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Torcedores do Sunderland repudiam novo técnico devido às atitudes de exaltação ao fascismo que fez nos tempos de jogador. Goleiro do Man.City é exemplo de volta por cima

Por Tauan Ambrosio (@ambrosiotauan)

Paolo Di Canio é o tipo de pessoa que sempre será motivo de polêmica. Atuou em vários clubes e marcou época na Lazio e no West Ham, mas ficou mais conhecido por repetir inúmeras vezes a saudação fascista, principalmente quando marcava seus gols (e, quando tirava a camisa, podia-se ver a tatuagem “Dux”, em alusão à Mussolini). Agora treinador, foi contratado pelo Sunderland, para desgosto da torcida, que não aprova nem um pouco a visão política do ex-atacante. Será que ele conseguirá mudar sua imagem?

Como técnico, Di Canio fez uma grande campanha com o Swindon Town, também da Inglaterra. Em 2011 assumiu o clube na League Two (4ª divisão) e, na mesma temporada, conquistou o título e o consequente acesso para a League One (3ª divisão). No entanto, foi demitido em fevereiro deste ano pelos novos donos do clube, que consideraram o seu salário demasiadamente alto.

Quando saiu, sempre colecionando mais polêmicas, o time do sudoeste inglês ocupava as primeiras posições da “terceirona”. Os antigos donos do Swindon reconheciam publicamente o bom trabalho feito pelo italiano, apesar do “temperamento explosivo” do comandante.

 

No último dia do mês de março, Di Canio foi confirmado como novo técnico do Sunderland, da primeira divisão do futebol inglês, após a demissão de Martin O’Neal. No entanto, o primeiro (e talvez mais difícil) adversário do técnico nessa que é sua grande chance é a antipatia e repulsa que alguns têm quando escutam o seu nome.

O diretor de futebol David Miliband, ex- ministro britânico de Relações Exteriores, pediu demissão de seu cargo no clube quando Di Canio foi contratado. Muitos outros, incluindo aí veteranos da Segunda Guerra Mundial, também se manifestaram contrários à chegada do italiano.

“Durante a Segunda Guerra Mundial, 267 pessoas morreram e outras mil ficaram desabrigadas em Sunderland devido aos bombardeios nazistas. Di Canio possui a mesma ideologia daqueles assassinos”, disse à imprensa britânica o torcedor Rob Johnson.

 

Por meio do Facebook, fãs dos Black Cats, como o time é carinhosamente chamado, fizeram uma página que já conta com milhares de “curtidas” pedindo a saída de Paolo Di Canio antes mesmo de sua estreia. Guardadas as devidas proporções e posturas, um episódio deste tipo não é novo no futebol inglês. Na década de 1950, o goleiro alemão Bert Trautmann, ex-paraquedista do exército nazista, deu a volta por cima e se tornou um dos grandes ídolos do Manchester City.

 

  BERT TRAUTMANN: DE VILÃO A HERÓI

Bert Trautmann sempre teve aptidão para esportes, mas sua primeira grande condecoração foi a Cruz de Ferro, pela participação nas batalhas realizadas na Ucrânia durante a Segunda Guerra. Era paraquedista da Luftwaffle, a Força Aérea nazista. Após o conflito bélico, foi prisioneiro de guerra na Inglaterra, onde começou a atuar como goleiro. Em 1949 deixou o minúsculo St Helens Town para defender o Manchester City, na primeira divisão.

Quando foi anunciado pelos Citizens, muitos ameaçaram boicotar o time. No entanto, a postura de Trautmann, sempre a favor do diálogo, explicando sua falta de conhecimento com o que se passava na Alemanha e o posterior medo de uma represália dos nazistas em caso de desistência, aliviou pouco a pouco o incômodo dos torcedores, que poucos anos antes sofreram com os bombardeios dos aviões de Hitler.

Óbvio que o desempenho de Trautmann nos gramados também jogava a seu favor. Sua grande atuação com a camisa do City é também uma prova de coragem. Na final da Copa da Inglaterra de 1956, o alemão dividiu uma bola com um atacante do Birmingham e lesionou seriamente o pescoço. Mesmo assim, continuou em campo e comemorou a vitória por 3 a 1 e o consequente título. Virou uma lenda e ganhou uma estátua em sua homenagem (foto acima). Um exame realizado três dias depois daquela decisão mostrou que Trautmann havia quebrado um osso de seu pescoço.

 

Em 2004, Trautmann recebeu o título da Ordem do Império Britânico por promover o futebol anglo-saxão. Desde então viaja o mundo dando lições sobre esporte e a vida. Em entrevista concedida em 2010, o goleiro que tem atualmente 89 anos, disse que “viajar é a melhor forma de educação. Nos ensina sobre tolerância e compreensão”. Um grande exemplo de mudança.

Di Canio também já morou em vários países, mas sempre foi polêmico. Em entrevistas recentes, pautadas na rejeição da torcida do Sunderland, negou ser fascista e disse que a partir de agora vai falar somente sobre futebol. Será que o italiano vai dar uma reviravolta na história de sua carreira esportista? Terá ele sucesso com os torcedores dos Black Cats? É muito difícil (principalmente no segundo caso), mas só o tempo pode dar essa resposta.

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