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A vitória de 2 a 0 do Milan sobre o Barcelona nesta semana se deve em muito à aplicação perfeita de um plano de jogo que deixou os catalães perdidos diante da arte italiana

COMENTÁRIO
Por Kris Voakes | Correspondente Futebol Italiano

A vasta maioria dos entusiastas do futebol tinham o Barcelona como favorito absoluto a conseguir um resultado positivo na quarta-feira, no San Siro, mas o que se viu nos 90 minutos de jogo foi uma lembrança de algo extremamente italiano. A vitória por 2 a 0 do Milan nas oitavas-de-final da Champions League mostrou porque sempre haverá uma forte razão para não se subestimar as qualidades do jogo na Itália.

Não há como fugir do gato de que o Calcio não é mais o que já foi um dia. Não há mais Van Bastens, Zidanes, Baresis ou Matthauses por lá atualmente. As arquibancadas pelo país a fora não estão mais entupidas de pessoas esperando para ver alguns dos maiores jogadores do mundo em ação. Muitos sequer se deram ao trabalho de desviar atenção da suas tarefas ou mudar de canal para ver a cativante partida no San Siro, tamanho foi o desdém para com a causa milanesca.

Mas aqueles que ignoram o futebol italiano, que o rebaixam, ou até mesmo se opõem a ele, estão simplesmente indo de encontro a uma das maiores artes no futebol. Porque mesmo hoje em dia, quando considera-se que os italianos estão correndo atrás das outras ligas, seu futebol é mestre na arte tática.

Ainda que o Barcelona certamente tenha tido a vantagem e o domínio da técnica na quarta-feira, não conseguiu quebrar o Milan. E não foi como se eles tivessem deixado o campo sangrando e marcados depois também. A eficaz pressão nas partes certas do campo, o sufocamento de Lionel Messi, os contra-ataques certeiros e uma organizaçãp fantástica em todas as fases da partida significaram que eles, afinal, venceram com sobras.

Os clichés dirão que "contra o Barcelona você precisa aproveitar todas as chances que surgirem", mas os Rossoneri ganharam a partida ao mesmo tempo em que desperdiçaram chances no primeiro tempo, mais notavelmente com El Shaarawy. O que acabou dando ao time a glória foi um aproveitamento incrível da organização tática do técnico Massimiliano Allegri.

Depois da destruição da Inter pela Fiorentina no fim semana, este jornalista disse que os Nerazzurri fracassaram onde outros haviam conseguido sucesso ao sufocar os Viola, apontando a inteligência do futebol italiano em conseguir identificar rapidamente as fraquezas de uma equipe e usar isso em seu favor como a razão pela qual a Inter deveria ter sabido como explorar as recentes fraquejadas da equipe de Vicenzo Montella.

E este know-how tático não é apenas visto na Serie A e na Champions League. Se alguma vez você tiver a oportunidade de entrar num centro de treinamento de categorias de base na Itália, como este jornalista tenta fazer semanalmente e o fez recentemente indo até o centro do Milan, você verá que isto é algo que é socado na cabeça dos jogadores desde muito cedo.

Crianças de oito ou nove anos podem ser vistas participando de treinos mantendo sempre suas posições, brigando umas com as outras por não acertarem um passe ou até por ler incorretamente o movimento de um adversário. A ideia de que o jogo é vencido ao se utilizar certos métodos, intruções e ideologias corretamente é algo que surge na vida desses garotos muito antes deles chegarem aos times principais.

Montolivo & Muntari | Parte de uma atuação coletiva extremamente eficiente

Quando 'fãs' do futebol falam com desdém sobre o futebol "chato e defensivo dos italianos" eles simplesmente demonstram uma ignorância imensa pela habilidade e inteligência necessárias para se atuar de forma quase militar dentro de um plano. Os famosos fantasisti e trequartisti do futebol italiano foram incondicionalmente amados através dos anos, mas também o foram os grandes defensores. Para cada Ruud Gullit, Diego Maradona e Alessandro Del Piero há um Paolo Maldini, Antonio Cabrini e Giacnto Facchetti. A torcida italiano sempre apreciou o fato de que nenhum jogador é capaz de ganhar um título sozinho.

A noite de quarta-feira foi um grande exemplo de como um time sem nenhuma estrela de verdade, com falta de jogadores importantes e diante de uma coleção de alguns dos maiores gênios da técnica do futebol mundial, ainda pode vencer apenas por exercer à perfeição seu papel tático e coletivo.

E, assim como na semana passada a imprensa britânica apontou pênaltis não dados e considerou que a energia do Celtic diante da Juventus era prova suficiente de que os escoceses haviam sido melhores que os italianos, qualquer ênfase à partida ruim do Barcelona significa ignorar que foi o Milan quem venceu.

A Juve já esteve diante do Celtic e do Shakhtar e ganhou com perfomances perfeitas durante 90 minutos, e os Rossoneri agora se dirigem ao Camp Nou com uma vantagem de 2 a 0 graças a uma atuação digna dos mesmos elogios e saída do mesmo manual. Dois dos vencedores dos primeiros jogos das oitavas são italianos, e eles foram bem sucedidos fazendo o que os italianos fazem de melhor.

Quando o Barcelona aparece em qualquer campo da liga espanhola e faz logo três ou quatro gols no adversário, rapidamente fica chato. Resultados como o de quarta-feira deixam o futebol emocionante de novo. Atuações como a do Milan fazem valer a pena assistir futebol.

Em um mundo moderno onde constantemente ouvimos que o maior, o mais esperto e o mais rápido é que são os melhores, vale a apena lembrar de onde viemos. E o futebol italiano é lembrança perfeita de que, em um esporte coletivo, grandes performances coletivas sempre terão lugar no nível mais alto.

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