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As principais características do sistema que vem sendo amplamente utilizado na Europa e já ganha espaço no Brasil

Quando Mano Menezes assumiu o comando da Seleção Brasileira, afirmou que, desde que tenha jogadores para tanto, acredita que o 4-2-3-1 é a melhor maneira de organizar uma equipe de futebol. Ele certamente não está sozinho.

Inter; campeã europeia no 4-2-3-1.

O sistema de jogo vem se disseminando entre clubes e seleções como se fosse uma condição inevitável para a formação de uma equipe vencedora. Mas por que isso acontece? É o que tentamos responder com a ajuda de alguns especialistas.

A aposta de Wenger

No início dos anos 2000, muito antes de o 4-2-3-1 virar moda entre os treinadores do futebol mundial, ele aparecia com força no time do Arsenal.

Wenger apostou no sistema no Arsenal.

Arsène Wenger já mostrava sua capacidade de nadar contra a corrente ao apostar no sistema, que lhe trouxe grandes resultados. Aos poucos, a formação foi se disseminando como um vírus pelo futebol na Europa, chegando eventualmente ao Brasil.

Mano foi um dos introdutores do sistema no futebol brasileiro, aplicando-o com sucesso no Grêmio de 2006 e 2007, isso após ter viajado a Londres e acompanhado treinamentos do Arsenal para se familizarizar com a formação.

Utilização ampla

Um pequeno levantamento nas principais competições do futebol mundial permite constatar a extensão do domínio do 4-2-3-1. Na última Copa do Mundo, por exemplo, apenas o Uruguai não jogava com o sistema entre os semifinalistas da competição.

Mourinho é um dos treinadores que utiliza o sistema.

Entre os oito times que participaram das quartas de final, cinco eram escalados no 4-2-3-1 (Espanha, Alemanha, Holanda, Brasil e Gana). Além disso, o sistema completou uma "tríplice coroa" na temporada, ao "vencer" a Copa do Mundo, a Champions League e a Copa Libertadores com Espanha, Internazionale e Internacional, respectivamente.

Celso Roth, campeão da América pelo Internacional utilizando o 4-2-3-1, explica os atrativos do sistema: "É um esquema equilibrado, que tem marcação pelo lado do campo e que, dependendo das características dos jogadores que tu tens, se torna muito flexível. Os jogadores que jogam na linha de três (articuladores), se forem habilidosos tecnicamente, chegam muito fácil para atacar".

Para Eduardo Cecconi, redator do site Globoesporte.com, o 4-2-3-1 "é uma tendência tática, e como toda a tendência - em qualquer área de manifestação humana - dissemina-se. Tornou-se, em outras palavras, 'moda', assim como já foram todos os outros sistemas táticos".

Jogadores de flanco

Uma das características principais do 4-2-3-1 é a presença de jogadores de flanco no setor de meio-campo. A linha com três articuladores, posicionada logo atrás do centroavante, é composta geralmente por dois homens abertos e um meia centralizado.

Nem sempre estes jogadores permanecem rentes à linha lateral, mas quando a equipe perde a posse da bola, eles tem a obrigação de retomar o posicionamento para fechar o setor e marcar o lateral adversário, tarefa que exige uma grande disciplina tática.

Eto'o virou homem de flanco na Inter de Mourinho.

O senso comum ensina que o jogador brasileiro, em geral, não tem essa disciplina. Celso Roth discorda ao afirmar que "o jogador brasileiro tem disciplina tática para fazer qualquer trabalho no sentido tático. O que às vezes me preocupa são os meus colegas, que não impõem este tipo de treinamento ao jogador e que não dão esta cultura tática ao jogador. Desde o momento que o jogador seja treinado, ele cumprirá sua função tática no gramado".

As funções dos jogadores de lado do campo, ou wingers como costumam chamar os ingleses, não se limitam ao posicionamento defensivo. Há uma série de atribuições a serem cumpridas por estes jogadores que fazem com que o 4-2-3-1 seja virtuoso também na parte ofensiva.

Villa fez muitos gols como winger pela esquerda no 4-2-3-1 da Espanha.

"Eles (os wingers) podem tanto ser jogadores que aprofundam jogadas pelos lados, ou então jogadores incisivos de conclusão na área buscando diagonais, ou ainda armadores que da faixa lateral executam passes longos para a inversão e aproximam-se dos demais meias para a jogada curta", descreve Cecconi, comprovando a flexibilidade que o sistema pode conferir a uma equipe.

Por que implementar?

Se a adoção de um sistema tático depende da característica dos jogadores disponíveis, o que um treinador precisa ter em seu grupo de jogadores para decidir pelo 4-2-3-1? A versatilidade do esquema aparece mais uma vez na resposta à essa pergunta.

Roth conta como foi o processo de implementação do 4-2-3-1 no Internacional: "O Inter tem meias de muita qualidade e foi o que eu fiz, eu juntei os meias de qualidade. No momento que eu fiz isso, eu tinha o Taison, com velocidade pelo lado e que era meia nas categorias de base. Hoje nós formamos a linha com D'Alessandro, Tinga e Giuliano e eu ainda tenho Andrezinho e Edu".

Só que as diversas aplicações do 4-2-3-1 pelo mundo nos mostram que o sistema pode ser utilizado para jogadores com características das mais diversas. Um bom exemplo pode ser tirado da comparação da Seleção Brasileira de Dunga e a de Mano Menezes, ambas montadas com o esquema.

Na Copa do Mundo, o Brasil tinha um volante de origem (Elano), um meia veloz (Kaká) e um atacante (Robinho), na linha de articuladores. Com Mano, no único jogo realizado sob seu comando, teve dois atacantes (Robinho e Neymar) e um meia que cadencia o jogo e faz a bola rodar (Ganso). Diferentes características de jogadores, diferente estilo de jogar, mesmo sistema de jogo.

Iaquinta sofre quando é escalado pelo flanco.

Isso não significa, porém, que o esquema possa ser utilizado em qualquer circunstância. O 4-2-3-1 não é fórmula mágica para qualquer elenco. Uma equipe com dois centroavantes de referência, por exemplo, sofrerá ao deslocar um deles para o lado do campo. Todos viram a dificuldade do pesado Iaquinta ao ser escalado aberto pelo flanco esquerdo por Marcello Lippi no Mundial.

O 4-2-3-1 é melhor?

Versátil, vencedor e amplamente utilizado. O momento é do 4-2-3-1 no cenário tático do futebol internacional. Mas isso significa que ele é superior aos outros sistemas?

"Não posso partir desta premissa porque acabaria contrariando um conceito que defendo - qualquer sistema pode dar certo, se for bem treinado. O 4-2-3-1, assim como o 4-3-3 - de quem é uma variação - proporciona uma ocupação melhor dos espaços, e se utiliza da maneira mais inteligente de marcar, que é a pressão por zona. Mas isso não o torna superior a outros sistemas de forma definitiva, senão acabaria sendo visto como uma 'fórmula mágica' - talvez por isso tenha se transformado em tendência", afirma Cecconi.

Celso Roth, apesar de ter conquistado o maior título de sua carreira com o 4-2-3-1, afirma preferir o 4-3-3 desde que tenha jogadores para implementá-lo. Na Europa e no Brasil, apesar da predominância do 4-2-3-1, vemos equipes de sucesso com outros sistemas, como o quase estatutário 4-3-3 do Barcelona ou o 4-4-2 com duas linhas de quatro que levaram o Bayern de Munique à decisão da Champions League.

Barça tem sucesso com seu 4-3-3.

Provas de que mesmo sendo um sistema predominante no futebol atual, o 4-2-3-1 não é garantia de sucesso nem elimina a possibilidade de outros sistemas seguirem sendo vitoriosos. Como qualquer outra formação tática, tem suas vantagens e desvantagens e só leva a vitórias e títulos se for bem implementada.