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Zinho nega, mas está na cara: o Flamengo vive mais um confronto entre o seu capitão e camisa 10, Ronaldo, com o treinador. Desta vez, é Joel Santana que se irrita com o gaúcho.

POR THALES MACHADO - DIRETO DO RIO DE JANEIRO

O ano do Flamengo começou com uma crise que emendou em outra e, daí para frente, não teve semana sem o já conhecido ambiente turbulento da Gávea. A primeira do ano, relembrem, foi um entrevero entre o craque do time, Ronaldinho, sempre ele, Gaúcho e o técnico da equipe, á época ainda Luxemburgo, e ainda nos primeiros dias de Janeiro. Meses se passaram, o verão virou outono, o Fla trocou de técnico e a crise de hoje é a mesma de ontem: R10 e o técnico Joel Santana trocam farpas via imprensa e, por mais que Zinho, diretor de futebol,  bote panos quentes, a fervura entre o meia e o treinador já é bem mais que fumaça.
A história de uma irritação

Se os vinte e tantos dias sem jogos oficiais esconderam o que o Fla poderia mostrar em campo, parece que as férias forçadas também esconderam o desgaste do casamento nunca feliz entre Joel e Ronaldo. Pistas, no entanto, não faltaram. Desde os resultados ruins na primeira fase da Libertadores, Joel já fala em cobrar mais dos mais experientes do grupo. É evidente: esperava se de R10 uma liderança do time, o que ele não faz; esperava se então que, incapaz de ser o jogador que foi no Barcelona, que ele fosse um pouco inferior, mas ainda capaz de ser tecnicamente bem acima dos adversários no futebol brasileiro. Por último, pensava se em R10 como  um bom garoto propaganda para o marketing rubro negro. Nem isso. Mesmo com outras opções, e mesmo não tendo nada a ver com a diretoria do Fla, é natural que Joel se irrite com tudo que envolve o seu camisa 10.

A segunda pista veio nos treinamentos. Quatro semanas sem jogos, quatro semanas sem muito assunto. Os jornalistas que cobrem o Fla tinham que perguntar sobre os temas do time e não há assunto mais pautado na Gávea do que o ex melhor do mundo. Joel já mostrava irritação com as perguntas sobre o meia.

- Eu que estou aqui há três meses... está ficando cansativo (responder sobre Ronaldinho). Ele é um cara completo, conquistou tudo. Quando não rende o que a gente espera, nós temos que responder por ele... Não posso. Pergunta para ele. É maduro o suficiente para o dia que quiser vir aqui falar com vocês. Como vou responder de um cara que é campeão mundial, melhor do mundo, financeiramente definido?! Ele que tem que falar com vocês por que não está rendendo. Não tenho que tomar conta do Ronaldinho, quem tem que fazer isso são os seguranças dele. Não tenho que responder sobre o comportamento dele, aonde ele foi, aonde deixou de ir. O dia que ele achar que deve responder, ele vem aqui – desabafou.

Sempre é importante lembrar: enquanto Joel costuma dar três ou quatro entrevistas coletivas por semana, Ronaldinho não dá nenhuma. O jogador é o único do elenco que não é escalado pela assessoria de imprensa do clube.

Prestes a estrear no Brasileirão Joel deu uma entrevista bombástica ao “Globo Esporte” e criticou, mesmo sem citar jogadores, o comprometimento dos jogadores. Só quem guarda uma inocência das que não são permitidas no futebol profissional para não entender que o recado tinha a mesma direção da rota de colisão de Joel:  Ronaldinho Gaúcho.

Nós resolvíamos as coisas entre nós e o clube tinha comprometimento dentro de campo. E nós não  estamos tendo este sentimento e este comprometimento. E nós estamos precisando de mais comprometimento.

                                                                                                          Joel Santana

E aí veio o Brasileirão...

E finalmente o Flamengo entrou em campo. Sábado, em Recife, o time estreou com empate de 1 a 1 com o Sport, em uma atuação coletiva muito abaixo do esperado para quem treinou mais de vinte dias. O empate poderia ter sido derrota, e as declarações adicionaram mais um capítulo da rota de colisão entre os dois. Ao ser perguntado sobre a atuação do meia, Joel economizou palavras, mas não sinceridade:

Vocês viram como foi, deixo para vocês falarem.


- Joel, ao ser perguntado pelos jornalistas sobre a atuação de R10, após o empate contra o Sport.

E como foi? Ronaldinho, de novo, não foi bem nem mal. Participou da jogada do gol, mesmo que timidamente, mas de resto, errou passes e se comportou como um jogador mediano normal. Pouco para um camisa 10 do Fla.

Como se não bastasse a crítica de Joel, mais farpas foram trocadas via imprensa. Primeiro, foi R10 que analisou o time taticamente. Papai Joel não gostou.

No primeiro tempo, jogamos com dois atacantes e o Sport com três zagueiros. Fica difícil assim. Mas no segundo tempo, com o Deivid, ficamos três contra três, empatamos e criamos outras oportunidades.


- Ronaldinho, analisando taticamente o empate com o Sport.

Joel, claro, comentou.

- Não quero saber de fofoca. Quem tem que comentar a opção tática sou eu. Jogamos da maneira que treinamos. Começamos de um jeito e terminamos de outro. No segundo tempo, jogamos melhor e poderíamos ter vencido. Não tem essa de que o Ronaldo falou. Quem fala de tática de jogo sou eu, mais ninguém. - enfatizou. 

Quem tem que comentar a opção tática sou eu. (...) Não tem essa de que o
Ronaldo falou.

      
A foto na declaração de Joel com a camisa do Botafogo não é mero acaso. Vale lembrar outra passagem semelhante de Joel em outro time carioca. Ano passado, no Botafogo, o treinador teve uma polêmica parecida com o atacante Loco Abreu. O atacante uruguaio fez uma análise tática do time, Joel não gostou, várias declarações com pequenas cutucadas entre os dois foram dadas e a relação ficou desgastada. Loco queria um time mais ofensivo e não gostava da retranca de Joel. No fim, o clima ruim com Abreu, os resultados ruins e as vaias da torcida fizeram o técnico deixar o Botafogo.

 

Panos quentes porque já está fervendo.

E mal chegou ao Fla e Zinho já tem uma questão a resolver. A crise entre treinador e craque mostra que o trabalho do ex meia será duro. Com a repercussão das declarações, o diretori fez questão de conversar com os dois e declarou à imprensa que não há briga. Será?

- A colocação de Ronaldinho não criticou esquema tático. Foi um comentário normal. Não vejo isso como uma crítica, mas uma análise. Conversei com o Joel, que falou que não respondeu ao Ronaldo. Vou acreditar nos dois. Vamos finalizar isso. Chega. Eles não estão brigados. Não tem briga nenhuma. Pedi para ambos tomarem cuidado com o que falam, principalmente eles, o capitão e treinador, porque toma uma dimensão - declarou o recém empossado dretor de futebol Zinho.

De fato não é declarado. Joel e R10 se falam e se respeitam mas a rota de colisão entre os dois é certa. Impressiona é Ronaldinho não responder. Qualquer outro jogador mais intempestivo, em seu lugar, responderia à declaração do treinador aos jornalistas após o empate com o Sport. Joel jogou R10 na fogueira da imprensa.

Cogita-se nos bastidores do Flamengo um processo de fritura de Ronaldinho. Sua saída é pedida pela torcida, alguns privilégios incomodam o grupo e a falta de vontade e comprometimento, somada à suspeita que teria chegado sem condições para treinar e atrasado na última semana, fazem grupo e parte da diretoria se voltarem contra o meia. Patrícia Amorim, presidente do Flamengo, considera R10 um “patrimônio do Flamengo” e disse que sequer cogitou a saída do meia após as eliminações no primeiro semestre, quando o coro antidentuço foi ouvido pela primeira vez com mais vigor no rubro negro.

Duas personalidades fortes, uma que fala muito, outra calada, mas com um poder muito grande dentro do flamengo, em rota de colisão. Aguardando cenas dos próximos, e provavelmente turbulentos capítulos.

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