thumbnail Olá,

Goleirão do Valencia fala com exclusividade ao Goal.com sobre o início de sua carreira, e experiência no Almería, Valencia e Seleção Brasileira

POR MATHEUS HARB

Dizem que ser goleiro é adotar uma das funções mais ingratas do futebol, podendo passar de herói a vilão em um piscar de olhos. Vá dizer isso ao goleiro Diego Alves, do Valencia e da Seleção Brasileira, que experimentou principalmente a primeira parte em seus quase oito anos de carreira profissional, cinco apenas no futebol espanhol. Se ele passou maus bocados no Atlético Mineiro, quando a equipe foi rebaixada à Série B do Brasileirão, foi para se tornar uma das lideranças da equipe que retornou à elite no ano seguinte, em 2006.

Aos 26 anos, Diego conta com exclusividade ao Goal.com sobre o amadurecimento proporcionado por essa experiência, que o ajudou a se tornar um ídolo no modesto Almería, e um destaque da Liga Espanhola sob o travessão. Hoje, ele tem a oportunidade de disputar sua segunda Champions League com o Valencia, e conta com a confiança do técnico Mano Menezes na Seleção Brasileira.

Confira como foi o papo com este grande goleiro!

Como foi para ti a experiência no Atlético Mineiro, já que participastes do elenco que foi rebaixado em 2005, e que se sagrou campeão da Série B em 2006?

"Eu cheguei ao clube em 2004, passei pouco tempo pelos juniores e já fui treinar entre os profissionais. Já nesse ano, a gente brigou contra o rebaixamento, ficamos na primeira divisão na última partida, acho que foi contra o São Caetano. Em 2005, o time não conseguiu se manter na primeira divisão, e em 2006 conseguimos dar a volta por cima. Foi um momento de reestruturação para o clube, o que foi muito bem executado, na minha opinião. Pra mim foi um momento chave, um divisor de águas: pude jogar, enfrentar um momento difícil, de muita pressão, em que eu aprendi muito e tirei muitas lições positivas. Se hoje eu tenho essa personalidade e essa experiência, foi devido à essa pressão sofrida no Atlético Mineiro."

Ainda acompanha ou mantém contato com alguém do Atlético?

"O treinador de goleiros lá é o Chiquinho (Francisco Cersósimo), que é o mesmo da Seleção, e tenho vários outros amigos por lá. Tive uma história bacana no Atlético, sempre que possível acompanho os jogos e torço. Sei das dificuldades que o clube passa às vezes, mas sempre ficamos na torcida para que o clube volte ao lugar que ele merece. Uma torcida com tanta tradição, tanta emoção, merece coisas positivas."

Pode-se dizer que ter vivido tudo isso te ajudou no Almería, um clube modesto que havia acabado de subir à primeira divisão?

"No primeiro ano em que eu cheguei, o Almería terminou o Campeonato Espanhol em oitavo lugar, uma campanha sensacional. Mas eu sabia que esta não era realidade do clube: a realidade do clube era brigar para se manter na primeira divisão. Não havia pressão lá, independente da situação que o clube vivia. Era diferente, o Atlético é um time de massas, de pressão. Até estranhei quando cheguei na Espanha, tive que me acostumar com esse tipo de coisa. Me acostumei em jogar com o Mineirão lotado, enquanto o Almería tinha um estádio menor, de 20 mil pessoas, que nem sempre lotava. Tive que mudar a cabeça, o ‘chip’, para me assentar bem no clube e tentar buscar os objetivos que eu tinha aqui na Europa."


O fato de ter chegado à Espanha sem tanta badalação influenciou na tua adaptação?

"Na Europa, as pessoas dificilmente conhecem os jogadores brasileiros, com exceção a quem já está na Europa ou a um Neymar, um Ganso, que consegue se sobressair no futebol brasileiro. Mas eu cheguei como uma promessa, um investimento que o clube estava fazendo a longo prazo. E deu certo. Cheguei com 22 anos, passei outros quatro e pude crescer e aprender muita coisa no Almería. Foi importante me adaptar a tudo isso que estou vivendo no Valencia: aspectos dentro do campo, a parte tática, coisas que a gente só pega com experiência.”

Imaginava que faria um sucesso tão rápido?

"Com o conhecimento da Liga que eu tenho, hoje, vejo que consegui uma coisa muito difícil de acontecer. Em pouco tempo, em um clube pequeno, conquistei muitas coisas boas, recordes e números expressivos. Sinceramente, não esperava tudo isso, mas as coisas na minha vida sempre aconteceram de forma muito rápida, sempre corri atrás dos objetivos e consegui conquista-los. Tive um reconhecimento muito cedo por parte da imprensa, o que foi muito bom para a adaptação."

Já em 2008, foste chamado pelo Dunga para a Seleção para alguns amistosos, mas acabou não sendo mais convocado depois das Olimpíadas de Pequim. Isso mexeu contigo, de alguma forma? Imagina o porquê disso?

"O que me atingiu mais foi não ter participado de nenhum minuto durante as Olimpíadas. Foi um mês de amistosos e jogos, em que eu fui o único jogador que não chegou a disputar nenhum minuto. Mas não deixa de ser a opinião do treinador, ele tinha aquela opinião naquela época e a gente tinha que respeitar, é preciso ser profissional nessas horas. Pude participar das Olimpíadas, ficamos com a medalha de bronze. Sabia que tinha muita coisa pra acontecer, segui trabalhando, mantendo meu foco principal, que era na Europa."

As tuas atuações acabaram chamando a atenção de muitos clubes grandes da Europa. Como acabou ocorrendo a transferência para o Valencia? Tivesse que pensar muito, já tinhas o desejo de ir para uma equipe maior?

"A gente teve algumas propostas. Todos sabiam que estava chegando ao ponto em que o Almería ficaria pequeno para que eu pudesse progredir na minha carreira. Escolhi por seguir no futebol espanhol, já que era o lugar onde eu estava adaptado e tinha jogado muitas partidas. Acho que foi a escolha certa, acertamos com o Valencia, que estava precisando de um goleiro confiável. Fiquei feliz, porque sabia da grandeza do Valencia na Espanha e na Europa."

No Valencia, tu tens recebido menos oportunidades do que no Almería. Como é a tua relação com o Vicente Guaita, essa competição diária pela titularidade?

"Quando eu vim para cá, sabia que chegaria nesse momento. O Guaita é uma prata da casa, uma promessa que hoje já é realidade. É um ótimo goleiro, temos uma relação muito boa. Aqui em Valencia, muitos pensaram que poderia ser diferente, como o que passou entre o [Santiago] Cañizares e o [Andrès] Palop, que tiveram problemas profissionais entre eles até a saída do Palop. O caso era muito parecido: um goleiro das categorias de base, com outro que chega de fora. Mas comigo e com o Guaita é totalmente diferente. A gente sempre soube lidar muito bem com isso. Nesse ano, tive a oportunidade de jogar em todas as competições, Liga, Champions, Copa do Rei e Europa League. O saldo foi bem positivo. O Guaita teve uma lesão no início da temporada, parou por três meses, e foi a oportunidade que eu tive para jogar. O treinador acabou optando por me deixar jogando na Champions League, Europa League e Copa do Rei, enquanto ele jogava a Liga Espanhola. Foi um revezamento que deu certo, embora eu nunca tenha passado por isso. A experiência foi boa, ajudamos o clube a atingir seus objetivos, que era de terminar em terceiro no Espanhol. Dessa maneira amigável, podemos chegar aos lugares que o clube almeja. Não sei como vai ser daqui para a frente, todo goleiro quer jogar e ser titular. Mas a decisão final é do treinador, nós temos que trabalhar e esperar as oportunidades."

Tu completas a tua primeira temporada no Valencia, ao mesmo tempo em que o técnico Unai Emery está completando seu ciclo no clube. Como foi a trabalhar com ele? O que tu espera com a chegada do Mauricio Pellegrino?

"O Unai é uma pessoa que eu já conhecia. Ele foi o treinador no meu primeiro ano de Almería, quando terminamos em oitavo. É um treinador que adquiriu muita experiência no Valencia, sofreu muita pressão, e conseguiu algo que muitos não conseguem, que é classificar para a Champions por três anos seguidos. Para um treinador do Valencia, que precisa encarar as duas potências que são Real Madrid e Barcelona, acho que ele atingiu os objetivos dele. Quanto ao Pellegrini, acho que ele é uma referência do clube. É uma aposta, não o conheço pessoalmente, não tenho ideia do trabalho que pode ser feito, mas, do mesmo jeito que o Guardiola foi uma aposta no Barça, ele é para o Valencia. Vamos torcer para que dê certo, ele já conhece o clube muito mais do que eu, pelo tempo em que ele viveu aqui. Ele sabe o que precisa ser feito para que o clube consiga atingir seus objetivos."

O Valencia pode ser considerado a terceira força na Espanha?

"Acho que sim, faz três temporadas que o Valencia mantém a terceira colocação e consegue a vaga direta à fase de grupos da Champions. Existem outros clubes, como o Málaga, que estão apostando muito para conseguir a vaga, e o Valencia já consegue isso nessas temporadas. Olhando o histórico recente da Liga, pode-se dizer, sim, que o Valencia é a terceira força na Espanha."

Acha que é possível ir além do terceiro lugar na Liga Espanhola, na próxima temporada?

"Hoje é difícil. A gente sabe que a parte financeira de Real Madrid e Barcelona são muito diferentes do Valencia, pelo que recebem de cotas de televisão, e os jogadores que podem contratar. São as duas potências mundiais, embora não tenham chegado na final da Champions. O fato de você chegar logo atrás, em terceiro, já é uma condição importante para o Valencia. O objetivo do clube é chegar ao ponto de poder brigar com eles, mas é muito complicado pela força dos dois, tanto na parte financeira quanto pelos jogadores que têm à disposição."

Estás completando quase cinco anos no futebol espanhol. No Brasil, alguns grandes goleiros, como Jefferson, Victor e Felipe, optaram por permanecer ou voltar ao país. Pela tua experiência, acha que o goleiro precisa ir para o exterior para atingir seu maior nível?

"Eu acho que, hoje, o futebol brasileiro está um passo atrás do futebol europeu. O melhor futebol jogado, na minha opinião, está na Espanha, e na Inglaterra, as duas ligas mais fortes. Falo por mim, acho que o goleiro, aqui na Europa, se transforma. No Brasil, existe um jeito de trabalho e uma maneira de jogar totalmente diferentes. Me considero um goleiro muito diferente àquele que saiu em 2007. Se você tem a oportunidade de vir para a Europa, é um passo grande que você dá na sua carreira, para subir um nível. Para mim, foi muito positivo ter vindo na primeira oportunidade que recebi, e ter passado todo esse tempo aqui."


Quais são teus planos para o futuro com relação à Seleção, levando em conta que também estás na pré-lista dos jogadores que serão levados para os Jogos de Londres?

"O Mano tem suas opções, mas acho que  já deve ter definido quem será o goleiro. Se ele precisar, e quiser contar comigo, estou à disposição. Já participei de Olimpíadas, vi como é, mesmo não tendo jogado. Ter vivido em meio a esse ambiente olímpico foi um aprendizado. Acho que o futebol é assim, você precisa estar preparado quando for chamado, independente qual for a Seleção. Em relação ao Julio Cesar: acho que chega um momento em que você tem que manter o nível, seguir mostrando que você continua sendo aquele goleiro que sempre teve êxito durante a carreira. O Julio Cesar é um goleiro campeão, ganhou títulos na Itália, na Seleção, você tem que respeitar essa história. Eu tenho a minha história, e os outros goleiros também. Todos brigam para jogar, por espaço, mas é o treinador da Seleção quem decide."

Já consegues perceber a diferença entre o estilo de Mano e Dunga?

"Convivi com o Dunga nas Olimpíadas. Eles são diferentes, né? Cada um tem seu estilo. Pude acompanhar o Mano no Corinthians, quando resgatou o time da segunda divisão e foi campeão da Copa do Brasil na sequência. Acho que é por aí."

Qual a tua opinião sobre as críticas que o Mano Menezes vem sofrendo no comando da Seleção? Acha que é possível pensar em título na Copa do Mundo, no estágio atual?

"A contestação é permanente, a pressão é muito grande no Brasil, quando o resultado não vem. Ser treinador da Seleção brasileira exige uma tranquilidade excessiva, qualquer derrota pode colocar mais pressão sobre o teu trabalho. Hoje, o futebol está muito nivelado. A Espanha, que nunca tinha vencido uma Copa do Mundo, veio e venceu com um futebol brilhante. Essa noção de que o Brasil é uma liderança precisa mudar, o povo brasileiro precisa entender que a história é outra. A Seleção, hoje, não vai jogar um time desconhecido e vencer por oito ou nove gols, como acontecia antigamente. Em 1994, a Seleção foi sem nenhuma confiança e voltou com o título. Então, a gente nunca pode prever o que vai acontecer. O futebol é baseado resultados, mas você precisa dar tempo, esperar e torcer para que o Mano encontre a Seleção ideal e, a partir daí, trabalhar para buscar o Mundial em 2014."

Tem alguma partida na tua carreira que te marcou de alguma forma única? Como foi?

"Tem sim. Tem uma, quando eu estava no Brasil, que foi o divisor de águas. Eu havia voltado a jogar pelo Atlético Mineiro, no Mineirão, em 2006, contra o Coritiba. E, aqui na Espanha... teve bastante (risos). Acho que foi a minha primeira partida, é sempre a que marca. Foi contra o Sevilla (estreiando pelo Almería), vencemos por 1 a 0. Foi um jogo em que tudo aconteceu de forma espetacular, consegui ir muito bem e marcamos um gol no último minuto. Cheguei e apresentei meu cartão de visitas (risos)."

Os teus números com pênaltis são muito bons, e tu podes ser considerado um ‘especialista’ em defender cobranças. Qual é o segredo de Diego Alves?

"(Risos) Não posso te contar, se não depois começam a fazer gol em mim (risos). Mas, na verdade, eu sempre tive facilidade em pegar pênaltis, desde as categorias de base... Não sei se é uma questão de intuição, ou algum movimento. Eu defendi as duas últimas cobranças quando jogava no Brasil, e já carrego um número bastante importante aqui na Espanha. Nunca pensei em chegar a essa marca, nunca foi um objetivo para a minha carreira. Mas as coisas aconteceram de forma tão natural que hoje, com esse números, chegam para mim e dizem: ‘Puxa, você é um especialista!’ Foi uma surpresa, existem goleiros que jogam aqui há vinte anos e não chegaram nem na metade. Estou aqui há cinco anos e já quebrei vários recordes, acho que foi uma das coisas que me deu destaque no futebol."


Como se atualizar com as notícias do futebol mundial fora de casa? Com http://m.goal.com - sua melhor fonte de cobertura para celulares do futebol.

Relacionados