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Depois de enfrentar uma debandada e os campos da segunda divisão, Juventus ressurge como potência não só na Itália, mas também na Europa

Por Riccardo Facchini

Eram 42 minutos do segundo tempo. O ano era 2006. Em campo, com a adrenalina latejando, um volante brasileiro nascido na distante cidade gaúcha de Pelotas não tinha tempo de pensar que sua equipe estava sendo eliminada.

Então, depois de um cruzamento, um companheiro sueco cabeceia para o meio da área e o pelotense emenda uma meia bicicleta torta, com a perna ruim, mas que balança a rede do adversário alemão, decretando a classificação e a explosão coletiva.

Sete anos depois, em 2013, as coisas foram mais fáceis. Passeando em dois jogos contra o Celtic, a Juventus de Turim aplicou, no agregado, 5x0. Foi como quem dar um mergulho na praia, garantindo a classificação para as quartas de final da Liga dos Campeões da Europa, o que aconteceu pela primeira vez desde aquele 7 de março de 2006.


Emerson foi o autor do gol que havia deixado a Vecchia Signora entre os 8 melhores times da Europa pela última vez. A classificação foi apertada: contra o Werder Bremen, na Alemanha, a Juve vencia por 2x1, de virada, até os 37 minutos do segundo tempo, mas o Werder ainda achou forças –e tempo– para reagir e reverter os números para 3x2.

O jogo de volta foi no Delle Alpi, então a casa dos bianconeri. Para dificultar ainda mais as coisas, os alemães abriram o placar com o francês Micoud. Coube então ao francês Trezeguet empatar e a Emerson virar o jogo. No placar agregado, 4x4 e a classificação no maior número de gols marcados fora de casa.

Não que ida às quartas a fórceps tenha adiantado muito. Os italianos duraram menos de um mês na competição europeia, sendo desclassificados pelo futuro vice-campeão Arsenal; no entanto, no dia 14 de maio, com gols de Trezeguet e Del Piero, em partida contra o Reggina, a Juventus erguia seu 29 Scudetto, encastelando-se na posição de maior vencedor da Itália.

Mas o castelo da Juventus, apesar de bonito e bem construído, era de areia.

Depois de uma onda de denúncias que inundou a Itália, sobraram apenas os escombros da antes invejável torre bianconera.


O escândalo, chamado de Calciopoli, ou Calciocaos, atingiu não só a equipe de Turim, mas também Milan, Fiorentina, Lazio e Reggina. Ligações telefônicas interceptadas mostraram um esquema entre dirigentes dos clubes e os árbitros. A Vecchia Signora acabou sendo a mais afetada, já que seus cartolas Luciano Moggi e Antonio Giraudo estavam diretamente envolvidos no esquema; o primeiro foi banido do futebol pelo resto da vida.

Assim, a Juve pagou um preço caro: a cassação dos títulos de 04/05 e 05/06 e o descenso à Série B da Itália, jogando no lixo uma campanha histórica com 91 pontos. Inicialmente, a equipe iria parar no mínimo na Série C ou mais abaixo, mas a pena foi reduzida. O rebaixamento também causou a debandada de um elenco estelar: nomes como Ibrahimovic, Thuram, Cannavaro e Emerson não ficaram para jogar a segundona e foram parar em equipes como Real Madrid, Barcelona e até mesmo em rivais diretos como a Inter de Milão. Dos grandes nomes da equipe, ficaram os ídolos Del Piero, Buffon e Nedved, mais Camoranesi e Trezeguet.

Sob o comando de Didier Deschamps, o retorno à Série A, como esperado, ocorreu sem sobressaltos, liderando a competição com 85 pontos e apenas 4 derrotas, sendo duas delas nas últimas duas rodadas, mais o melhor ataque disparado e a segunda melhor defesa. Os outros dois promovidos foram o Napoli e Genoa.

Na temporada 2007/2008, com Claudio Ranieri no comando, de volta ao seu lugar de direito, a Juventus não fez feio, apesar de não ter disputado o título, vencido pela Inter: um digno terceiro lugar, colocando a equipe na Liga dos Campeões da temporada seguinte. Em 2008/2009, com o brasileiro Amauri no elenco, os bianconeri foram ainda mais longe: vice-campeões italianos e semifinalistas da Copa da Itália. Se o último título ainda era o da série B, a Juve pelo menos parecia estar de volta no caminho das conquistas.

Assim, o clube investiu pesado para 2009/2010, trocando de treinador e gastando mais 50 milhões de euros apenas em dois brasileiros: o meia Diego, ex-Santos, e o volante Felipe Melo. Luigi Delneri assumiu o comando da equipe. Depois de uma passagem não muito memorável pelo Real Madrid, quem retornou a Turim de graça foi Cannavaro, eleito o melhor jogador do mundo em 2006, depois de levantar o tetracampeonato do mundo com a Itália, justamente na época do escândalo Calciopoli.

Apesar do dinheiro gasto, os resultados não vieram: desclassificação na primeira fase da Liga dos Campeões e um medíocre sétimo lugar na Série A. Na temporada seguinte, 10/11, as coisas não engrenaram, com a repetição do sétimo lugar no Campeonato Italiano.

Para 11/12, o jovem presidente Andrea Agnelli promoveu mudanças: saiu Delneri e entrou em seu lugar Antonio Conte, ex-jogador que passou de 1991 a 2004 na Juventus, time pelo qual venceu 14 títulos, sendo 5 da Série A e uma Liga dos Campeões. Em 1994, ele fez parte da seleção italiana que perdeu a Copa do Mundo para o Brasil.

Novamente a Juventus gastou os tubos com transferências: por volta de 90 milhões de euros foram usados para formar a equipe, levando nomes como Vidal, Matri e Quagliarella; apesar disso, a maior contratação foi justamente a que não custou nada: Andrea Pirlo saiu do Milan dizendo-se em busca de novos desafios e foi para a Juventus.

Outra novidade na Vecchia Signora foi o novíssimo Juventus Stadium, com capacidade para 41 mil pessoas, inaugurado em setembro de 2011. Os bianconeri se tornaram os únicos da Série A italiana a ter um estádio próprio: todos os outros times jogam em estádios públicos.

Esses três fatores podem ser elencados como fundamentais para a brilhante campanha do time na temporada passada: campeão invicto da Série A, com 84 pontos, quatro a mais que o segundo colocado Milan, conquistados com 23 vitórias e 15 empates.

Com uma equipe muito sólida e regular, os pontos fortes da Juve são a defesa, comandado por Buffon e Chiellini, e o meio-campo que tem em Andrea Pirlo o maestro, mas outros jogadores como Marchisio e Vidal também são de importância vital para a engrenagem juventina. O ataque é o setor que mais preocupa, e para isso foi contratado na última janela o veterano Nicolas Anelka. Fernando Llorente, do Atlético de Bilbao, também já está contratado, mas só chegará a Turim para a próxima temporada.

E agora, seis anos depois, a Juve volta a ser candidata ao título da Liga dos Campeões. De quebra, ainda lidera novamente o Italiano, com 59 pontos, 6 a mais que o segundo colocado Napoli. Dependendo do adversário das quartas de final, os bianconeri podem ter um caminho razoavelmente tranquilo até as semifinais para, quem sabe, voltar ao topo da Europa.


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