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Se "toda coerência é, no mínimo, suspeita", Mano surpreende na convocação ao chamar Arouca, que já teve dias melhores e goleiro Cássio, que era reserva do Timão no início do ano.

POR THALES MACHADO - Rio de Janeiro

Dirão as más línguas que Mano Menezes simpatiza com uma ou outra ideia do centenário Nelson Rodrigues. É que em uma das diversas boas frases do cronista que vivo, completaria 100 anos hoje, Nelson tripudia dos coerentes. Diz ele que “toda coerência é, no mínimo, suspeita”. No mínimo,  Mano quis afastar de si qualquer acusação de ter coesão. Na convocação de hoje, dos 22 jogadores chamados para os amistosos diante de África do Sul e China, os nomes de Cássio, do Corinthians e do santista Arouca saltam os olhos. De resto, jogadores que seguem um trabalho que ainda não chegou a inspirar confiança e a cada convocação se vê que, provavelmente, nunca inspirará.

Adryan - Flamengo x BahiaQue fique claro: Arouca merece uma chance de ser testado para a Copa do Mundo. Difícil hoje imaginá-lo como um herói do hexa,  mas o volante santista faz boas partidas desde 2010. Ultimamente, no entanto, nem tão boas assim. A incoerência de Mano é justamente chamar o jogador no pior momento dos últimos tempos. Arouca já esteve melhor e o futebol precisa pensar os atletas não como seres de habilidade fixas, categorizados entre bons e ruins. Arouca já foi muito bom e muito selecionável. Hoje, talvez não seja mais. Tivesse sido convocado anteriormente, poderia ter visto seu futebol continuar crescente se não no Santos,  ao menos com a amarelinha.

-  Não é de hoje (que queria convocar Arouca). Eu havia deixado claro que pensava em trazê-lo para a Seleção. Algumas vezes isso foi impossível. Agora se abriu essa possibilidade e estamos efetivando duas convocações pela primeira vez, uma do Arouca e outra do Cássio. - declarou o treinador hoje, em coletiva após a convocação.

Cabe lembrar que nem no Superclássico das Américas do ano passado, quando Mano só pode convocar jogadores que atuam no Brasil, Arouca foi lembrado por Mano. Parece um desespero de buscar no passado, jogadores para tentar um brilho no futuro da Seleção. Ronaldinho Gaúcho foi um exemplo, não deu certo.

Adryan - Flamengo x BahiaA posição de goleiro é, por incrível que pareça, a mais problemática para Mano Menezes. Com Cássio, já temos um time inteiro de goleiros testados, onze no total. Diego Alves, Fábio, Gabriel, Gomes, Jefferson. Julio César, Neto, Rafael, Renan e Victor são os outros. Uns continuam cotados, outros já foram esquecidos. Cássio é herói para sempre no Timão, mas tem pouca caixa para ser testado na Seleção. E convenhamos, a Seleção tem pouca caixa para testes faltando menos de 10 meses para a Copa das Confederações.

- Temos ótimos goleiros, que vão se colocar como goleiros para a Copa do Mundo. Cássio é um goleiro que já conheço, trabalhei com ele no Grêmio. Está entre os nomes que gostaria de ter na Seleção para ser uma opção. Tenho plena confiança em Jefferson, Diego. Tivemos uma passagem curta com Rafael que devemos voltar a ter em breve. Mas é óbvio que não temos uma unanimidade – disse, esquecendo se, desta vez, de Nelson Rodrigues que quase provou com as palavras, por A mais B, que toda unanimidade é burra.

“Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar”, segue Nelson e lê Mano, sabendo que o povo, quase em uníssono, reclama: Diego Cavalieri, destaque do Fluminense na temporada, se tivesse que testar alguém, deveria ser chamado.

Mano, um amante do cargo, sem medo de sair

Adryan - Flamengo x BahiaO técnico da Seleção Brasileira, seja ele quem for, é um incoerente por natureza. Gosta do cargo, gosta do trabalho e tem o pior emprego do mundo. Se um chefe que opina demais é chato na labuta de cada um, imagina ouvir o pitaco de milhões deles, que ainda pensam que são chefes?

As críticas já acertaram e erraram com os nobres treinadores que passaram pela CBF. Já exorcizamos Felipão por não levar Romário para a Copa e ruborizamos depois com o Penta. Degolamos sem conseguir tirar a cabeça de Dunga em busca do Hexa e regozijamos depois a derrota, como quem aponta o dedo e julga com um sonoro “eu avisei”. Entortamos a cara para Mano hoje para saber o que fazer amanhã.


"Qualquer um de nós já amou errado, já odiou errado."

-Nelson Rodrigues, simplificando o parágrafo anterior
Mano Menezes é mais um que ama o seu péssimo emprego. Ama de verdade, sem vergonha. Balançado após a prata olímpica, resiste a pose, fica firme, finge controle e esconde, acima de tudo, o desespero. Ele tem medo. Não de perder, não de estar errado, não por duvidar de Arouca, Cássio, Ganso ou até mesmo do que Neymar é capaz. É um sonho chegar ao ápice, fazer o que ninguém fez. O treinador da Seleção Brasileira na Copa de 2014, seja ele quem for, é um sonhador por natureza. Sonha em trazer o Hexa, hoje difícil até na imaginação, dentro de casa. Quem não ama ter a chance de poder chegar ao auge?

- Nunca me preocupei com isso – respondeu Mano, perguntado se temia não ser o treinador na Copa de 14.

- O amoroso é sincero até quando mente – retrucou Nelson Rodrigues, mesmo falecido, de tão lembrado no dia do seu centenário.

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