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O triunfo da derrota irlandesa- Uma lição de fidelidade do torcedor

O triunfo da derrota irlandesa- Uma lição de fidelidade do torcedor

Stephen McCarthy

Crônica: goleada da Espanha em cima da Irlanda? Momento de maior emoção na Eurocopa até aqui foi a bela cantoria da torcida irlandesa no fim do jogo em Gdansk

Até o mais tagarela dos narradores parou de falar. Com o perdão dos dois gols de Fernando Torres e mais o de David Silva e outro de Fábregas, com o perdão do belo futebol que alemães e russos apresentaram até aqui e com o perdão até de Shevchenko, que emocionou a Ucrânia com seus os dois gols: o momento mais emocionante da Eurocopa até aqui é, com orgulho, da única equipe eliminada do torneio.

Gdansk, cidade polonesa de nome complicada, viu hoje que complicado mesmo é o futebol. O tempo regulamentar ia-se embora e junto com ele, a normalidade do que se vê na determinista relação entre derrota e vitória. Era a Espanha sensação, campeã do mundo, fazendo o dela, o de sempre dos últimos tempos, vencendo, encantando e ainda goleando e eliminando a coitada da Irlanda. Da TV ou do estádio o que se viu foi ainda melhor do que isso. Irlandeses, verdes, copos de cerveja empunhados com orgulho e amor nas mãos, barbas e adereços de fazer inveja ao carnaval, cantavam. Alto. E dominaram o estádio.

Joel Santana - Flamengo               
Não se afirma que foi um cântico feliz, se supõe que foi um canto de orgulho e se tem a absoluta certeza de que foi um momento emocionante. Ao invés de comentaristas tecendo elogios a Iniesta, Xavi, Torres ou Del Bosque, ouvimos o silêncio dos microfones para podermos escutar melhor o fato. Irlandeses, derrotados por 4 a 0, precoces na eliminação da Euro 2012, faziam do futebol um espetáculo comparável ao que a Fúria faz dentro de campo. O envolvente toque de bola do fim de jogo pouco importou. Emocionante é pouco. O perdão é pedido de novo aos comentaristas que, encerrado o triunfal momento da derrota irlandesa (veja bem, que esse jogo fique para a História da Euro com a derrota verde, e não da vitória vermelha), disseram maravilhas sobre a torcida da Irlanda. Não é só uma torcida. O futebol vai além das quatro linhas e além das arquibancadas. O que aqueles irlandeses fizeram ali foi levar um país para um estádio e isso, garantido, é mais difícil do que o time do Velho Trapatonni vencer a Espanha.  Longe de evocar patriotismo, nacionalismo ou qualquer ismo do tipo, ver gente em grupo, em paz, com orgulhos simples, pelo simples pertencimento é bonito e raro. Não há 4 a 0 que tire a beleza disto.

Se não bastasse todo o momento estético-auditivo-futebolístico sensacional que os derrotados irlandeses nos proporcionaram... Por detrás do ritmo lento e pulsante da canção entoada por irlandeses está uma letra e, consequentemente, uma História, dessas com H maiúsculo mesmo. A música cantada no estádio polonês se chama “The Fields of Athenry”, canção popular do país criada na década de 1970. A trama da música se passa no período da “Grande fome irlandesa”, período da História do país de grande crise quando a população diminuiu em 25% por falta de comida e doenças.

O período é tão marcante que a História da Irlanda é dividida em pré e pós-fome. Na letra da canção entoada ontem pelos irlandeses no estádio, um prisioneiro escuta conversas por detrás dos muros da prisão, e ouve a notícia que vai ser deportado de seu país para a Austrália. O motivo? Roubou comida para tentar alimentar a sua família no período da grande fome. Na última estrofe a mulher do prisioneiro assiste o navio-prisão partir para o outro lado do mundo.  A esposa, triste, ainda mantém a esperança de um dia tudo voltar ao normal e ela poder reencontrar o marido.

Resumidamente, os irlandeses em Gdansk fizeram um momento memorável com uma canção que fala sobre a dignidade e a esperança, mesmo que nada mais reste. Para quem ainda não percebeu, o futebol é exatamente sobre isso.

Ao menos para os irlandeses.

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