thumbnail Olá,

O ano de 2012 teve algumas demonstrações impressionantes de futebol dentro de campo, mas acontecimentos fora dele deixam um gosto amargo

COMENTÁRIO
Por Peter Staunton

Ainda hoje incansavelmente citada é a afirmação de Bill Shankly, lendário técnico do Liverpool nas décadas de 60 e 70, de que o futebol é mais importante do que a vida e a morte; de que este jogo é, de alguma forma, transcendental e parte integrante da própria existência. É um comentário que serviu apenas para perpetuar o mito de que o futebol é uma entidade à parte dos outros esportes e, inadvertidamente, teve sua legitimidade fomentada no preconceito.

Essa obsessão frenética, tão típica dos dias de hoje, traz para campo princípios de partidarismo, intolerância e ódio ao esporte que é mais assistido do que qualquer outro. E por melhor que o futebol tenha sido em 2012, foi impossível ignorar o bafo da controvérsia que infiltrou o jogo em alguns momentos.

Das injúrias nas redes sociais até a morte de um árbitro assistente em uma partida amadora na Holanda, incidentes desagradáveis não foram raros durante o ano do barril de pólvora.

O ano que começou com a publicação do relatório sobre Luis Suarez e o caso Evra viu o futebol, mais uma vez, ser assombrado pelos fantasmas do racismo e da intolerância - a implosão do Rangers tendo produzido muito do último. A BBC tentou virar o foco para fora da Inglaterra ao promover uma investigação sobre comportamentos racistas no leste europeu às vésperas da Eurocopa 2012, mas o futebol inglês não teve de sair da sua própria porta para testemunhar, em primeira mão, os efeitos do preconceito racial neste ao. Anton Ferdinand recebeu um verdadeiro tiro com a conclusão dada ao caso dos insultos sofridos nas mãos de John Terry. 'Meu time' colocado antes da justiça e da igualdade.

Cheick Tiote, Didier Drogba, Mario Balotelli, Danny Welbeck, Marvin Sordell e muitos outros foram alvos das arquibancadas rivais nas ligas inglesas. Ashley Cole foi vítima de um ex-colega de seleção, e o Chelsea falsamente acusou um árbitro de chamar um dos seus jogadores de 'macaco'. A luta contra o racismo na Inglaterra é uma farsa burlesca diante das evidências atuais, com alguns dos jogadores justificadamente vendo nada além de um simbolismo vazio em usar as camisas anti-racismo. A imagem de Terry capitaneando o Chelsea com uma faixa onde se podia ler 'Unite Against Racism' (Uni-vos Contra o Racismo) no braço é evidência suficiente da futilidade, e hipocrisia, dessa luta em particular.

Em outros cantos, torcedores sérvios proferiram insultos contra Danny Rose e seus colegas negros durante um jogo da seleção inglesa sub-21. A maior torcida organizada do Zenit, da Rússia, abusou constantemente de jogadores como Hulk e publicou um manifesto reiterando seu desejo de que nenhuma minoria étnica ou sexual tivesse representação na sua equipe.

O caso Terry durou quase o ano inteiro, e eventualmente custou o emprego de Fabio Capello na seleção da Inglaterra. Essa notícia veio no mesmo dia em que Harry Redknapp foi inocentado das acusações de sonegação de impostos. O dia em que a estrela de Harry no Tottenham começou a minguar.

Foi Roy Hodgson quem levou os Three Lions para a Euro na Polônia e na Ucrânia e seu time deixou a competição graciosamente, perdendo para a finalista Itália, que ostentava a classe e a confiança de Andrea Pirlo. Ele também foi um dos astros na conquista de ponta a ponta da Juventus para se reestabelecer como um dos gigantes do Campeonato Italiano.


Ponto baixo | A saga de Terry e Ferdinand sacudiu o futebol inglês e revelou a hipocrisia do mesmo

Os dois gols de Andriy Shevchenko pela Ucrânia contra a Suécia iluminaram a Euro 2012 desde cedo e um gol de rara beleza de Jordi Alba na final teve todas as características que marcaram uma geração espanhola para ficar na história. Domínio implacável da La Roja e do jogador do torneio, Andrés Iniesta. A única coisa que será capaz de pará-los é o próprio tempo.

Mais glória espanhola veio vestindo vermelho e branco na Liga Europa, com o Atlético de Madrid superando um enfraquecido Athletic Bilbao que estremeceu o Old Trafford mais cedo na competição. Falcão Garcia foi a estrela então, e continua a ser.

A vitória do Chelsea na Liga dos Campeões, depois de nove anos de tentativas frustradas da parte de Roman Abramovich, pareceu ter sido escrita nas estrelas tamanha foi a sensação de destino. Desafiantes, eles superaram o Barcelona. Deixaram para traz o Bayern de Munique também. Didier Drogba, com seu último toque na bola pelos Blues, guardou um pênalti que negou aos alemães a famosa velha taça em solo caseiro. Roberto Di Matteo guiu o Chelsea até a linha de chegada, mas nunca foi o homem de Abramovich. Ele não passaria de novembro no comando dos campeões europeus.

O sexto melhor time na Inglaterra ganhando a Liga dos Campeões pode ter dado uma falsa impressão de rosas no jardim da Premier League mas outros eventos mostraram que o futebol inglês se encontra em uma situação menos fantástica. O Manchester City conquistou o campeonato praticamente no último chute da temporada, através de Sergio Aguero, mas este evento dramático e emocionante teve pouca significância à nível continental na fase de grupos da Liga dos Campeões.

A Bundesliga alemã, com Borussia Dortmund e Schalke 04 deixando para trás City e Arsenal, é o novo poder europeu agora; evidência de que um planejamento financeiro prudente e um projeto seguro de desenvolvimento de novos talentos pode produzir sucesso e competitividade sustentáveis e renováveis. Sob o comando de Jurgen Klopp, o Dortmund sintetizou esta nova Alemanha e mais uma vez deixou o Bayern a ver navios para ganhar a dobradinha nos campeonatos nacionais. E com um orçamento bastante modesto, em comparação aos novos super-ricos clubes europeus.

O City aprendeu que, no contexto europeu, que gastança desenfreada não necessariamente quer dizer sucesso instantâneo - mais notavelmente contra os vibrantes campeões holandeses do Ajax - enquanto o Zenit não vive nada além de uma verdadeira novela desde a espetacular aquisição de Hulk. O PSG, com o arrogante Zlatan Ibrahimovic, saiu-se bem na Liga dos Campeões, mesmo que a campanha na Ligue 1 ainda esteja por realmente impressionar, com a chama de resistência  do Montpellier, improváveis campeões na última temporada, se apagando.


Ponto baixo | A final da Copa Sulamericana teve cenas lamentáveis de violência

Londres foi o centro de todas as atenções do mundo durante os Jogos Olímpicos. David Beckham foi rejeitado por Stuart Pearce no ano que seu projeto Hollywood chegou ao fim e o futebol ficou relegado às sombras enquanto o Team Great Britan capturou os corações da nação inglesa. A vitória do México sobre o Brasil, na decisão, sinalizou o surgimento do país como uma força regional e, por fim, indicou o início do fim da estrada para Mano Menezes.

O Palmeiras foi rebaixamento no Brasileirão, depois de conquistar a Copa do Brasil, mas o técnico Luiz Felipe Scolari sacudiu a poeira e reassumiu as rédeas da Seleção depois de uma boa rodada de confusões políticas na CBF, que terminou com a saída de Andrés Sanchez.

O Fluminense venceu o Brasileirão pela segunda vez em três anos, e o Corinthians faturou a Libertadores e o Mundial de Clubes da FIFA, mas foram os eventos da Copa Sulamericana que realmente trouxeram a atenção da imprensa mundial para o Brasil. Os argentinos do Tigre alegaram terem sido intimidados pela polícia e por seguranças do São Paulo durante o intervalo da final, no Morumbi, dentro dos vestiários, recusaram-se a voltar para terminar o jogo e foram declarados derrotados. O troféu foi entregue ao São Paulo, que àquela altura vencia o jogo por 2 a 0.

Não muito longe da Copa das Confederações e da Copa do Mundo, há certamente muito trabalho a ser feito dentro e fora dos campos na América do Sul.

O futebol na Ásia foi novamente dominado pela Coréia do Sul. O Ulsan Hyundai conquistou a terceira taça em quatro anos para um time coreano na Champions League asiática. No campo internacional, o Japão continua sendo o grande destaque, alcançando enormes avanços sob o comando de Alberto Zaccheroni.

Na África, a Zâmbia e o técnico Herve Renard prestaram homenagens ao time de 1993 que pereceu nas águas do Atlântico na conquista da Copa Africana de Nações sobre a Costa do Marfim. A federação da Zâmbia também levantou a mão para protestar contra o recorde de Lionel Messi, alegando que Godfrey Chitalu, que estava a bordo do avião naquele fatídico acidente, é o verdadeiro recordista de mais gols em um único ano, superando Gerd Müller - e Messi - com 107 tentos no ano de 1972. A disputa dos números segue viva.


Ponto alto | Messi superou vários recordes em 2012

A guerra pessoal entre Messi e Cristiano Ronaldo é outro embate que continua a entreter a todos. Ambos impressionaram pelas suas seleções em 2012, e ambos perderam pênaltis decisivos nas semifinais da Liga dos Campeões. A maior conquista na última temporada foi do português, que sagrou-se campeão espanhol, mas Messi se reergueu. Tito Vilanova substituiu um exausto Pep Guardiola e devolveu o Barcelona ao topo da tabela de classificação na Espanha antes de ser afastado do cargo por um câncer recorrente. José Mourinho, por outro lado, parece determinado a derrubar todas as muralhas que o protegem no Santiago Bernabéu, declarando guerra a tudo e a todos.

O próximo verão europeu pode trazer uma dança das cadeiras entre técnicos, com os cargos de Sir Alex Ferguson, rumo ao seu 20º título com o Manchester United apesar do colapso da última temporada, e Arsene Wenger, rumo a 20 anos sem títulos no Arsenal, abertos para especulação. Mas enquanto Ferguson permanece no controle dos seus planos de aposentadoria, seu colega francês pode ser apressado para isso pelos oposicionistas no Emirates.

Então de fato houve muito para se saborear em 2012. Futebol e histórias para colocar um sorriso no rosto de cada um. Mas há, infelizmente, uma insídia corroendo o tecido essencial do jogo que os engravatados da FIFA não parecem interessados em parar.

Uma das mais significantes dentre todas as história de 2012 foi, talvez, uma questão de vida, morte e Liverpool; a tragédia que esvazia as palavras de Shankly ao ponto da irrelevância. O Painel Independente organizado para investigar o terrível desastre em Hillsborough, onde 96 torcedores dos Reds morreram esmagados na final da FA Cup de 1989 contra o Nottingham Forest, no estádio do Sheffield, decidiu que, depois de 23 anos de injustiça, as famílias da vítimas finalmente veriam as verdadeiras versões dos fatos daquele dia negro na história do futebol emergirem. Uma imagem que finalmente tiraria a culpa daquela terrível tragédia de cima dos próprios torcedores, mortos e feridos.

O futebol pode ser parte da vida e o ódio não deve ser parte de nenhum dos dois. É apenas um jogo - não questão de vida ou morte

Pouco antes da decisão sobre os eventos daquele abril de 1989 saírem, um episódio de violência em estádio deixou 79 torcedores do Al Ahly mortos em Port Said e parou o futebol o futebol no Egito. A conquista da Champions League africana pela equipe foi dedicada às vítimas. Mais tarde, torcedores do Senegal causaram um tumulto enquanto sua seleção perdia uma partida para a Costa do marfim. O princípio da confusão foi diferente, mas o resultado tristemente familiar: morte, tristeza, raiva.

O futebol pode fazer parte da vida e o ódio não deveria ser parte de nenhum dos dois. Ainda é jogo, um esporte e um passatempo - não questão de vida ou morte. A morte de Piermario Morosini devido a um problema cardíaco aconteceu apenas dias antes do silencioso colapso de Fabrice Muamba em White Hart Lane. Por sorte, Muamba sobreviveu, e pôde pisar novamente no gramado, diante de um Reebok Stadium lotado, para receber justas homenagens, ainda que a carreira de jogador tenha chegado ao fim. A vida é mais importante do que o jogo. Em Port Said e em um campo amador em Amsterdam, em 2012, a morte lançou uma sombra prematura e injusta.

Um lembrete de que a vida é, de fato, uma coisa preciosa. Esperamos que, em 2013, a alegria e a generosidade sejam mais proeminentes.