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Crônica: Sessenta anos lutando e amanhã, diante do México, Brasil pode conquistar o famoso “único título que falta na galeria”. Inspiração nos brasileiros que já foram ouro em 2012

POR THALES MACHADO

Se concordarmos com Nelson Rodrigues quando disse que “toda coerência é, no mínimo, suspeita”, passaremos a entender um pouco o porquê de, até hoje, e tomara que não até amanhã, o futebol brasileiro ainda não ter uma medalha de ouro olímpica. Mesmo negando, ouvindo de alguns que “não torcem mais pela Seleção”, sabemos que o país sofre de uma pasma ansiedade para que amanhã, no jogo contra os mexicanos, possamos acabar com este erro no script do mundo do esporte bretão, justamente na Grã Bretanha. Para isso, nada mais humilde do que se inspirar em quem já tem o alvo desejado, mesmo que eles ocupem a seção de “outros esportes” nos periódicos esportivos nacionais. Uma singela homenagem aos campeões olímpicos nacionais em Londres.
 
Campeão de tudo, e por vezes, mais de quatro vezes, a Seleção Brasileira de futebol nunca se viu dourada. Desde 1952, em Helsinque (antes mesmo do primeiro título mundial), até hoje em Londres, foram 11 tentativas. No pódio, duas pratas e dois bronzes, mais amargas do que douradas.

Duro para um esporte e uma Seleção tão amiga do triunfo pensar em um sofrimento de 60 anos para por uma medalha no peito. E pensar no tal Usain Bolt, jamaicano que já fez (duas vezes!) , em menos de 10 segundos,  aquilo que a maior Seleção do mundo nunca fez em seis décadas. Amanhã, diante do México, que o Brasil de Mano não se inspire nele próprio, porque a prata já se teve em 1984 e 1988. Que a inspiração seja nos brasileiros que já douraram nestes agradáveis Jogos Olímpicos de 2012.

Adryan - Flamengo x BahiaQue os jogadores brasileiros recordem bem do distante dia um das Olimpíadas, quando, ainda de manhã, quando ainda nem se tinha acostumado com aquela penca de esportes nos noticiários, a baixinha Sarah Menezes conquistou uma medalha de ouro no Judô. De novo recorro ao brasileiro Nelson Rodrigues, que, velho, dizia com propriedade que “o jovem tem todos os defeitos do adulto e mais um: o da inexperiência.”  Sarah, mesmo sem saber, concorda.  Disse ela mesma, que pagou por isso em competições passadas. Sub-23, como os meninos da Seleção (Sarah recém completou 22 anos), pôs o “psicológico” no lugar para os Jogos Olímpicos e já colhe há mais de uma semana os louros do ouro.

E como Arthur Zanetti, ouro nas argolas de um esporte tão diferente como é a ginástica artística pode inspirar Neymar? Simples, fazendo, justamente, o simples. Há de se recordar a calma e tranquilidade do ginasta, sem piruetas, sem inventar, em uma apresentação que até pareceu sem graça para os leigos, como quase todos somos em qualquer aparelho da ginástica. Arthur sabia de sua qualidade, foi lá e fez. Não inventou, não tentou algo que não só a vitória e conseguiu algo muito além do que o ouro: a primeira medalha no esporte de um atleta da América Latina. Tudo isso sem inventar. Sem querer ser mais do que o esporte deseja que você seja. Se não captou como Zanetti pode ajudar Neymar é porque ainda não viu o craque santista jogar. Ousadia é vencer, alegria é consequência.
Adryan - Flamengo x Bahia
Sem medo da repetição, Nelson aparece novamente no texto. “O brasileiro não está preparado para ser o maior do mundo em coisa nenhuma. Ser o maior do mundo em qualquer coisa, mesmo em cuspe à distância, implica uma grave, pesada e sufocante responsabilidade”, dizia o jornalista, ainda na década de 1950, ainda antes da Copa do Mundo de 1958.

A Olimpíada nos prova, competição após por competição, que Nelson continua parcialmente correto cinco título mundiais depois. Beltrame, Hypólito, Dos Santos, Larissa, Juliana, Alison , Emanuel e cia limitada já nos deram mostras do quão difícil é se confirmar um favoritismo na hora H. No futebol, o Brasil é favorito desde a saída da Espanha.  Que as pratas, os bronzes e até os insucessos ajudem a demonstrar onde não errar. Favoritismo tem que deixar de ser carga pesada quando o uniforme é verde e amarelo. Que Alison e Emanuel, junção quase perfeita entre experiência e juventude, inspirem Thiago Silva, Marcelo e Hulk liderando meninos rumo ao tal título que falta nas galerias da CBF.

Que venha mais um ouro. Inédito e maravilhoso, mas mais um. Se os comandados de Mano são maiores o ano todo na conta bancária, no prestígio, nos noticiários e no glamour, o objetivo dos jogadores de futebol amanhã, 11h, diante do México é se igualar. Que sejam tão vitoriosos quanto são Sarah e Arthur, e que a Olimpíada, ao contrário do futebol,  não seja uma caixinha de surpresas.

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