ganhou tanto dinheiro como agora, com novos contratos de TV, grandes ações de marketing e planos cada vez mais elaborados de sócio-torcedores.

No entanto, o aumento financeiro elevou os gastos e as dívidas dos maiores clubes do país. No último dia 11 de abril, a diretoria do Flamengo divulgou os resultados de uma auditoria da Ernst & Young, contratada para apurar a situação financeira interna do Rubro-Negro, e o resultado foi espantoso: R$ 750,7 milhões em dívidas.

De acordo com um estudo publicado em janeiro de 2013 por Amir Somoggi, consultor de marketing e gestão esportiva, as receitas do futebol brasileiro aumentaram de R$ 805 milhões para R$ 2,7 bilhões entre 2003 e 2011; um crescimento de 235%. No entanto, as dívidas passaram de R$ 1,2 bilhão para R$ 4,7 bilhões no mesmo período; um aumento de 306%. O número deve aumentar ainda mais quando os valores referentes a 2012 forem divulgados pelos demais clubes.

Flamengo: dívida atual de R$750,7 milhões                             

 

 

O cenário só não é terrível para poucos, mas é um verdadeiro filme de terror para a maioria, levando-se em conta as receitas. O Corinthians tinha dívida estipulada em R$ 178 milhões em 2011, ano em que faturou R$ 390 milhões. Já o Botafogo, teve faturamento de apenas R$ 59 milhões em 2011 e uma dívida de R$ 564 milhões, a maior segundo as contas de 2011. Outro em situação preocupante é o Fluminense, com R$ 405 milhões em dívidas e faturamento de R$ 80 milhões no mesmo período.

 

                                                                                                              

  RECEITAS DOS 12 MAIORES CLUBES BRASILEIROS EM 2011
 1- CORINTHIANS - R$ 290 milhões  7- GRÊMIO - R$ 143 milhões
 2- SÃO PAULO - R$ 226 milhões  8- VASCO DA GAMA - R$ 137 milhões
 3- INTERNACIONAL - R$ 198 milhões  9- CRUZEIRO - R$ 129 milhões
 4- SANTOS - R$ 189 milhões  10- ATLÉTICO-MG - R$ 100 milhões
 5- FLAMENGO - R$ 185 milhões  11- FLUMINENSE - R$ 80 milhões
 6- PALMEIRAS - R$ 148 milhões  12- BOTAFOGO - R$ 59 milhões

                                                           Valores referentes ao ano de 2011

        ‘Se o Governo quiser, acaba com o futebol brasileiro’

 

Um grande problema é a falta de um plano para quitar estas dívidas, o que impede os clubes de equilibrarem gastos e ganhos. Em meio a esta confusão, várias agremiações usam o dinheiro que chega para pagar contas atrasadas e são obrigadas a pegarem empréstimos em bancos, que cobram juros altíssimos, para cumprir com suas obrigações presentes, aumentando ainda mais a ‘bola de neve’. Isso sem falar quando resolvem adotar tal prática para contratar jogadores. Para Amir Somoggi, os clubes estão ‘empurrando com a barriga’ uma situação gravíssima.

“No começo do ano, alguns clubes cariocas, como Vasco e Botafogo, tiveram penhora de recursos por causa das dívidas. Bastou a Receita dar uma bloqueada na conta dos clubes, para eles pagarem as dívidas, e eles entraram em desespero. Se o Governo quiser, ele acaba com o futebol brasileiro. Ele é o maior credor e pode usar a Receita Federal, que tem poder hoje para bloquear as receitas dos clubes. Basta a Receita Federal exigir dos clubes o que ela exige das empresas e acabou o futebol brasileiro. Então, os clubes brasileiros estão empurrando com a barriga um problema gravíssimo, que eu acho que deveria ser pensado” diz Amir Somoggi.

 

                                    A solução apresentada

 

Recentemente, o secretário nacional de Futebol do Ministério do Esporte, Antônio Nascimento, disse que o Governo pretende enviar ainda neste ano uma medida provisória (MP) ao Congresso Nacional para renegociar as dívidas dos clubes brasileiros, que prevê o parcelamento das dívidas em 20 anos e o abatimento do valor total por meio de investimentos sociais ou em esportes olímpicos.

“Eu sou absolutamente contrário, do ponto de vista técnico”, opina Somoggi, que completa: “Todas as vezes que alguém tentou dar aos times um caminho de isenção de dívida, de perdão, o clube se aproveitou disso para se endividar mais. Sou totalmente favorável ao escalonamento dessa dívida de forma equilibrada, sem quebrar os clubes, mas que eles sejam obrigados a pagarem o que devem”.

“É bom lembrar que eles nunca faturaram tanto. Os clubes estão no melhor momento financeiro de suas vidas no ponto de vista de receita. Então, se no melhor momento, falam em perdão, qual é a chance desse clube de se equilibrar financeiramente? Eu acho um absurdo completo”.

 

                              O CASO DO FUTEBOL ESPANHOL

 Somoggi explica que na década de 1990, a Espanha fez uma lei parecida com a do projeto do Governo brasileiro e, após um acordo, reduziu o endividamento dos clubes espanhóis. No entanto, várias agremiações espanholas, como Atlético de Madri e Valência, estão devendo cada vez mais porque sabem que o governo vai salvá-los futuramente.

“O que aconteceu na Espanha é o que vai acontecer no Brasil se essa lei absurda de dar isenção na dívida dos clubes (for aprovada). Eles vão saber que daqui a dez anos o Governo vai ajudar, então vão continuar devendo. Esse foi um erro cometido pela Espanha que não deveria ser cometido por nós, que estamos em um momento diferente, com Copa do Mundo, novos estádios, nova realidade social e econômica do país. É o momento de a gente fortalecer o país e o futebol, inclusive”.

 

                        ALEMANHA: O EXEMPLO A SER SEGUIDO

 Amir Somoggi aponta a Bundesliga como “o melhor modelo de administração do futebol mundial hoje” e explica com dados a evolução organizacional do Campeonato Alemão. “Em 2004, os 18 times (da Bundesliga) faturavam 1,1 bilhões de euros. Em 2011 (os dados de 2012 ainda não foram divulgados), foram 1,9 bilhões de euros. A receita cresceu 78%. No mesmo período, as dívidas saíram de 783 milhões de euros para 910 milhões de euros. Quer dizer, a dívida cresceu 16% enquanto a receita cresceu 78%. Ou seja, quanto mais se fatura, menos se deve”.

        Mario Gotzë (Borussia Dortmund) e Alaba (Bayern de Munique) disputam a bola no clássico alemão

Para tanto, o Brasil precisaria organizar o campeonato nacional fazendo uma liga, e não subordinada à CBF, o que não parece nem um pouco ser o interesse da entidade.

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